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Pelo mundo

Curitibano desbrava países que não existem

  • Carolina Pompeo
Wi-fi gratuito em praia da Abkhazia, destino de milhares de turistas russos | Guilherme Canever/Arquivo pessoal
Wi-fi gratuito em praia da Abkhazia, destino de milhares de turistas russos Guilherme Canever/Arquivo pessoal
 
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Depois de já ter conhecido mais de 110 países em viagens pelo mundo, o curitibano Guilherme Canever, 38 anos, decidiu que era hora de conhecer os que não existem.

Espera, vamos explicar: muitos desses destinos possuem território definido, população permanente, autonomia governamental e tudo o mais que um país precisa ter, como estabelece o direito internacional. No entanto, ainda não são reconhecidos internacionalmente, seja por conflitos políticos e econômicos, seja por disputas territoriais. Esses países são chamados Estados de facto (na prática), mas não de jure (pela lei).

Hoje, existem pelo menos dez países independentes, mas não reconhecidos como tal: Somalilândia, Transnístria, Abkhazia, Nagorno-Karabakh, Kosovo, Chipre do Norte, Palestina, Saara Ocidental, Ossétia do Sul e Taiwan. Desses, Guilherme só não passou pelos dois últimos (veja as fotos das andanças do curtibano).

Universo paralelo

A ideia de viajar esse itinerário inusitado surgiu quando Guilherme excursionava em uma volta ao mundo com a esposa, Bianca. Por acaso, os dois foram parar na Somalilândia, território localizado ao Norte da Somália que declarou sua independência unilateralmente em 1991.

A Somalilândia possui bandeira nacional, brasão de armas, lema, hino, capital e moeda e, apesar de funcionar de maneira organizada e democrática, oficialmente pertence à Somália, país há anos dividido em zonas de intervenção.

“É quase um universo paralelo. É o único país do mundo não-reconhecido por nenhum outro, mas precisei fazer visto para entrar, utilizar a moeda local para consumir... E apesar de ficar em uma região da África com grandes problemas econômicos e marcada por conflitos civis, a Somalilândia conseguiu sozinha organizar aquele espaço, torná-lo seguro, funcional”, lembra.

O que é um país?

Essa primeira experiência provocou uma reflexão: o que é um país, afinal? O conceito, embora balizado por regras do direito internacional, na prática se mostra mais flexível – tem a ver com política e também com a cultura e a história de uma população; tem a ver com identificação de um povo com determinado território.

“A ONU reconhece 193 países; a FIFA tem 209 países afiliados; para pedir o visto para os Estados Unidos, você tem que informar sua origem entre 251 opções. Há regiões que declararam sua independência unilateralmente mas permanecem em disputa; há lugares que já foram independentes e hoje estão anexados a outros países; há repúblicas autônomas, como as da Rússia... Ser ou não reconhecido como um país não impacta o cotidiano da população, elas continuam acordando, trabalhando, tomando sorvete, fazendo aquilo funcionar”, observa.

Aqui, ele conta como foi desbravar alguns territórios que, a despeito de uma existência muito concreta, não existem no ordenamento internacional.

As ex-repúblicas soviéticas

Abkhazia, Nagorno-Karabakh e Transnístria foram repúblicas da União Soviética e precisaram vencer conflitos para se manter independentes, embora sem o reconhecimento internacional - apenas a Abkhazia é reconhecida por quatro países membro da ONU.

Abkhazia (ou Abecásia)

Para chegar à Abkhazia, que em teoria ainda é território da Geórgia, há duas opções para percorrer o trajeto do rio Igur até a entrada do país: de carroça ou a pé. O trajeto da fronteira até a capital Sukhumi, feito de táxi ou ônibus de linha, revela um cenário de pós-guerra: estradas e pequenas comunidades abandonadas, construções destruídas. “Era a região onde viviam os georgianos, que depois foram expulsos em vários conflitos”, explica Guilherme.

No centro de Sukhumi, porém, a cena é outra: cafés descolados, restaurantes, lojas para turistas, hotéis e pousadas lotados. É que a Abkhazia tem um litoral de tirar o fôlego e atrai muitos turistas russos com a combinação de praia, montanhas, cavernas e cachoeiras.

Quanto ao reconhecimento internacional? A maior parte dos locais dá de ombros. “Nós só precisamos da Rússia. O Ocidente acha que precisamos do reconhecimento deles, mas não precisamos. Nossa vida não mudaria nada”, Guilherme ouviu do dono do hotel em que ficou hospedado.

Nagorno-Karabakh

A região montanhosa de Nagorno-Karabakh é ainda hoje palco de disputas históricas entre a Armênia e Azerbaijão, e até o fim da década de 1980 foi controlada pela União Soviética. Como não é possível atravessar pelo Azerbaijão (as fronteiras são fechadas), Guilherme optou por entrar pelo país pelo “lado armênio”, pelas montanhas que abrigam memoriais de guerra, pequenos povoados e monastérios.

Na capital Stepanakert, apesar de “coberta” por cabos aéreos que ligam uma montanha a outra para impedir que aviões voem abaixo do radar, o clima não é tenso: a cidade é arborizada, movimentada e tem wi-fi gratuito. Além da capital, Guilherme passou também por Shushi, hoje destruída pela guerra; e por Agdan, parte mais arriscada da empreitada – uma cidade fantasma, devastada e saqueada e muito próxima da linha de combate.

A aventura colocou Guilherme na “lista negra” do Azerbaijão, que proíbe visitas à região que não controla (a fronteira que Guilherme usou para entrar é considerada ilegal).

Transnístria

“Sonhava com um país congelado no tempo, um pedacinho da União Soviética que tinha sobrevivido”, lembra Guilherme sobre a Transnístria. Para entrar no país, basta fazer o visto na fronteira. Caso permaneça mais de 12 horas, é necessário fazer um registro no escritório de imigração no Centro da capital Tiraspol. A cidade, aliás, parece cultuar o passado comunista: há ruas chamadas “Karl Marxa”, “25 de Outubro” e “Lenina”, muita publicidade nacional, antigos prédios soviéticos e memoriais de guerra.

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