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Igualdade de oportunidades nas universidades públicas

É superficial adotar o sistema de vagas, que acaba não preparando os futuros cidadãos deste imenso país para se desenvolver e enfrentar os desafios do século 21

  • Samy Pinto
 | Pierre Duarte/Folhapress
Pierre Duarte/Folhapress
 
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Uma grande pergunta que tange a filosofia é sobre o desafio da igualdade. Fazer com que todos tenham as mesmas oportunidades, sem distinção, é um desafio da sociedade. Recentemente, a Universidade de São Paulo (USP) aprovou a instituição de cotas sociais e raciais, que deve começar a ser implementada a partir de 2018, de forma escalonada. As vagas destinadas a estudantes de escola pública devem subir para a proporção de 50% até 2021 e, dentro dessa porcentagem, serão reservados lugares para pretos, pardos e indígenas. Esta é, na verdade, uma tentativa de trazer justiça por meio de uma política pública. Mas será que essa solução atende adequadamente às necessidades da população?

Quando se olha para dentro das universidades estaduais e federais, não é raro encontrar pessoas de classe média-alta, com um histórico escolar de escola privada, que tiveram a possibilidade de se preparar para ingressar nas universidades, já que o processo seletivo se dá por exames vestibulares de extremo desafio cognitivo. Neste cenário, já fica registrada a dificuldade que pessoas de outras classes sociais têm para ingressar no mundo acadêmico. Estudaram em escolas públicas com um ensino de baixa qualidade, deixando-as com menos ferramentas para obter sucesso nos processos seletivos.

A Europa discute se o objetivo das políticas públicas da educação é oferecer uma igualdade de vagas ou de oportunidades

As diferenças vão além das questões do preparo para ingressar na universidade pública; é só olhar para os estacionamentos das faculdades federais e estaduais que se encontrará muitos alunos disputando vagas para estacionar os seus carros, enquanto poucos dependem do transporte público para chegar ao local de estudo. Todos esses pontos remetem ao grande desafio de como alcançar a igualdade.

E, ao avaliar essa situação, pode-se questionar: Será justo uma universidade pública, gratuita, abrir vagas para pessoas que poderiam muito bem pagar e estudar em uma universidade particular?

É importante destacar que o atrativo de uma universidade pública não está no fato de ela ser gratuita, e sim por ser uma instituição de alta qualidade, que reúne professores de boa qualidade intelectual e de um nível professoral que a coloca entre as maiores e melhores universidades do país. Então, é muito raso e superficial querer resolver o problema da igualdade através do sistema de cotas. Essa aparente resolução não analisa o que realmente está em jogo.

A Europa discute hoje se o objetivo das políticas públicas da educação é oferecer uma igualdade de vagas ou de oportunidades. Essa equação precisa ficar clara; os europeus estão pendendo para uma linha de pensamento mais americanizada, em que se fala de igualdade de oportunidades, diferentemente da política adotada pela USP.

Mas qual a diferença entre esses dois sistemas? A igualdade de vagas é deixar separada uma porcentagem para atender a quem fez o percurso educacional em escola pública, e dentro desse número de estudantes existe espaço para as cotas raciais e socioeconômicas. A linha de pensamento que busca a igualdade de oportunidade é construída com foco em um investimento que deve ser feito para corrigir a desigualdade pela melhoria do ensino público.

Nossas convicções:  Ações afirmativas

Leia também:As cotas na 1ª fase do vestibular e a política de inclusão social da UFPR (artigo de Maria Amelia Sabbag Zainko e Mauro José Belli, publicado em 1.º de dezembro de 2015)

Se o foco for trazer iguais oportunidades para os estudantes das escolas públicas e privadas, então será cumprida a justiça social, oferecendo as mesmas chances para ambos ingressarem em uma universidade. Esse caminho resolverá a falência do ensino público no Brasil, o problema da qualidade dos professores das redes públicas e a questão da desigualdade. O que mostra o quão superficial é adotar o sistema de vagas, que acaba não preparando os futuros cidadãos deste imenso país, desde a educação de base, para se desenvolver e enfrentar os desafios do século 21. No fim, ela não resolve a questão, torna-se apenas uma solução de aparência, um disfarce de justiça social.

Para resolver o problema da desigualdade, o que deve ser feito é um investimento maciço na escola elementar. Todos devem ter direito ao ensino de qualidade porque, quando se tem um ensino fundamental e médio de alto nível, se desenvolve estudantes com ferramentas para disputar qualquer processo seletivo, além dos desafios do atual século.

Samy Pinto, rabino da Sinagoga Ohel Yaacov, em São Paulo, é graduado em Ciências Econômicas, com especialização em Educação e mestrado e doutorado em Letras e Filosofia.

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