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Do silêncio ao asco: a cegueira ideológica frente à ditadura venezuelana

Por que o Itamaraty e a imprensa trataram com tanto descaso a situação do brasileiro preso pelo regime ditatorial de Nicolás Maduro?

  • Pedro Henrique Alves
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Os paradigmas morais atingem quaisquer sociedades e indivíduos independentemente de suas crenças ou escolhas políticas. Saber diferenciar o bem do mal, o justo do injusto, o certo do errado nem sempre é uma matéria simples e de compreensão imediata, mas com certeza sabemos diferençar um herói de um genocida; sabemos que não é justo que uma criança morra de fome, esteja ela na Coreia do Norte ou no sertão da Paraíba; para tais inferências não precisamos de mais que um raso senso comum de moralidade.

Para a historiadora Gertrude Himmelfarb, por exemplo, o iluminismo britânico se faz justamente nessa compreensão filosófica de uma acepção natural da moral social e da benevolência. Para os ingleses do século 18, a moral individual e comunitária era o arrimo de uma vida digna e respeitosa, como ela escreve em Os caminhos para a modernidade: os iluminismos britânico, francês e americano. A moral é para os grandes céticos, românticos e pragmáticos ingleses – como David Hume, Adam Smith e Edmund Burke – aquilo que dá sentido à vida individual e social de uma nação; o arranjo político que possibilita a vida em sociedade. Os ingleses perceberam, para além das utopias do iluminismo francês, que a moralidade não serve à razão, mas sim a razão à moralidade. E nesse impulso hoje conseguimos entender aquilo que Burke chamou de “sabedoria sem reflexão”, o conhecimento inato ao homem que lhe diz que algo é certo ou errado, ainda que, por vezes, tais fatos sejam vistos em imagens nebulosas e não completamente compreendidas.

Perceber a injustiça e a imoralidade é algo natural no ser humano; não importa a época ou sociedade, estuprar, assassinar e abortar, por exemplo, são coisas condenáveis e abomináveis. Achar o aborto um ato humano – no sentido de “moralmente aceitável” – é característica da sociedade moderna que aprendeu a amar a humanidade e ignorar o indivíduo. Ainda que certas sociedades possam ter sido erigidas em cima de tais barbáries e culturas dantescas, tentar afirmar a normalidade de tais atos é simplesmente banal. Há sempre um asco inato em nós que nos diz ser incorreto violar uma mulher, independentemente de qual crença você possua ou a que cultura pertença.

As situações que envolvem brasileiros em situação de perigo no exterior demandam uma atitude célere

Ainda que uma mente possa ficar turva o suficiente para não reconhecer mais os seus erros, os erros em si não deixam de ser o que são porque alguém começa anomalamente a considerá-lo um acerto. Há coisas que desmancham com o tempo e são naturalmente relativizáveis; não faz sentido hoje arrogar uma “moralidade” no ato de revogar os direitos femininos adquiridos em igualdade com os homens; entretanto, nem tudo é relativizável. A árvore é uma árvore ainda que todos comecem a acreditar que ela seja um bule; não matar um feto é o certo, ainda que só reste uma única pessoa afirmando isso.

Quando vemos um crime hediondo sendo perpetrado, naturalmente nos sentimos tentados a gritar ao mundo que ali jaz um erro, que naquele momento acontece algo que contraria a benevolência humana e a moral social. Dessa maneira me sinto quando soube que um brasileiro, Jonatan Diniz, se encontrou preso na Venezuela por “manter atividades desestabilizadoras contra o regime de Nicolás Maduro” e por ser “agente infiltrado da CIA”, segundo o governo do tirano – na paranoia comunista, quem não seria agente de forças internacionais americanas? Até Sergio Moro é cobaia do FBI, seguindo Marilena Chauí.

Jonatan Diniz foi expulso pelo governo tirano no último sábado, dia 6, após uma negociação silenciosa e muito estranha entre o Itamaraty e a ditadura venezuelana. Geralmente as situações que envolvem brasileiros em situação de perigo no exterior demandam uma atitude célere, forte e de comunicação aberta com a sociedade nacional. Em nenhum dos parâmetros o Itamaraty passou nem sequer com nota 5 nesses quesitos. Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores do Brasil, apenas disse em sua conta no Twitter que “O incidente envolvendo o brasileiro Jonatan Moisés Diniz foi encerrado, com sua expulsão da Venezuela”; é possível sentir o cheiro da falta de virilidade governamental, algo que beira a empatia pela ditadura venezuelana ou o medo de contrariar agendas políticas maiores. A falta de firmeza evidencia a pobreza de caráter de um governo que quer mais afagos que acertos.

Leia também:  O bolivarianismo mata suas crianças de fome (editorial de 26 de dezembro de 2017)

E o silêncio midiático, o modo verdadeiramente pífio com que a imprensa (de um modo geral) lidou com a situação, também não deixou de ser vexatório – para não dizer antipatriótico. Um brasileiro preso por um ditador não rendeu nem sequer meia capa principal nas revistas do país, ou nos jornais de grande circulação do país; o Estadão se limitou a um pequeno quadro no canto esquerdo da capa principal da edição de 7 de janeiro, na Folha de S.Paulo, o caso rendeu um mero lembrete no canto direito inferior, indicando a página da matéria. Seus editores julgaram que as suposições sobre os patrimônios dos Bolsonaros eram mais dignas de capa que a libertação de um brasileiro mantido em cárcere privado por uma tirania política latino-americana.

O real crime de Jonatan foi ser um ativista de caridade que livremente se dispôs a distribuir alimentos e medicamentos no país mais desgraçado da América Latina atualmente. Em vez de guardar o silêncio sepulcral que a esquerda adotou frente à tirania sangrenta de Maduro, Jonatan resolveu agir para além da mudez e dos discursos ideológicos vazios: resolveu ser caridoso com as vítimas do ditador socialista e oferecer os alimentos que os venezuelanos desesperadamente buscam nos sacos de lixo.

Segundo o ex-ministro do planejamento da Venezuela Ricardo Hausmann, a fome na atual Venezuela ultrapassa aquela vista no Leste Europeu durante a Segunda Guerra Mundial. Para termos uma ideia da proporção da calamidade, Hausmann chegou a citar o caso do Holodomor (1932-1933), na Ucrânia, em comparação ao caso da Venezuela contemporânea. O Holodomor ficou conhecido como o “holocausto da Ucrânia”, em que Stálin cometeu o genocídio mais assustador de todos os tempos: o morticínio de milhões de ucranianos por inanição (morte por falta de alimentos). Impedindo que alimentos chegassem à Ucrânia e confiscando as despensas dos ucranianos que tinham alguma reserva, o ditador soviético matou de fome por volta de 7 milhões de ucranianos e mandou mais 2 milhões para os gulags, segundo o jornalista Eric Margolis. Thomas E. Woods Jr., historiador americano, afirma que o canibalismo passou a ser uma prática constante nesses anos sombrios na Ucrânia – fatos muito bem documentados.

Leia também:O PT e seu apoio a ditaduras (editorial de 25 de julho de 2017)

Cito Hausmann para termos uma ideia crua e direta do que está ocorrendo em nosso país vizinho: a Venezuela já é uma ditadura muito análoga à União Soviética e, agora, nem sequer nega o seu modus operandi idêntico.

Apesar de tudo isso, apesar de a Venezuela já figurar como uma das ditaduras modernas mais desumanas – não que se espere menos de qualquer ditadura –, a maioria gritante dos socialistas e partidos brasileiros, que amplamente apoiaram Maduro por ocasião de sua primeira eleição, estão em silencio total. A vergonha se manifesta pela histeria e, por vezes, pelo silêncio. Todavia, aqueles que resolveram quebrar o silêncio o fizeram para declarar apoio ao regime ditatorial de Maduro, como foi o caso do PT e do PCdoB, em julho do ano passado.

Aquele asco natural de que tratava no início do texto hoje transborda com gosto de revolta. A mesma mídia brasileira que deu larga cobertura jornalística quando o traficante brasileiro Rodrigo Gularte foi preso, condenado e morto na Indonésia, é a mesma que se manteve em silêncio quase total com o caso de Jonatan Diniz. Não que Gularte tenha sido justamente condenado à morte, tipo de pena à qual me oponho abertamente, mas lembremos os fatos: Rodrigo era um traficante que foi preso por cometer um ato claramente ilícito; Jonatan é um voluntário que atuava como força de caridade no país que está matando seu próprio povo de fome. Sejamos pragmáticos e vejamos as diferenças entre um voluntário de caridade preso arbitrariamente por um tirano e um traficante de drogas condenado. Por que a cobertura ampla do caso de Gularte e o silêncio necrosado no caso de Jonatan? O Itamaraty, ao que parece, dispensou poucos esforços para investigar o caso a fundo ou denunciar a arbitrariedade aos órgãos internacionais, contentando-se com a deportação do brasileiro; a mídia, por sua vez, não passou da mera repetição dos fatos já anteriormente noticiados, contentando-se em editar as matérias já feitas e dedicar umas estrofes ao caso. Faltou brio e culhão para o Itamaraty, aquela disposição de um governo forte e determinado a defender seus cidadãos de déspotas e ditaduras; à mídia faltou o natural caráter de quem não se prende a ideologias ou agendas.

Ao Itamaraty faltou brio; à mídia faltou o natural caráter de quem não se prende a ideologias ou agendas

Do lado de fora do aquário das ideologias, parece que os cochichos midiáticos e a mudez governamental se dão justamente porque a Venezuela é a ferida aberta no ego da esquerda latino-americana; a vergonha da vez. Não que eles não gostem de uma ditadura, mas é que na era digital as vergonhas, crimes e desumanidades aparecem de maneira crua e sem prévias edições, sem reinterpretações dos socialistas de redação. Hoje a verdade não pode ser sublimada a partir de fogueiras de documentos oficiais; hoje um simples cidadão com um smartphone pode dar um furo de reportagem e mostrar a realidade por meio de um vídeo sem cortes de imagens.

Pega mal, nos diretórios comunistas, destoar do coro único que manda resistir às pressões dos “yankees”, “conservadores” e “neoliberais”; não importando quais sejam as crueldades que surjam na Venezuela, a ordem é apoiar Maduro até o fim. Como diziam os jovens do Levante: “sou do Levante, ‘tô’ com Maduro”. Ainda que o Congresso eleito tenha sido destituído por um Supremo indicado unilateralmente pelo ditador, ainda que aqueles que se oponham ao regime sejam presos, ainda que a população esteja morrendo de fome, ainda que quase todos os recursos do país estejam indo para as forças militares do ditador a fim de calar os dissidentes, afastar as multidões e prender opositores; “ainda assim estamos com Nicolás Maduro em nome da democracia popular”, diriam os entusiasmados humanistas do Psol, PT e PCdoB.

Jonatan Diniz parece não merecer o olhar e as reportagens das mídias brasileiras e nem dos partidos socialistas. Afinal, quem mandou ele se opor à imaculada tirania de Maduro? O fedor da omissão, o cheiro pútrido do silêncio vadio frente ao descaso com todos os venezuelanos que neste momento vasculham o lixo junto aos cachorros, ratos e mil doenças; o silêncio frente a um brasileiro que foi preso por um regime ditatorial porque ousou alimentar e medicar um povo estrangeiro em estado de miséria total. Povo esse ao qual seu próprio líder recusou assistência básica, condenando-o à miséria forçada. É a isso que eu me refiro quando falo do sentido natural de moralidade. Se isso, não importando a opinião política que sustente, não causa repulsa ao leitor, creio, então, que em algum momento a sua ideologia tenha lhe cegado e suprimido a centelha mais intrínseca de um ser humano: a natural aversão aos crimes sórdidos cometidos contra inocentes debilitados.

Pedro Henrique Alves é filósofo, colunista do Instituto Liberal, criador e escritor do Blog do Contra.

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