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Santo Antônio da Platina

Platinense: time do povo, uma paixão fulminante

De 1985 a 1989, equipe venceu a Segundona do Paranaense e foi duas vezes quinta colocada na primeira fase

  • Leonardo Mendes Júnior
Claudinho, ex-jogador da Platinense, com a esposa e filho |
Claudinho, ex-jogador da Platinense, com a esposa e filho
 
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Platinense: time do povo, uma paixão fulminante

Jogador de futebol era pro­­fissão maldita na Santo An­­tônio da Platina do início dos anos 80. Barreira criada pela vida desregrada, repleta de histórias em mesas de bar, de boleiros que haviam passado pela cidade na curta existência do Agroceres, na década anterior. Por isso a vizinhança da república dos jogadores da Platinense era zona proibida para moças de família. “Tinha pai que não queria a filha nem conversando com jogador”, lembra Marquinhos Ferreira.

Claudinho deu sorte. O pai de Graça havia sido goleiro da Cambaraense nos bons tempos, década de 60. Sua casa era um ponto de encontro dos atletas da Platinense. Casar a filha com um bolei­­ro, um sonho reprimido. “Então num fim de ano ele ligou para desejar feliz Natal e ano novo para a minha mãe. Eu atendi, a gente ficou conversando e logo depois começou a namorar”, conta Graça.

Nascido em Catanduva, interior de São Paulo, Clau­­dinho casou, teve um filho -- Matheus, hoje de 20 anos -- e fixou residência na cidade. O mesmo fez Mar­­quinhos Ferreira, paulista de Araraquara. O mesmo fizeram outros 15 jogadores que deixaram o seu estado, em regra São Paulo, para formar o melhor time que Santo An­­tônio da Platina já viu.

A conquista de tantos sogros tem influência direta da disciplina rígida imposta pelo técnico Zezito. “Não podia nem andar de bermuda e chinelo”, diz Claudinho. Mas nada foi mais poderoso do que as façanhas do time dentro de campo. Em cin­­co anos, de 1985 a 89, a Platinense venceu a segunda divisão e foi duas vezes quinta colocada na primeira do Paranaense. Revelou jogadores como Claudinho, o artilheiro que seria o último camisa 9 da história do Pinheiros; Marquinhos Fer­­reira, o cérebro do meio-campo da Platinense, multicampeão pelo Paraná e camisa 10 de um Coritiba em que despontava um certo Alex; Valdir, volante que, com a camisa do Atlético, chegaria à seleção brasileira; Fabinho, camisa 7 no primeiro título brasileiro do Corinthians, em 1990, entre outros. Um time que construiu uma comunhão rara com sua cidade e sua torcida.

O café já era uma cultura ultrapassada e pouco lucrativa. Os times do Nor­­te Pioneiro que sobreviviam eram times de dono. O União do Serafim Meneghel. O Matsubara do Sueo. “A Platinense era do povo”, crava o médico Luciano Dias dos Reis.

Gastroenterologista, ele participou ativamente dessa relação. Fazia parte de um grupo de oito médicos que corriam pela cidade um livro para arrecadar contribuições de comerciantes e torcedores. Recurso investido na manutenção da república, no pagamento de bichos e salários. Quem não tinha dinheiro ajudava em serviços. Dono de malharia fazia os uniformes, pecuarista matava um boi, agricultor cedia saca de arroz, feijão e outros alimentos.

Uma das formas de incentivo ganhou o espirituoso nome de “caveirinha de ouro”, alusão à profissão do grupo de médicos. “Por volta dos 30 do segundo tempo de cada jogo, nos reuníamos para votar no melhor em campo. Cada um casava 100 reais no dinheiro de hoje e no vestiário a gente entregava para o vencedor. Com o tempo, até a Rádio Di­­fusora [principal emissora da cidade] começou a divulgar a caveirinha de ouro”, relembra Reis.

Claudinho ganhou inúmeras caveirinhas. A mais marcante foi no fim de 1985, amistoso contra o Coritiba campeão brasileiro, no José Eleutério da Silva lotado – como sempre. O jogo acabou 3 a 3 e Claudinho marcou os três gols. “Sabíamos que o nosso time era bom, mas ali que a gente sentiu a força real dele”, conta Marquinhos.

Força sentida pelo estado inteiro nos quatro anos seguintes, período em que a Platinense manteve-se en­­tre as maiores forças do Paranaense. Como se já não bastasse a capacidade do time, as arquibancadas tornavam as idas ao José Eleutério da Silva uma visita ao infer­­no. Obra da TIP (Torcida In­­glesa da Platinense) nome mais politicamente incorreto impossível para uma organizada criada à sombra do Desastre de Heysel, provocado pelos hooligans do Liverpool, na final da Copa dos Campeões da Europa de 1985. Um arrastão dos fãs dos Reds na arquibancada, antes do jogo, causou a morte de 35 torcedores da Juventus.

“A gente ia no campo para minar o adversário”, começa Neguinho, hoje um tranquilo funcionário público de 55 anos. “Fazíamos um inferno. A bateria agitava o tempo todo. Atlético e Coritiba tinham medo de jogar aqui”, prossegue Nenego, dentista de 60 anos. “E ainda tinha o nosso maqueiro, que ficou conhecido em todo o Brasil por jogar os adversários no gramado”, acrescenta Claudinei, pediatra, de 60 anos, para risos do grupo que ainda tinha José Roberto Vivan, um dos médicos da caveirinha de ouro.

A devoção dos torcedores criou uma cumplicidade com o time. Acabava o jo­­go, iam todos comemorar. Uma amizade que persiste até hoje com aqueles que fi­­xaram residência na cidade. “A gente carregava jogador nas costas até o bar depois que ganhava. Deixava família, deixava tudo de lado por causa da Platinense”, diz Neguinho.

A paixão fulminante entre a cidade e a Platinense acabou sem que ninguém saiba ao certo a razão. A reposição do time dos anos 80 não foi das melhores, os bons resultados rarearam e o interesse da cidade diminuiu, junto com o dinheiro. O time ainda resistiu até 1993, com uma passagem rápida pela segunda divisão. Houve tentativas de resgatar o clube nos últimos 20 anos. Todas patrocinadas por empresários do futebol, a maioria deixando dívidas na cidade.

Em 2012, até uniforme chegou a ser feito. A inscrição da equipe na terceira divisão, porém, não foi aceita e o projeto acabou sem sequer ter começado. Deixou a cidade por mais um tempo à espera de um time capaz de fazer seus torcedores correrem para o estádio. E de suas famílias entregarem a filha sem medo a um jogador de futebol.

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