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Editorial

A credibilidade do esporte

A ação firme das entidades que regulam o esporte é a chave para que atletas e torcedores possam ter certeza de que participaram ou assistiram a uma competição verdadeiramente justa

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 | Roberto Schmidt/AFP
Roberto Schmidt/AFP
 
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O desfile das delegações na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, ocorrida na sexta-feira, entrou para a história quando atletas das duas Coreias entraram juntos no Estádio Olímpico, marchando sob a “bandeira da unificação”. Não é a primeira vez que isso acontece, mas o contexto acrescenta significado ao gesto: o evento ocorre na Coreia do Sul, e o vizinho do norte havia boicotado os Jogos Olímpicos de Seul, 30 anos atrás. Além disso, esta edição do evento esportivo ocorre logo após uma escalada nas tensões nucleares promovidas pelo ditador Kim Jong-un. Durante as competições, sim, uma aproximação inédita em competições olímpicas: a equipe feminina de hóquei no gelo será formada por jogadoras dos dois países.

Mas o desfile também foi marcado por uma ausência: pela primeira vez desde o fim da União Soviética (com a exceção de 1992, quando, poucos meses após a dissolução da superpotência, ex-repúblicas soviéticas competiram juntas sob o nome de Equipe Unificada), não há uma delegação da Federação Russa. O país foi suspenso pelo Comitê Olímpico Internacional devido a um gigantesco esquema de doping – uma punição que, embora seja a mais severa já dada pelo COI, continha algumas concessões à potência olímpica e que foram alvo de críticas no mundo esportivo. Atletas russos convidados e comprovadamente limpos participarão sob o nome “atletas olímpicos da Rússia”, competindo sob a bandeira olímpica, quando em circunstâncias semelhantes eles entrariam na equipe chamada, de forma mais genérica, de “atletas olímpicos independentes”; esses competidores só participam de modalidades individuais, mas, em PyeongChang, os russos estão inscritos também em esportes coletivos, como o hóquei no gelo – em que figuram entre os favoritos.

A Rússia de Putin foi buscar inspiração no vasto esquema de doping da antiga Alemanha Oriental e o incrementou

As denúncias daquilo que o COI chamou de “doping de Estado” explodiram antes mesmo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, mas na ocasião apenas as federações internacionais de atletismo e levantamento de peso baniram a Rússia. Já o Comitê Paralímpico Internacional suspendeu todo o time russo, que não veio ao Rio. Mas as evidências continuaram a se acumular a ponto de o COI anunciar, em 5 de dezembro, na esteira da divulgação do Relatório Oswald, a suspensão total da Rússia em competições olímpicas. Além disso, medalhas obtidas por russos em edições anteriores foram cassadas e autoridades esportivas, como o ex-ministro do Esporte e vice-primeiro-ministro Vitaly Mutko, foram banidas.

Na sua missão de restaurar as “glórias” da antiga União Soviética, o presidente Vladimir Putin tem imitado o militarismo, o intervencionismo e o autoritarismo, mas também decidiu emular seus predecessores no uso do esporte como instrumento político, característica de regimes socialistas e comunistas. Após o desempenho fraco nos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, em 2010, a Rússia de Putin foi buscar inspiração no vasto esquema de doping da antiga Alemanha Oriental e o incrementou, com a participação de atletas, médicos, cartolas e agentes do serviço secreto: trocas de amostras de testes e subornos envolviam até mesmo um laboratório credenciado pela Agência Mundial Antidoping em Moscou. De 15 medalhas (três de ouro) em 2010, a Rússia saltou para 33 (12 de ouro) em 2014, quando sediou os Jogos em casa, na cidade de Sochi. Várias dessas medalhas foram cassadas, mas parte delas foi restaurada recentemente, após recursos dos atletas à Corte Arbitral do Esporte, na Suíça.

Leia também: Glamour, abuso e punição (artigo de Zair Candido Netto, publicado em 11 de janeiro de 2018)

Leia também: O esporte só será mais limpo quando for mais transparente (artigo de Ubiratan Leal, publicado em 28 de setembro de 2017)

O esporte é uma das atividades em que o ser humano pode mostrar o seu melhor – como nas demonstrações de amizade entre as duas Coreias – e também o seu pior, como se vê pelo vasto esquema montado pelos russos para trapacear nas competições olímpicas. Quando esses episódios ameaçam a credibilidade de eventos e modalidades, a ação firme das entidades que regulam o esporte é a chave para que atletas e torcedores possam ter certeza de que participaram ou assistiram a uma competição verdadeiramente justa, na qual venceu o melhor por seus méritos, e não pela fraude. O COI acertou ao banir a Rússia em PyeongChang – e poderia até ter sido mais severo –, dizendo aos desonestos que eles não ficarão impunes, mas a engenhosidade do esquema russo mostra que a luta contra o doping não admite relaxamento.

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