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Flavio Quintela

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Apropriador cultural, com muito orgulho

A mistura de culturas é um fenômeno que acontece todos os dias, e é na maioria das vezes bidirecional. Nós copiamos o que é bom e evitamos o que é ruim de tudo o que recebemos

  • colunagp@flavioquintela.com
 | Antônio More/Gazeta do Povo
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Outro dia eu estava no parquinho aqui perto de casa, cuidando do meu filho e vendo as outras crianças brincarem. Num determinado momento, um garotinho tentou pegar o carrinho das mãos de outro; este segurou o carrinho com força e falou, meio gritado: “It’s mine!” (“É meu!”). Cerca de duas horas depois, já em casa, me deparei com um texto sobre apropriação cultural em um certo blog de esquerda e me lembrei imediatamente das duas crianças. Pensei comigo que os esquerdistas são como crianças mimadas, mas bastou um pouco mais de reflexão para chegar à conclusão de que esquerdistas são ainda mais infantis que crianças mimadas.

A questão da tal apropriação cultural chega a ser ridícula quando analisada de um ponto de vista lógico. Afinal, a não ser que vivêssemos em uma sociedade completamente pura no tocante à imigração – algo como um país completamente cercado por muros, onde ninguém entra e de onde ninguém sai, cujos meios de comunicação com o mundo exterior sejam cortados e proibidos –, a mistura de culturas é um fenômeno que acontece todos os dias, e é na maioria das vezes bidirecional. Essa mistura não acontece somente em épocas de paz, mas também em momentos de guerra e dominação – povos dominados absorvem a cultura dos dominadores e vice-versa. Ninguém está imune a isso.

Se o raciocínio dos que condenam a apropriação cultural fosse realmente lógico e válido, o mundo entraria em colapso

O caso que andou rodando pela internet foi da moça que usava um turbante para cobrir sua cabeça, calva por causa de um tratamento de câncer, e que foi molestada por alguém que se incomodou com o fato de a moça ser branca e o tal turbante ser um costume supostamente exclusivo de mulheres negras. A coisa tomou proporções por causa da condição de saúde da “apropriadora cultural”, mas, ainda que ela estivesse usando um turbante apenas porque acha bonito, não haveria problema algum do ponto de vista adulto. Adultos sabem que esse tipo de preocupação – se o outro está vestindo, usando ou comendo algo criado por um outro povo, em um outro tempo – não lhes cabe. Adultos sabem que o amanhã lhes cobrará com base em suas prioridades de hoje. Quem tem como prioridade estudar, trabalhar, tomar conta de si mesmo e crescer individualmente tem muito mais chances de uma boa colheita futura que aquele que passa os dias procurando chifre em cabeça de cavalo, como dizia minha mãe quando eu era criança.

Se o raciocínio dos que condenam a apropriação cultural fosse realmente lógico e válido, o mundo entraria em colapso. Muitas fábricas ocidentais teriam de fechar as portas porque suas linhas de produção se baseiam em técnicas japonesas de eficiência e qualidade. Por outro lado, todas as fábricas orientais teriam de fechar as portas porque têm linhas de produção, invenção de Henry Ford, americano. O mundo inteiro, com exceção do México, deveria parar de cultivar e utilizar o milho, já que foi o povo asteca que descobriu a planta, desenvolveu seu cultivo e criou a cultura do seu consumo. Ou, para usar um exemplo bem brasileiro, deveriam ser suspensas todas as feijoadas para brancos, orientais ou mesmo indígenas – somente os afrodescendentes devem ter permissão para desfrutar de tal iguaria. Estes, por sua vez, não poderão mais saborear uma deliciosa lasanha ou nem sequer uma macarronada, pois são parte da cultura italiana.

Quanto às roupas, as afrodescendentes incomodadas com o uso do turbante por mulheres brancas devem jogar fora suas calças, pois o uso das mesmas nunca foi costume de nenhum povo africano; elas vieram da Europa medieval, e usá-las seria uma grande falta de respeito para com os descendentes desses povos. Enfim, a lista de aplicações estapafúrdias desse raciocínio pueril é praticamente infinita, por um simples fato: as diferentes culturas se misturam, e o termo “apropriação cultural” não descreve nada além de um fenômeno comum e natural. Nós copiamos o que é bom e evitamos o que é ruim de tudo o que recebemos diariamente daqueles ao nosso redor. Com o advento das comunicações em nível global e pessoal, passamos a copiar coisas de gente que vive do outro lado do mundo, e não há nenhum mal nisso. Quem se ofende com apropriação cultural e sai policiando os outros nas ruas e nos ambientes virtuais é menos intelectualmente capaz que uma criança de 3 anos de idade. Afinal, a criança briga para manter o próprio brinquedo, enquanto os “policiais” do politicamente correto brigam por algo que nem existe. Para esses bebês mimados, às vezes a única resposta é deixá-los chorando sozinhos. Uma hora eles cansam e acabam dormindo.

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