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A bomba que inaugura o Brasil novo

O que está se iniciando agora é o Brasil como fronteira de uma nova ordem mundial em instalação e o fim de qualquer projeto, bom ou não, de nação

  • Luciano Alvarenga
 
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O atentado a bomba impetrado por um sírio e um palestino em São Paulo, contra manifestantes em passeata na Avenida Paulista, demarca o inicio de um novo tempo, provavelmente de um novo Brasil.

O Brasil globalizou-se sem ter se globalizado. Em outros termos, nos globalizamos antes de todos os outros, e não nos demos conta disso. Autores como Gilberto Freyre e, em alguma medida, Darcy Ribeiro nos ensinaram sobre a capacidade plástica do Brasil e dos brasileiros de incorporar na brasilidade toda e qualquer cultura. O que no mundo era uma quimera no Brasil sempre foi realidade. Miscigenados na cor e na alma, desconhecíamos ódios, diásporas étnicas, rivalidades religiosas. Éramos o que o mundo precisava ser.

A política Sul-Sul implantada pelo presidente Lula antecipava o destino que nos aguardava

O atentado em São Paulo coloca uma cunha no Brasil de antes em relação ao Brasil que vai nascendo agora. Não pensemos que esse atentado é coisa isolada, algo da cabeça tresloucada de dois imigrantes desesperados por um lugar pra chamar de seu. Nada mais errado, nada mais ingênuo. Trata-se, ao contrário, da inserção nacional, como território, das lutas, das disputas, das loucuras que rodam o mundo e que, agora, têm em solo nacional mais uma fronteira de conquista.

O atentado é o sinal dado, a partir do centro mais importante da América Latina, de que é chegado o momento. O atentado, mais simbólico que fato, ganhou o mundo, deixando cientes a todos e a tudo que precisavam saber dele. O território nacional não é mais visto como espaço de esperança e futuro, como o fora pra gerações de imigrantes de tempos outros; é, agora, campo de batalha a ser ocupado e dominado a partir de uma lógica que nos escapa enquanto país. O atentado é um sinal para o mundo muçulmano: a bandeira está fincada.

A política Sul-Sul implantada pelo presidente Lula antecipava o destino que nos aguardava. Arrastava-nos da condição ocidental e de país que, mal ou bem, tentava se atrelar aos melhores destinos desse hemisfério, e nos jogava como aliado de um mundo completamente estranho e do qual nada compartilhamos. De um país que cantava em verso e prosa sua miscigenação, passamos as últimas décadas sendo convencidos de que na verdade é tudo ódio e divisão dissimulados. Se somos divididos, como nos fizeram crer, prontos estamos para partilhar em território pátrio as divisões do mundo todo.

Leia também:A invasão dos bárbaros (artigo de Flavio Morgenstern, publicado em 2 de maio de 2017)

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A gravidade do que está em andamento é o fato de que uma força política nacional, a esquerda, não desenvolve um plano de transformação nacional a partir do que somos, mas empenha-se num projeto de nos recriar numa reengenharia social que mistura tudo e todas as coisas existentes no mundo e que possam contribuir para a destruição do que somos. Aquilo em que o Brasil sempre foi global – sua plasticidade étnico-religiosa e capacidade de existir, apesar da nossa condição periférica – nada vale para aqueles que querem nos inserir no mundo global dentro dessa nova perspectiva, a de ser território residente para o que há de pior no mundo.

Se o que está sendo dito faz sentido, o que está se iniciando agora é o Brasil como fronteira de uma nova ordem mundial em instalação e o fim de qualquer projeto, bom ou não, de nação. O atentado em São Paulo é o aviso aos pares mundialmente posicionados – mas também pra nós, brasileiros – de que não se trata mais de acolhida e vida nova entre nós, mas de que eles são os arquitetos de um novo tempo em que o que somos não tem a menor importância.

Luciano Alvarenga é sociólogo e mestre em Economia.

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