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Entrevista

“CPMF vai contribuir para nossa pobreza”, diz Ozires Silva

Ex-ministro e fundador da Embraer critica barreiras impostas pelo Estado e diz que somente com investimento em inovação e educação as empresas brasileiras se tornarão mais competitivas

 | Pedro Serapio / Gazeta do Povo
Pedro Serapio / Gazeta do Povo
 
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“O governo não cria riqueza, quem cria riqueza é o cidadão.” Conhecido pelo seu espírito empreendedor e visionário, a frase de Ozires Silva resume bem a sua linha de raciocínio. Para o ex-ministro e fundador da Embraer, o governo criou uma série de regulamentações que impedem a formação de um ambiente favorável aos negócios. Na visão do empresário, somente com investimento em inovação e educação será possível superar as barreiras impostas pelo Estado para conseguir tornar as empresas brasileiras competitivas globalmente. Em entrevista à Gazeta do Povo, Ozires Silva analisou o mercado em tempos de crise. Confira os principais trechos da conversa:

Como o senhor avalia a atual crise econômica brasileira?

Eu diria que nós, brasileiros, não estamos em crise. Quem está em crise é o governo. O governo é que está nos impondo uma crise. Quando um governo não paga uma conta, ele manda para o cidadão e é mais ou menos isso o que está acontecendo. Evidentemente, há problemas como a desvalorização do real e a taxa de desemprego que está subindo um pouco, mas nada de dramático. A crise é um problema que o próprio governo causou. O governo vai resolver o seu problema pessoal ou vai distribuir para nós, brasileiros? Agora mesmo, ele está tentando recriar a CPMF. A CPMF vai contribuir para nossa pobreza porque ela vai tirar dinheiro da população. Toda vez que o governo enfia a mão no nosso bolso, ele está gerando pobreza. O governo não cria riqueza, quem cria riqueza é o cidadão.

No curto prazo, será possível sair dessa crise?

Depende exclusivamente do governo. Agora, o governo está tentando obter recursos extras. Cabe a nós, cidadãos, dizer: “você, governo, não tem o direito de desandar com as suas contas e deixar para nós pagarmos isso”. Mas eu não sinto que a população brasileira seja suficientemente educada, infelizmente, para levar isso em consideração.

O senhor liderou a privatização da Embraer. Em sua opinião, a privatização é um caminho para o aumento da competitividade?

O governo não produz receita, o governo gasta o dinheiro do contribuinte. Quem promove o desenvolvimento do país é a população. Sem dúvida nenhuma, o que estiver na mão da população é o que vai apresentar rentabilidade. Temos que preparar cada cidadão para vencer e, para isso, o governo não pode criar obstáculos que impeçam o cidadão de exercer sua liberdade de criação. Nós temos um mercado comprador global, mas não vemos produtos brasileiros lá fora. Está aí um caminho que nós temos que percorrer para gerar progresso.

Como as empresas brasileiras podem buscar a internacionalização?

Isso é inteiramente livre hoje. Nós estamos vendendo avião para o mundo inteiro e não há ninguém dizendo que não quer os nossos aviões. Não há restrições para os nossos produtos. O que precisa ter do nosso lado é competência, com uma base produtora eficiente para produzir produtos de boa qualidade e com preços competitivos.

Até mesmo pequenas empresas têm capacidade para entrar no mercado global?

Sem dúvida. Se você olhar as empresas estrangeiras vendendo produtos no Brasil, a maioria é pequena. Nós temos um bom mercado consumidor, pois o brasileiro tem uma tendência a comprar coisas, não é um povo de poupança. Nós temos características que interessam muito ao mercado mundial e damos liberdade ao cidadão para comprar o que quer. Eu acho que, ao invés de segurar a importação, nós devemos procurar ser competitivos. Aí entra outro aspecto da economia brasileira: nós somos muito fracos em inovação. Os países que estão exportando produzem inovações e exportam. O Brasil produz muito poucas inovações por conta dos nossos problemas educacionais.

E como estimular a inovação?

Eliminando as barreiras. A inovação é irmã siamesa da liberdade. Se quando você cria uma inovação você tem que ir ao governo para que ele autorize, você está perdendo competitividade. A liberdade é essencial para o cidadão ter êxito. Existem estudiosos que dizem “quanto maior o governo, mais pobre a população”.

O senhor acredita que o caminho para o desenvolvimento é investir em polos tecnológicos, como aconteceu com São José dos Campos (SP), que virou um polo aeronáutico e aeroespacial?

O que era São José dos Campos antes da criação do ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica]? Era uma cidade morta. Se você olha hoje, São José dos Campos não é uma cidade morta. Sem dúvida, esse é um caminho para tornar um Estado lucrativo. Hoje, no Brasil, temos somente sete estados produtores de riquezas e o Paraná é um deles. Os outros são apenas consumidores.

Um relatório recente do Fórum Econômico Mundial mostra que os avanços tecnológicos vão eliminar milhões de empregos. Na sua visão, qual será o impacto da tecnologia no futuro?

A tecnologia é criadora de empregos, ela não é destruidora. Ela muda os empregos para melhor. Você tem na mão hoje um instrumento muito mais rico de trabalho do que você tinha antes. Temos o exemplo do celular. Hoje, existe mais de um telefone para cada brasileiro e isso gerou uma mobilidade enorme para as pessoas. E eu te pergunto: isso reduziu o emprego? Pelo contrário. As empresas telefônicas têm um exército de pessoas muito maior do que antigamente, quando havia pessoas emendando os fios da Telebrás. A tecnologia dá melhores instrumentos para se trabalhar. O que pode eliminar são os empregos tradicionais, mas as pessoas migram para outro tipo de atividade correlata.

Quais são os conselhos para quem quer empreender mesmo em um momento de crise?

Primeiro, tem que superar todas essas dificuldades governamentais que facilitariam muito a vida caso não existissem. Hoje, se quiser abrir uma empresa de costura, você tem que entrar nesse mar de restrições, de leis, de impostos, de registros e de carimbos. É uma espécie de suicídio o que estão fazendo o tempo inteiro com a possibilidade de as pessoas criarem dinheiro. Segundo, você tem que competir com o mundo. A competição não está aqui na esquina de Curitiba, ela está lá em Singapura, por exemplo. Se você pegar o exemplo dos nossos aviões, eles são vendidos em Singapura porque fazemos produtos melhores e conseguimos competir. Hoje a competição é mundial. Mas, no Brasil, a gente não conhece a palavra desregulamentação. Nós conhecemos é a regulamentação, e tudo o que você regula, você está tirando a liberdade das pessoas de vencerem.

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