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Escola ideológica? Ela existe, mas há exagero dos pais além da parcialidade em sala

As propostas para redação, por exemplo, precisam ser neutras, mas não se deve criar tabus em torno de temas sobre os quais a família possa oferecer novas visões

O fato de que se possa identificar uma tendência em sala de auladeveria ser um motivo para falar do tema e ajudar o filho a argumentar com respeito e conhecimento | Christian Rizzi /Arquivo Gazeta do POvo
O fato de que se possa identificar uma tendência em sala de auladeveria ser um motivo para falar do tema e ajudar o filho a argumentar com respeito e conhecimento Christian Rizzi /Arquivo Gazeta do POvo
 
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É verdade: há ideologia em sala de aula. Não deveria, mas há. Mas é verdade também que há pais que veem ideologia onde não existe, por exemplo só no fato de o professor propor a discussão de um tema. Um bom exemplo são as reações diante das propostas de redações de vestibulares e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): a mera inclusão de certos assuntos é entendida como propaganda de esquerda. Se existe o risco de o professor dar nota baixa para o aluno que contrarie sua opção partidária, a sensibilidade exagerada dos pais inviabiliza discussões importantes em sala de aula.

O perigo dessa postura é a criação de ‘feudos’ na sociedade, de grupos que ‘não se misturam’ e proíbem falar de temas que considerem perigosos. A falta de ensino leva ao desconhecimento, a ignorância à incapacidade de argumentação e esta, por sua vez, ao fechamento do diálogo, ao medo e à violência.

“Polarizações e radicalismos sempre existiram. O que é distintivo da posição atual é que as pessoas não têm mais nem uma disposição e nem capacidade e formação para discutirem racionalmente sobre as coisas, há uma espécie de ‘facebookização’ do diálogo, as pessoas argumentam com memes”.

Gabriel FerreiraDoutor em Filosofia e professor da Unisinos

“A cada revolução da tecnologia surgem novos parâmetros de comportamento [na história]”, explica Roberto Romano, doutor em Filosofia pela Universidade Sorbonne de Paris e professor de Ética e Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ele, hoje, a rapidez da informação e a dificuldade de ‘digerir’ todo o conjunto de dados disponíveis aumentou a insegurança das pessoas, que tendem a ver nos outros e nas situações que não dominam um perigo que precisa ser neutralizado. Por outro lado, como têm pouco conhecimento cultural e histórico, e por isso capacidade limitada de argumentação, acabam acreditando facilmente em qualquer informação do mundo virtual. “Aquilo se torna uma palavra das escrituras, e não simplesmente uma demonstração ou uma tese científica que possa ser questionada”.

O fato de que se possa identificar uma clara tendência à esquerda nas instituições de ensino deveria ser um motivo para falar do tema e ajudar o filho a argumentar com respeito e conhecimento, a conviver com quem pensa diferente, a ter um pensamento próprio e não repetir apenas frases feitas. Por exemplo, para um filho que o pai acredita que está sendo ‘doutrinado’ sobre Marx na escola, a solução não seria apenas ir à escola ou querer abolir a abordagem, mas explicar melhor o pensamento do filósofo e apontar os equívocos.

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“Aí é um paradoxo. Se o filho chegou a casa dizendo que ouviu o professor falando horas sobre Marx, esse pai que ficou indignado dificilmente vai sentar e explicar para ele porque que a teoria econômica do Marx é absurda, o que não é complicado explicar; mas eles, em geral não fazem”, lamenta Gabriel Ferreira, doutor em Filosofia e professor da Unisinos. “Polarizações e radicalismos sempre existiram. O que é distintivo da posição atual é que as pessoas não têm mais nem uma disposição e nem capacidade e formação para discutirem racionalmente sobre as coisas, há uma espécie de ‘facebookização’ do diálogo, as pessoas argumentam com memes”.

Claro que tudo tem um limite e o pai pode usar outros meios – democráticos – se o professor proclama a violação dos direitos humanos ou chega a extremos inaceitáveis em sala de aula. Nesse caso, o pai, alertando para o fato, estaria interferindo na sociedade e ajudando a melhorá-la. O homeschooling, nesse sentido, que é uma opção a caminho de aprovação jurídica no Brasil, seria uma escolha ruim, na opinião de Gabriel Ferreira, se fosse motivada apenas pelo medo da ‘doutrinação ideológica’. “Se o homeschooling é feito porque a educação dada seria melhor da que o filho tem na escola, isso é um motivo justo; agora, meramente para evitar que ele seja confrontado com suas crenças e valores, isso leva a uma atrofia na capacidade de reflexão, argumentação e na resiliência”, alerta.

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A culpa dos professores

Quando um professor da área de humanas ou de redação propõe um tema para debate ele deve ser neutro e trazer elementos para enriquecer, como leis, números e resultados de pesquisas científicas. “É necessário um equilíbrio. De um lado, a família precisa confiar no trabalho da escola, como mediadora de conceitos. Mas a escola também, assim como qualquer outra instituição, precisa fundamentar-se em fontes muito confiáveis para discussão”, afirma Cleuza Cecato, professora de produção de textos do Colégio Bom Jesus.

Ela lembra que o professor nunca deve impor uma resposta única e exclusiva e tratar um determinado caso como já resolvido. O melhor seria dar exemplos concretos de um tema para que os alunos possam exercitar a capacidade de argumentação.

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Mas isso, infelizmente, nem sempre acontece e compromete o conhecimento científico. “A escola que assume propostas de ordem ideológica-política não chega ao profundo do conhecimento, ela pega pela folhagem, ela propaga slogans, por exemplo, com o uso da linguagem politicamente correta no descrever situações”, descreve o professor Roberto Romano. “Muitas vezes são apresentados estereótipos, e aquilo é imposto aos alunos e os alunos mesmos podem questionam isso”, completa.

Nas discussões em sala de aula, a agressão deve ser combatida, também quando o aluno erra, usa frases clichês ou prega, em um momento passional, o desrespeito aos direitos humanos. “O professor tem de respeitar a imaturidade intelectual do aluno”, diz a professora Cleuza. “É preciso ponderar e conversar a respeito de exemplos e de outras relativizações, oferecendo uma oportunidade de ele entender melhor o mundo à sua volta e não de ser radical e extremista em qualquer situação”, finaliza.

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