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Alunos da escola de ensino fundamental Hospitalieres-Saint-Gervais, em Paris, fazem minuto de silêncio pelas vítimas de ataque em Toulouse |
Alunos da escola de ensino fundamental Hospitalieres-Saint-Gervais, em Paris, fazem minuto de silêncio pelas vítimas de ataque em Toulouse
Violência

Franceses temem novo ataque

Todas as vítimas da série de crimes de atirador que matou quatro pessoas em escola judaica foram atingidas na cabeça

Texto publicado na edição impressa de 21 de março de 2012

A polícia francesa intensificou ontem a busca pelo atirador que matou três crianças e um rabino à queima-roupa na escola judaica Ozar Hatorah, em Toulouse, no sul do país, na segunda-feira. As autoridades dizem que o mesmo homem já havia cometido três assassinatos na semana passada, e alertam que ele pode voltar a agir.

O homem, que foi visto dirigido uma motoneta, é descrito como sendo um atirador metódico e treinado, com visões “extremistas”, e que já teria sido responsável por dois ataques que resultaram na morte de três soldados de ascendência norte-africana.

O promotor François Molins disse que o autor dos ataques “é alguém que tem matado a cada quatro dias, que é extremamente organizado, (e) que tem uma ar­­ma de alto calibre”. “Estamos di­­ante de um indivíduo extremamente determinado, que sabe que está sendo caçado e que pode atacar outra vez”, acrescentou.

A França tem as maiores co­­munidades judaica e muçulmana da Europa, e já registrou vários ataques contra ambos os grupos. Mas o atentado de segunda-feira foi a mais letal ação antissemita no país em quase 30 anos.

A polícia reforçou a vigilância em locais religiosos, elevou o alerta antiterrorismo em Tou­­louse ao nível “vermelho” (o mais alto) pe­­la primeira vez na França, e começou a investigar clubes de tiro para tentar identificar o as­­sassino.

Todas as sete vítimas do atirador receberam tiros à queima-roupa na cabeça, afirmaram on­­tem investigadores da série de crimes. “Há seres que não têm respeito pela vida. Quando você pega uma menininha e põe uma bala na cabeça dela, sem dar a ela nenhuma chance, você é um monstro. Um monstro antissemita, mas antes de tudo um monstro”, disse o presidente francês, Nicolas Sar­­kozy.

O ministro do Interior, Claude Guéant, disse ainda que o atirador pode ter filmado a matança de ontem – ele levava uma pe­­quena câmera pendurada no pescoço, segundo as imagens dos circuitos de segurança no local.

Ontem, os corpos dos mortos na escola foram transportados para Israel, onde serão enterrados segundo a tradição judaica.

Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, a série de crimes pode alterar o tom do debate político, segundo analistas. “A campanha era dominada por um tom agressivo e um alto grau de retórica populista. Isso deve arrefecer, porque há demanda do eleitor por cura”, afirmou Dominique Reynie, chefe do instituto Fondapol.

* * * * *

Entrevista

“Há um culto à violência na extrema-direita”

Andrea Mammone, especialista em Extremismo de Direita na Europa, da Universidade Kingston, em Londres.

Andrea Mammone não descarta que os ataques na França tenham sido cometidos por um radical de direita, como aconteceu na Noruega no ano passado. Especialista em Extremismo de Direita na Europa, ele alerta que o discurso de políticos contra imigração pode estar ajudando a banalizar a retórica dos extremistas. Nesta entrevista à Agência O Globo, Mammone diz que alguns movimentos extremistas de hoje no continente são iguais aos da época do fascismo, com uma diferença: adaptaram o discurso ao mundo atual.

Três ataques em nove dias, e todas as vítimas eram de origem estrangeira, muçulmanos e judeus. Pode ser mais um caso de ataque de extrema-direita na Europa?

Pode ser. Mas mesmo a polícia não está certa de que os ataques estejam ligados aos neonazistas. Temos que esperar um pouco.

A campanha política na França se radicalizou, com Marine Le Pen, líder da extrema-direita, e o presidente Nicolas Sarkozy adotando uma retórica claramente anti-imigração. Que influência essa retórica pode ter nos grupos de extrema-direita?

Pode ter muita influência ou nenhuma. A retórica de Marine Le Pen não é nova e podemos perguntar: por que isso não aconteceu antes, quando o pai dela (Jean-Marie Le Pen) fazia campanha? O discurso político era o mesmo. É verdade que Sarkozy está tentando atrair os votos da Frente Nacional (partido de extrema-direita), ao levantar questões como identidade nacional e multiculturalismo. Mas isso não é o bastante (para explicar o atentado). Os franceses não gostam de reconhecer, mas há uma longa tradição de extremismo na França, neofascista e neonazista.

Por que a escalada de crimes neste momento tem ataques contra ciganos, imigrantes, e o massacre na Noruega?

Infelizmente, não é só agora. Há uma tendência a se considerar que a saga da extrema-direita começou no final dos anos 80, com o sucesso da Frente Nacional e outros partidos na Europa. Se olharmos para a história da extrema-direita no imediato pós-guerra até o início dos anos 80, vemos que há uma linha próxima do terrorismo nacionalista que desafiou o status quo, opositores e o próprio Estado como instituição. Como mostrou o fascismo, historicamente, há um culto à violência na extrema-direita. Discordo de colegas que acham que a extrema- direita hoje é diferente da do passado. Eles veem hoje todo mundo aceitando valores democráticos.

Então a extrema-direita hoje não é diferente da época fascista ou nazista?

Minha abordagem é a de que alguns movimentos são neofascistas e apenas modernizaram e adaptaram a propaganda e o estilo de comunicar para um mundo diferente, um mundo com democracias que não aceitam violência. Mas este mundo também está cheio de imigrantes e há uma crise do Estado-Nação, com a globalização. A extrema-direita oferece proteção aos perdedores da globalização e uma nova identidade.

Políticos devem ser mais cautelosos na forma como falam de imigrantes ou não faz diferença?

Não faz, mas deveriam ser cautelosos. Quando se ouve um político tradicional dizendo que o multiculturalismo desabou ou algo parecido isso leva, de alguma forma, à legitimação do discurso da extrema-direita, para as pessoas comuns. Se Sarkozy usa estas palavras, elas se tornam aceitáveis. Banaliza-se o discurso da extrema-direita.

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