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Cotidiano

Romantismo move grupo de torcedores contra “nova ordem”

Associação nacional recém-criada se rebela diante da influência externa nos hábitos de acompanhar futebol no país

  • André Pugliesi
Sandro Michailev, Ohara Kerusauskas  e Guilherme Moreira: juntos pela torcida à brasileira |
Sandro Michailev, Ohara Kerusauskas e Guilherme Moreira: juntos pela torcida à brasileira
 
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Sob o lema “democracia no procedimento e alegria no espírito” nasceu, há duas semanas, no Rio de Janeiro, a Associação Nacional dos Torcedores (ANT). Movi­­men­to fundado para lutar contra o que eles chamam de europeização do esporte no país – processo que estaria em curso com a vinda do Copa do Mundo de 2014 –, em defesa dos direitos da galera e da cultura verde e amarela da bola.

Mesmo com pouco tempo, até a última sexta-feira 900 pessoas compraram a ideia. “É uma resposta muito boa. Todo mundo é torcedor e ninguém está gostando do que está acontecendo. A luta só é impossível quando não se luta”, diz Marcos Alvito, 50 anos, um dos responsáveis pela organização, professor e coordenador do Núcleo de Estudos e Pes­­quisas sobre Esporte e So­­cie­­dade (Nepes) da Univer­­sidade Fe­­deral Fluminense (UFF).

O outro é o americano Chris Gaffney, 40 anos, geógrafo e também professor da UFF. “Eu sou apaixonado pela festa e a cultura popular do futebol brasileiro. Quando soube da vinda da Copa do Mundo, e ciente que seria adotado no Brasil o padrão europeu, onde não existe a paixão, fi­­quei revoltado”, comenta ele, que chegou a ser boleiro profissional na juventude.

A dupla preocupa-se em deixar claro que a ANT – grupo apartidário, sem fins lucrativos e de comando descentralizado – não se opõe à modernização do esporte. “Há como combinar as duas coisas. Profissionalizar, melhorar as condições dos es­­tádios e preservar a cultura. Sempre respeitando o torcedor, que construiu o patrimônio do futebol brasileiro”, afirma Gaffney.

Alvito exemplifica usando o modelo implantado na Ingla­­terra. “Eu vi jogos no Old Traf­­ford (Manchester United) e Stam­­ford Bridge (Chelsea), lugares que não têm nenhuma atmosfera de estádio de futebol. A torcida lá está mor­­ta. A média de idade do torcedor da Premier League é de 45 anos e renda altíssima. É is­­so o que o Brasil quer? De clubes ar­­ruinados fi­­nanceiramente, dependentes de mecenas, e sem identificação com os seus torcedores?”

Os objetivos da ANT en­­contram eco entre os fãs de Atlé­­tico, Coritiba e Paraná. “Infe­­lizmente, o povão está de fo­­ra. A Baixada hoje é um shopping. Vejo com bons olhos o plano de sócio do clube, mas nem todos podem pa­­gar. É preciso encontrar uma forma em que todos os atleticanos consigam acompanhar o time do coração”, afirma o rubro-negro Sandro Michailev, carteiro.

O alviverde Ohara Keru­­saus­­kas concorda. “No estádio do Borussia Dortmund [clube alemão] há um setor em que o ingresso custa 11 eu­­ros e todos ficam de pé. Tem de profissionalizar, mas vejo com preocupação o ca­­minho que o futebol moderno está tomando”, declara o engenheiro eletrônico e in­­tegrante do movimento Po­­vão Coxa-Branca.

A Vila Capanema parece ser mesmo o último reduto à moda antiga na capital. “Ain­­da é possível ver os jogos em pé, próximo do alambrado, sem as cadeiras. Mesmo assim, é um ingresso caro pa­­ra o padrão do Paraná. A elitização e transformação têm seus lados bons, mas pontos ruins também”, diz o tricolor Guilherme Moreira, estudante de jornalismo.

Hoje, a associação fará mais um ato público, antes do clássico entre Flamengo e Vasco, na Central do Brasil. “Es­­tamos nos estruturando. Quando tivermos pronta nossa regulamentação jurídica, vamos começar a sair da teoria para a prática. Já temos reunião marcada com um promotor do Ministério Pú­­blico. Em pouco tempo, teremos uma força em que os tor­­cedores terão de ser, pelo menos, consultados sobre as decisões do futebol”, prevê Alvito.

As inscrições para a ANT podem ser feitas pelo site – através do site www.torcedores.org – e são gratuitas.

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