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Literatura erótica e os contos de fada modernos

 
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Em termos de literatura, o assunto mais comentado nas últimas semanas pela mídia e principalmente pelo público feminino é a estreia do filme 50 Tons de Cinza, inspirado no primeiro livro da trilogia de E. L. James. Escondidas dos pais, filhos, marido, patrão e até dos amigos, mulheres na faixa dos 15 aos 40 anos se envolveram com o romance sensual entre Anastasia Steele e Christian Grey. Em meio a críticas e elogios, ficam duas perguntas: por que as mulheres tanto gostaram de 50 Tons? Quão interessante é a literatura erótica hoje para a mulher moderna?

Anastasia é jovem, delicada, inteligente e bonita. Apaixona-se pelo milionário Christian e, correspondida, vive um romance intenso. A carga moderna fica pela forma como a relação sexual é adicionada ao livro: o casal – e, consequentemente, o leitor – respira sexo durante toda a trama. É como se os contos de fadas de outrora fossem revestidos com uma capa adulta. O problema é que esta capa adulta impede o leitor de enxergar o que realmente deve ser o mote de uma obra literária sobre o amor: a essência do ser amado.

Uma famosa escritora inglesa, Jane Austen, escreveu diversos contos de fada “modernos”, captando a essência do amor entre um homem e uma mulher. Em sua obra mais famosa, Orgulho e Preconceito, cuja história é a de um jovem rico e presunçoso que se apaixona por uma moça de classe inferior e orgulhosa, Jane propõe diversos questionamentos nos entremeios da trama: é o amor racional ou irracional? Pode o amor surgir entre pessoas tão diferentes entre si? Shakespeare, no clássico Romeu e Julieta, discute a eternidade e a intensidade de um amor fresco e jovem. Clarice Lispector, sempre cortante em suas palavras, descreve em seus diversos contos e livros a profundidade, contrariedade e complexidade de se amar e ser amado. Tais autores, e outros tantos aqui não citados, tratam da mulher que ama e é amada em seu todo, por sua alma, além de seu corpo.

Ao preferir o erotismo literário, o leitor escolhe, por consequência, reduzir o amor a mero prazer passageiro e desordenado. Escolhe se deleitar e absorver apenas uma das consequências do amor, e não o sentimento por inteiro. A dignidade humana é restringida a sensações primárias de estímulo e resposta sexual, como se o indivíduo fosse um mero animal. Séculos de reflexões sobre a complexidade do amor são diminuídos em momentos íntimos de relações sexuais. Precisamos mesmo desse tipo de literatura?

50 Tons de Cinza atrai tantos leitores – principalmente mulheres – porque aborda um romance. O respeito e a dignidade da mulher conquistados ao longo dos séculos são desmoralizados quando esta é colocada na literatura erótica como artefato de prazer para o homem. Não, a mulher moderna não precisa de livros eróticos. A mulher moderna necessita ser compreendida e amada. E isso apenas uma moral elevada, muitas vezes representada em boas histórias, pode ensinar.

Letícia Maria Barbano é apresentadora do programa Modéstia&Pudor da WebRádio Vox (www.radiovox.org) e colaboradora do Instituto de Formação e Educação (IFE) em São Carlos (SP).

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