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Carlos Ramalhete

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De corações partidos

A entrega habitual nos forma e modela, fazendo de nós um ser para o outro que, quando lhe falta o outro, é como se lhe faltasse a mesmo tempo o chão e o ar

 | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Daniel Castellano/Gazeta do Povo
 
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Não há dor maior que a da separação de um ente amado. É por isso que se diz “coração partido”. É uma dor na alma, tanto maior quanto houver sido a entrega – pois que amor é entrega – que foi negada, arrancada pelos ramos mais macios da separação. O amor é uma entrega eterna que ocorre em um dado momento do tempo, mas nunca mais volta. A parte de nós que doamos ao ente amado nos deixa para sempre, e o imenso vazio que fica quando se tenta arrancar as ramas do amor alheio das fímbrias do nosso coração mostra sua dimensão.

É impossível deixar de amar, e mais impossível ainda desamar. Quem amou uma vez ama para sempre, ou não era amor verdadeiro o que movia a pessoa. A forma deste amor pode e deve mudar com o tempo e as circunstâncias, mas algo de si perdura num coração alheio, incapaz até mesmo de percebê-lo. A entrega habitual nos forma e modela, fazendo de nós um ser para o outro que, quando lhe falta o outro, é como se lhe faltasse a mesmo tempo o chão e o ar. Nada parece fazer sentido, pois que tudo o que fazia sentido o fazia à luz da experiência do amor e da completude de si obtida pela perfeita união com outra pessoa. “Formarão uma só carne”, disse Deus, e seria verdade se não fosse nossa natureza marcada pelo pecado de Adão. “Sangue do meu sangue, carne da minha carne” é como nosso pai primeiro se referia a Eva antes da Queda; depois a referência nos parece estranhamente mais familiar: “a mulher que pusestes ao meu lado”.

É impossível deixar de amar, e mais impossível ainda desamar

Somos todos filhos deste primeiro casal, e não estou falando só de biologia. Vivemos nós mesmos o que eles viveram, repetindo a cada geração as mesmas estupidezes, as mesmas asneiras, as mesmas buscas de amor onde ele não nos é adequado enquanto se nega a perfeição que está ao nosso lado. O amor tem alvo certo, e este alvo é fruto de uma escolha no fundo insensata, como toda escolha pós-adâmica. Mas é uma escolha real, e ela vale. Entregamo-nos de todo o coração, de toda a alma e toda a inteligência, sabendo que o fazemos a alguém que é como nós, capaz de errar, capaz de fugir, capaz de nos ferir. Mas a possibilidade de ser ferido faz parte da relação. Não existe relação sem dor possível, e a delícia da entrega, como disse acima, é proporcional à dor da perda.

A dor da alma é pior que a dor física, muito pior. É uma dor que rasga, que torna o mundo uma coisa que ele na verdade não é, que nos impede de agir e de ser. Mas ao mesmo tempo, estranhamente, é uma dor que nos indica que ainda estamos vivos, que nos mostra que passamos já pelo pior. O pior nunca é aquilo que se imaginava; como escreveu Stephen King, Deus nos castiga pelo que não conseguíamos conceber. É verdade; a realidade é sempre mais brutal que a mais animada das fantasias.

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