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Políticas da história em Israel

  • André Egg
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A Invenção do Povo Judeu, de Shlomo Sand, publicado originalmente em 2008, acaba de sair no Brasil, depois de já ter provocado boas discussões em outros países. O autor é professor em Tel Aviv e em Paris, e se considera ele próprio um testemunho da dificuldade em definir a etnicidade judaica. Sua decisão de escrever a obra surgiu da discordância política com os processos de construção da história disseminada nos livros didáticos em Israel.

Segundo Sand, com base numa visão sionista do passado, o Estado de Israel se fundamenta na garantia de privilégio aos judeus. Os não judeus possuiriam posição jurídica, social e econômica inferior. O escritor demonstra como a necessidade de uma classificação rigorosa de cidadãos privilegiados levou a uma articulação íntima da política dominante com o rabinato. E contaminou o pensamento jurídico ou mesmo a pesquisa universitária em biologia e genética.

Articulando uma retórica política contra o fundamento etnorreligioso do Estado de Israel, o livro de Sand realiza um meticuloso trabalho de desconstrução do discurso sionista. O autor documenta o surgimento da historiografia sionista e seu predomínio até hoje no meio acadêmico e escolar em Israel, demonstrando que, ao mesmo tempo em que os nacionalismos se fortaleceram na Europa do século 19, especialmente nos locais de cultura germânica e no Leste Europeu, historiadores pioneiros começam a escrever as sínteses históricas capazes de dar uma identidade nacional aos judeus.

Isso era então uma novidade porque desde sempre os judeus se definiram como tais pelo pertencimento a uma comunidade religiosa. Sand segue o percurso dos eruditos alemães, depois iídiches do Leste Europeu, passa pela fundação dos jewish studies em universidades norte-americanas e chega na criação da Universidade de Jerusalém. Em todos esses lugares o discurso era semelhante, com algumas pequenas variações: a Bíblia deveria ser lida como documento histórico fiel, com a história dos patriarcas, do Êxodo, do reino de Davi.

Após a destruição do segundo templo pelo imperador romano no ano 70 d.C., teria se iniciado um exílio de quase 1,9 mil anos, em que os judeus estiveram aguardando o prometido retorno à sua terra de origem. Esta terra seria sua por direito, e o Estado de Israel deveria servir para guardar esse direito de todos os judeus exilados. Nesse discurso, os judeus não teriam se misturado com outros povos durante este tempo, tendo mantido uma pureza étnica que seria o testemunho de sua situação de povo eleito.

Desconstrução

O livro de Sand busca desmontar esse arrazoado. Segundo ele, pesquisas arqueológicas começaram a inviabilizar o discurso sionista a partir da década de 1970, quando as investigações sobre a situação do homem comum e as condições econômicas de produção, o clima, a alimentação dos tempos antigos demonstraram o quanto a narrativa bíblica não se sustenta como discurso histórico, mas meramente como livro religioso. Não existiram patriarcas, nem cativeiro no Egito, o Êxodo ou a conquista de Canaã. Nem um grande reino de Davi e Salomão. Tudo fez parte de sonhos de grandeza dos judaenses do segundo templo, que foram também os autores do que chamamos Velho Testamento.

A leitura dos cronistas antigos também leva à constatação de que os judeus dos primeiros séculos antes e depois de Cristo eram uma comunidade pluriétnica espalhada por toda a bacia do Mediterrâneo e Oriente Médio – não por emigração ou exílio, mas por conversão e proselitismo.

A ideia moderna de uma raça ou de um povo judeu, segundo Sand, demonstra a permanência dos mitos antissemitas da cristandade medieval – que instituiu o gueto e a figura do judeu semitolerado como consequência do deicídio. Mas continuavam a existir comunidades judaicas dinâmicas e influentes fora do mundo cristão – em todo o território do Islã, especialmente no califado de Córdoba, ou em reinos judeus como o dos Khazares no Cáucaso – que só foi destruído pelas invasões mongóis no século 13.

No entender de Sand, o judaísmo foi uma das grandes religiões monoteístas missionárias, que precipitaram a superação do paganismo no mundo antigo, e que articularam processos de configuração política (a cristandade latina, o Islã, o Império Bizantino). Para Sand, faria tanto sentido falar de um “povo judeu” quanto de um “povo cristão” ou um “povo muçulmano”. O judaísmo foi sempre uma comunidade religiosa, por isso não deveria servir de base de identidade para um país moderno e democrático. A criação do Estado de Israel em 1948 foi possível pela conjugação entre a ideologia sionista e a hipocrisia das nações ocidentais diante da comunidade de sobreviventes do holocausto nazista. Nenhum país estava disposto a receber os refugiados judeus, por isso um novo foi criado para este fim com anuência da ONU, pouco importando se fosse necessário desalojar centenas de milhares de habitantes palestinos.

Argumento

O que Sand argumenta, e o que o motivou a escrever o livro, é que o Estado de Israel não pode ser sustentado por muito tempo nessas bases. Um quarto de sua população são cidadãos de segunda classe por não serem considerados judeus. Os territórios ocupados na guerra de 1967 mantêm populações confinadas em condições miseráveis, que começaram a se revoltar nas intifadas de 1987 e 2000. Há ainda a dificuldade em controlar a insatisfação com uma situação que vai ficando cada vez pior para os não judeus da Galileia.

Tudo isso torna mais urgente um mergulho na verdade histórica, de onde talvez possa emergir um novo sentido de ser judeu. Sand imagina um país em que cidadãos israelenses convivam em paz, sejam judeus ou palestinos. Para isso, será preciso refazer as velhas noções de passado, permitindo sonhar com um novo futuro.

* * * * *

Serviço:

A Invenção do Povo Judeu, de Shlomo Sand. Benvirá, 576 págs. R$ 54,90

André Egg é professor do curso de música da FAP e doutor em História pela USP.

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