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Velha guarda lamenta encolhimento do rádio esportivo paranaense

Nomes que fizeram história nas transmissões de futebol no estado admitem perspectivas desanimadoras com a grave crise atravessada pelo setor

  • Julio Filho e Felipe Raicoski
 | Gazeta do Povo
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A velha guarda do rádio esportivo curitibano lamenta o atual cenário de diminuição das coberturas esportivas na capital paranaense. A Gazeta do Povo conversou com alguns dos nomes que marcaram história nas ondas radiofônicas locais e viveram a época de ouro do rádio do estado para comentar o cenário desafiador que faz minguarem as transmissões esportivas nas rádios em Curitiba.

Carneiro Neto

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Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Jornalista, historiador do futebol paranaense, colunista de esportes da Gazeta do Povo e membro da Academia Paranaense de Letras, Carneiro Neto construiu uma história de 47 anos na cobertura esportiva de rádio. Entre 1964 e 2011, foi repórter, narrador e chefe de equipe. Passou por rádios como a Guairacá, Clube, Universo, Independência, Cidade, CBN, Banda B e 98 FM.

“É um cenário preocupante”, analisa Carneiro, sobre o rádio esportivo paranaense. “Senti que as coisas iriam mudar na metade da década de noventa, com o surgimento das emissoras a cabo, que passaram a transmitir tudo. Seria muito difícil o rádio competir com isso”, prossegue.

Senti que as coisas iriam mudar na metade da década de noventa, com o surgimento das emissoras a cabo, que passaram a transmitir tudo. Seria muito difícil o rádio competir com isso

Carneiro Neto

Carneiro admite que sente falta do dia a dia do rádio. Mas não aos finais de semana. “Sempre brinco que passei um quarto da minha vida na cabine do Couto Pereira, onde aconteciam todos os grandes eventos. Agora me acostumei a ter os finais de semana livres e aí é muito difícil eu retornar”, conta.

Por fim, o jornalista diz acreditar que há saída para a atual crise. “Falta competência e gestão por parte dos diretores das emissoras. Com criatividade e trabalho bem feito, é possível superar a crise. O rádio poderia ser mais inteligente: utilizar retrospecto, informação e depoimentos no pré-jogo, durante a semana, criar um clima. Mas só sabem fazer o que sempre foi feito”, completa.

Augusto Mafuz

Jornalista, advogado, colunista da Tribuna do Paraná e parte da história do futebol local, Augusto Mafuz trabalhou na cobertura esportiva de rádios por 22 anos, entre 1968 e 1990. Passou pelos veículos Guairacá, Universo, Rádio B2, Independência, Globo e Cidade.

“É triste o fim. O rádio esportivo está terminando”, diz Mafuz. “Não vejo futuro. Prevejo que num prazo não muito longo, acabe. A grande consequência disso é a extinção da classe do velho radialista, aquele formado em estúdio e não na faculdade, que depende do improviso e é uma maravilha”, prossegue.

Não vejo futuro. Prevejo que num prazo não muito longo, acabe. A grande consequência disso é a extinção da classe do velho radialista, aquele formado em estúdio e não na faculdade, que depende do improviso e é uma maravilha

Augusto Mafuz

O experiente comunicador atribui o início da crise ao desinteresse dos empresários e donos de rádios. “É uma crise anterior à internet, mas que se acentuou com ela. E não acontece apenas em Curitiba, mas sim em todo o país”, analisa

Mafuz revela saudosismo quando relembra os tempos de ouro do rádio curitibano, os quais vivenciou intensamente. “Sinto falta, era apaixonado pelo trabalho de rádio. Mas como repórter. Sendo comentarista não me sentia muito bem”, conta. “O rádio foi minha vida, sempre. E hoje estamos reféns de um sistema que é isso: gera muito e desemprego e não tem saída”, completa.

Luiz Augusto Xavier

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Giuliano Gomes/Gazeta do Povo

Narrador da RPC, Premiere FC e colunista da Gazeta do Povo, Luiz Augusto Xavier construiu uma história de 40 anos no rádio paranaense, entre 1970 e 2010. Trabalhou na Rádio B2, Independência e Cidade. Começou como repórter, mas logo virou narrador.

“Provavelmente destes 40 anos, em 35 deles fui narrador”, conta Xavier. “Mas não sinto falta. Porque o rádio mudou muito, caiu muito de qualidade. Nos bons tempos do rádio não havia televisão transmitindo os jogos, então o rádio tinha de transmitir de diferentes lugares”, relembra.

O rádio deveria mostrar o que as pessoas não estavam vendo. A solução para os rádios: estar presente, dar a informação antes, para cativar audiência. Mas, tirando isso, é muito difícil o futuro

Luiz Augusto Xavier

Pela Rádio Cidade, Xavier conta que participou da primeira equipe totalmente paranaense a cobrir uma Copa do Mundo, em 1986, no México. “Íamos em tudo. Depois que acabava o Paranaense, transmitíamos as finais do Paulista, do Carioca. A seleção brasileira ia excursionar na Europa e íamos junto”, rememora.

Xavier atrela a crise à diminuição do número de anunciantes, que, por sua vez, migraram para a televisão. “Os empresários descobriram que não valia a pena mandar equipes para viajar, pois podiam fazer os jogos pela tevê. Por isso caiu a qualidade. O rádio deveria mostrar o que as pessoas não estavam vendo. A solução para os rádios: estar presente, dar a informação antes, para cativar audiência. Mas, tirando isso, é muito difícil o futuro”, admite.

Barcímio Sicupira

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Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Ex-jogador do Atlético nos anos 1960 e 1970, Sicupira deixou os gramados em 1975 e passou a atuar na crônica esportiva do estado no ano seguinte. Trabalhou em boa parte das emissoras da cidade, como Atalaia, B2, Eldorado, Independência, Marumbi, e há 15 anos é comentarista da Rádio Banda B.

“Claro, a crise acompanha toda a situação do Brasil. Mas o rádio, de modo geral, não só o esportivo, não tem apoio do mercado. Vão fazer propaganda em São Paulo, Rio, outros centros, mas esquecem que em Curitiba tem gente que toma cerveja, que compra carro, que vai ao mercado”.

Quem trabalha com rádio faz heroicamente. Infelizmente perdemos espaço, opinião, e desse jeito vamos ter de viver sempre na periferia

Barcímio Sicupira

O ex-jogador lamenta o encolhimento do cenário esportivo do estado. “Como pode em Curitiba, que já teve a Clube, a Atalaia, a Eldorado, a Independência, a Marumbi, a 98, hoje só ter duas fazendo futebol? Quem trabalha com rádio faz heroicamente. Infelizmente perdemos espaço, opinião, e desse jeito vamos ter de viver sempre na periferia. Que sentido de paranaense é esse, que não tem um pouco de orgulho?”, ressalta.

Sicupira, no entanto, revela um lado do trabalho no rádio que normalmente as pessoas não veem. “É fantástico, a rádio é uma segunda família. É uma luta diária, mas é também uma segunda família que você tem. Você sabe que sai de casa e vai encontrar os amigos na rádio”, conclui.

Fernando Gomes

Fernando Gomes é gaúcho de Herval do Sul, mas tem laços fortes com o estado do Paraná. Foi secretário de esportes de Cascavel, entre 1985 e 1986, antes de vir para Curitiba, em 1987. São mais de 50 anos dedicados ao jornalismo esportivo, com passagens por Rádio B2, Bandeirantes, Pelotense, TV Manchete, TV OM, CNT, entre outras. Há 15 anos trabalha como comentarista da Rádio Transamérica.

Gomes se diz triste com o fechamento da equipe de esportes da Rádio CBN, mas destaca que hoje a questão econômica está atrelada à audiência. “Não sei o motivo do fechamento da equipe da CBN, deve ter sido comercial, porque a qualidade deles era muito boa. Não sei até que ponto, até em função de audiência, estava a comercialização deles, mas fazer futebol com os custos de hoje, você tem de ter faturamento e audiência. Sem um, não tem o outro”.

Fazer futebol com os custos de hoje, você tem de ter faturamento e audiência. Sem um, não tem o outro

Fernando Gomes

O comentarista tem esperanças de uma retomada do cenário do rádio, mas acredita que quem quer concorrer hoje precisa investir no projeto. “Tem de investir, e falo do caso da Transamérica, que investiu muito em cima de um projeto que deu certo, porque a audiência dá um retorno enorme. Mas nem tudo foram flores, o começo foi muito difícil para chegar até onde estamos hoje. Na Transamérica, até aumentamos o número de funcionários. Hoje todos temos carteira assinada”, destaca.

Para Gomes, trabalhar com rádio é uma experiência maravilhosa. “Para mim, o ambiente do rádio é ótimo. Tenho o melhor com a equipe, tenho reconhecimento profissional, e tenho peso, porque querendo ou não, quando você trabalha como cronista em uma rádio de ponta da cidade, automaticamente você ganha muito em relevância”.

Valmir Gomes

Aos 75 anos – 30 deles de rádio – o veterano comunicador Valmir Gomes lamenta o fim da equipe local da CBN Curitiba, da qual era um dos principais nomes. “A causa direta do fechamento eu não sei”, afirma. “Mas o rádio é um sacerdócio. É uma coisa que você faz, acima de tudo, porque ama”, enuncia.

Entre as emissoras por que passou, estão as rádios Cidade, Transamérica, Independência, Clube Paranaense e CBN. Também trabalhou por mais de duas décadas na TV CNT, assim como foi colunista da Tribuna do Paraná.

Tenho 75 anos, sou meio arredio à internet, porque não sei lidar muito bem. Mas este convite me despertou uma coisa boa. É o velhinho entrando na internet. Estamos entusiasmados, com a ideia de fazer um programa de rádio via web

Valmir Gomes

Desde criança, Valmir se reunia na sala de casa para ouvir às ondas de rádio com a família. Vivenciou a era de ouro do rádio curitibano. “Vi rivalidades históricas”, relata. Mas admite que os tempos são outros. Tanto que agora tem um programa semanal produzido pelo canal por assinatura CWB TV transmitido também no YouTube. “Tenho 75 anos, sou meio arredio à internet, porque não sei lidar muito bem. Mas este convite me despertou uma coisa boa. É o velhinho entrando na internet. Estamos entusiasmados, com a ideia de fazer um programa de rádio via web”, celebra.

Para Valmir, a ‘avalanche’ de jogos de futebol transmitidos na televisão atualmente tirou um pouco do glamour do esporte. “Antes, quando a gente via um jogador, era uma loucura. Hoje estão em todas as partes. Aí quebra o encanto, gera mais desinteresse que interesse. Acho que isso aconteceu com o futebol”, opina.

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