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Entrevista

Iraniana viu de perto a paranoia do regime

Haleh Esfandiari, diretora do programa sobre Oriente Médio do Woodrow Wilson Center

“Depois de 30 anos, as mulheres não podem nem escolher o que vestir, precisam seguir o código de conduta e usar véus longos. Antes, muitas cobriam o cabelo, mas havia a escolha. O problema é não tê-la.” |
“Depois de 30 anos, as mulheres não podem nem escolher o que vestir, precisam seguir o código de conduta e usar véus longos. Antes, muitas cobriam o cabelo, mas havia a escolha. O problema é não tê-la.”
 
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Por incrível que pareça, quando os líderes iranianos prenderam uma senhora de 67 anos em 2007 e a acusaram de conspirar para derrubar o regime, pelo menos algum poder de previsão os aiatolás demonstraram.

Nos interrogatórios, dois homens a forçavam a confessar envolvimento com líderes estrangeiros, jornalistas, um professor de francês e um grupo ex-guerrilheiro no suposto golpe. Foi quase uma premonição. Dois anos depois, apesar de todo esse “esforço” de investigação – ou incentivado por ele –, o regime não pôde conter as milhares de pessoas que saíram às ruas de Teerã para protestar contra eleições fraudulentas.Em seu livro My Prison, My Home (“Minha Prisão, Minha Casa”, em tradução livre), a iraniana especialista em Oriente Médio e estudos de gênero do think-tank Woodrow Wilson Center conta sua experiência de 105 dias numa solitária e fala dos excêntricos interrogatórios a que foi submetida. Em um deles, ela respondeu: “O Irã não é uma República das Bananas que possa ser derrubada por 20 professores debatendo em torno de uma mesa”.

Tempos depois, o próprio presidente Mahmoud Ahma­dinejad reconheceu o absurdo da acusação e demitiu o chefe da inteligência do país por prender “uma mulher de 70 anos acusada de tentar começar uma revolução”.

Em seu cativeiro, além de notar a crise de nervos em que o regime se encontrava, Haleh percebeu que os aiatolás estavam indignados especialmente com a resistência feminina, mesmo após uma repressão de três décadas que mudou até o jeito de vestir das iranianas. Ela falou sobre essas questões, por telefone, à Gazeta do Povo.

Quando a senhora esteve pela última vez no Irã?

Eu saí de lá em setembro de 2007, após ser mantida por 105 dias em confinamento solitário.

A senhora encontrou outras pessoas?

Eu ficava sozinha e não via ninguém mais. Só vi meus dois interrogadores, as guardas e, a cada duas semanas, um médico.

A senhora acredita que haja mais execuções do que aquilo que lemos nos jornais?

Só sei o que vejo nas notícias que saem do Irã e o que ouvimos das organizações de Direitos Humanos. Há milhares de pessoas presas, e eles estão prendendo cada vez mais jornalistas, mulheres ativistas, e até membros da família dos prisioneiros.

A senhora tem parentes no Irã?

Minha mãe morreu em junho. Tenho apenas parentes distantes.

É perigoso para a senhora falar sobre o Irã?

Eu tenho falado de política iraniana o tempo todo, e escrevi sobre minha experiência no livro My Prison, My Home.

O que disseram quando a libertaram?

Nada. Só pediram à minha mãe que desse o apartamento como fiança e me libertaram.

Que cenários a senhora imagina para este regime?

Após a eleição de junho do ano passado, e a denúncia de que ela foi manipulada, vimos centenas de milhares de pessoas saindo às ruas e protestando. Acho que é um movimento interno do Irã. Não é orquestrado por estrangeiros e continuará de forma pacífica. É formado por pessoas que querem liberdade, transparência e a libertação de todos os prisioneiros.

E como eles podem vencer?

Eu gostaria de saber, não posso especular.

A situação piorou muito para as mulheres?

Antes da revolução, as mulheres tinham igual acesso à educação, ao emprego, e a idade de mulheres para o casamento era 18 anos – agora é 13. Mulheres tinham o direito de pedir o divórcio, o que não podem fazer agora. Tinham acesso à guarda dos filhos, o que agora é muito difícil. Antes da revolução, havia mulheres ministras. Agora, há apenas uma. Depois de 30 anos, elas não podem nem escolher o que vestir, precisam seguir o código de conduta e usar véus longos. Antes, muitas cobriam o cabelo, mas havia a escolha. O problema é não tê-la.

Mas as mulheres não estão em situação tão ruim quanto no Afeganistão, por exemplo.

Não, claro. Agora há mais mulheres entrando na universidade do que homens, porque elas estão desafiando o governo o tempo todo, estando presente em todos os lugares.

O que a senhora acha da política de Obama para o Irã?

Acho que ele fez a coisa certa, mas os iranianos não aprovaram essa aproximação e a Casa Bran­ca agora defende sanções. Eles até podem conversar com o regime, mas o Ocidente vai continuar a condenar a violação aos direitos humanos no Irã.

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