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Editorial

Os números do emprego

Que o pior momento já passou parece certo, mas a tendência sólida de recuperação do emprego deve ficar para mais tarde

 | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
 
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Na terça-feira, o Ministério do Trabalho divulgou dados que são um alento para o país: o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registou geração de empregos com carteira assinada em abril de 2017: as contratações superaram as demissões em quase 60 mil vagas. Embora ainda seja muito cedo para falar em uma retomada consistente, há aspectos positivos a ressaltar.

O emprego é, normalmente, o último indicador a responder às oscilações da economia, para o bem e para o mal. Por isso os índices de desemprego demoraram a subir mesmo quando já estava evidente o caos em que o governo Dilma tinha colocado o país, oferecendo um último argumento econômico aos defensores do petismo, que perguntavam como poderia o país estar em crise se o emprego seguia forte – a teimosia durou até 2015, quando o emprego finalmente passou a ser duramente afetado pela recessão em curso e já não havia mais nada a que os petistas pudessem se apegar para defender a política econômica de Dilma.

O emprego é, normalmente, o último indicador a responder às oscilações da economia, para o bem e para o mal

Da mesma forma, mesmo com outros indicadores dando bons sinais – a inflação acumulada dos últimos 12 meses já está abaixo do centro da meta, e a taxa de juros Selic está em queda livre –, ainda serão necessários alguns meses para vermos um crescimento consistente dos níveis de emprego. Mesmo o número de abril não pode ser considerado uma garantia do início da recuperação, pois o início do ano tem sido marcado pela oscilação: se em fevereiro tivemos o primeiro resultado positivo em quase dois anos, com 35,6 mil novas vagas, em março o emprego voltou a cair, perdendo 63,6 mil postos de trabalho. Portanto, quando o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, afirma esperar que “no mês que vem, quando venhamos a conversar novamente, possamos comemorar essa expectativa da retomada do emprego no Brasil. Isso é uma tendência”, devemos encarar a frase com algum ceticismo. Que o pior momento já passou parece certo, mas é muito mais provável que vejamos o emprego andando de lado por mais alguns meses antes de verificar uma tendência positiva mais sólida, que deve ficar para o segundo semestre.

Mais que o dado consolidado, merece destaque o fato de o saldo positivo de contratações ter se espalhado por praticamente todos os setores da economia, com exceção da construção civil, que ainda demitiu mais que contratou. Demonstrando mais uma vez sua força, o agronegócio liderou a abertura de vagas, mas foi seguido muito de perto pela indústria de transformação – saldo de 14,6 mil e 13,7 mil contratações, respectivamente. No entanto, a distribuição não se repete quando se observa os números regionais: tanto Norte quanto Nordeste fecharam postos de trabalho.

Leia também:Colheita maldita (editorial de 1.º de maio de 2015)

Leia também: O combate ao desemprego (editorial de 11 de outubro de 2016)

O economista Arthur Okun criou, décadas atrás, o “índice de miséria”, que consistia na soma de inflação e desemprego: um resultado maior que 12 indica graves problemas, que precisam de solução rápida devido às consequências socioeconômicas que essa combinação daninha traz. Portanto, não nos iludamos: o desemprego, sozinho, basta para ainda colocar o Brasil acima do patamar de alerta determinado por Okun. A inflação em queda, a ação do Banco Central no corte de juros e a aprovação das reformas ajudarão a fazer girar a economia, com a consequente retomada do emprego, mas os efeitos da recessão ainda se fazem sentir. Só o trabalho diligente, sem concessões ao populismo, será capaz de colocar o país no rumo certo – e espera-se que desta vez não venha mais um dos “voos de galinha” que têm caracterizado nossa economia há tanto tempo.

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