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Carlos Ramalhete

Vastidões vazias

Texto publicado na edição impressa de 14 de junho de 2012

Eu ando muito pelo interior. Em um mês, é comum que eu me desloque alguns milhares de quilômetros, por rodovias asfaltadas e estrada de terra, em vários estados diferentes desse Brasilzão enorme. O que mais me chama a atenção é como o interior é vazio. É comum rodar horas sem ver uma casa, uma pessoa.

Na cidade grande, a sensação é a oposta. É gente por todo lado: gente morando embaixo da ponte, gente se amontoando em casebres ínfimos, gente socada dentro do ônibus ou do trem. Na sua maioria, como não poderia deixar de ser, gente pobre. Muitos deles vindos do interior, ou filhos de quem veio do interior.

Esta ilusão de superpopulação – que na verdade é apenas um lado da mesma moeda da má concentração populacional que faz com que o interior esteja às moscas – tem várias causas. Uma delas é como consequência indesejada da mecanização da agricultura, que faz com que seja não apenas possível, mas desejável, plantar vastidões de terra com poucos trabalhadores. Há tratores que fazem, com um operador, o serviço de centenas de pessoas em muito menos tempo.

O aumento estupendo da produção agrícola, causado pelo avanço tecnológico, contudo, somado à colcha de retalhos que é a legislação ambiental brasileira, penalizou mais que todos o pequeno agricultor. Não só não é possível competir com o grande produtor, como não é permitido cultivar para seu próprio sustento, devido às demandas legais. Ora, essas demandas são facilmente contornáveis por quem tem dinheiro. O grande produtor inclui as autorizações necessárias no seu cálculo de despesas, mas o pequeno proprietário se vê, na prática, impedido de trabalhar.

O resultado é o que vemos: as cidades abarrotadas de gente, e a roça vazia. Gente demais de um lado – levando os mais ignorantes a ressuscitar o malthusianismo e suas tolas profecias de “explosão demográfica”, na hora em que o problema é o oposto – e grandes áreas vazias fora delas.

Uma maneira de começar a combater este problema seria incentivando a industrialização do interior; se os impostos fossem proporcionais à densidade demográfica do entorno da empresa, passaria a valer a pena para muitos empresários deixar de lado os custos da cidade e arcar com os custos do transporte. Se a isso se somasse a reativação e ampliação das estradas de ferro, muito mais baratas que os remendos no asfalto que passam por política de transportes no Brasil, o interior se revitalizaria e muitas favelas se esvaziariam.

Seria o fim de muitos currais eleitorais de demagogos. É, vai demorar.

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