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“Eu me tornei o chato dentro da Embrapa”, diz sociólogo demitido por expor opinião

Pesquisador Zander Navarro diz que cultura arbitrária da ditadura tomou conta da estatal e que irá à Justiça para recuperar o posto que perdeu na empresa após publicar artigo

  • Brasília
  • Evandro Éboli
 | Divulgação/Governo de São Paulo
Divulgação/Governo de São Paulo
 
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O sociólogo e pesquisador Zander Navarro cumpria uma rotina idealista e ambiciosa nos últimos três anos na Embrapa, instituição que ingressou em 2011 após concurso público. Inquieto, tentou mostrar aos superiores que a empresa estatal está fechada e precisa se democratizar, se abrir para o debate. Virou um centro de pesquisa distante do mundo real, que prioriza a grande agricultura. Não conseguiu. Para o pesquisador, a instituição, criada em 1973 em pleno regime militar, se afogou na "cultura autoritária da ditadura".

Navarro é pesquisador e expôs sua opinião sobre a empresa em um artigo no jornal O Estado de São Paulo. Foi punido da pior forma: demitido sumariamente pela direção da Embrapa por tornar público seu pensamento sobre o que entende serem as mazelas da instituição. Diz que foi alvo de uma ação truculenta e arbitrária e irá recorrer à Justiça para voltar ao cargo. 

"Foram pelo menos três anos buscando todos os canais internos para dizer que precisamos de uma estratégia colada à realidade. As pessoas ignoraram. Me diziam que estava afrontando os chefes. Me tornei um chato dentro da Embrapa", relatou Navarro em entrevista à Gazeta do Povo

Mestre e doutor em Sociologia Rural, Navarro se aposentou como professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Em 2010 decidiu fazer o concurso para a Embrapa. Aprovado, foi chamado um ano depois para trabalhar. Até ser demitido, era lotado justamente na Secretaria de Inteligência Estratégica da estatal, em Brasília. Era praticamente o único sociólogo na empresa atuando na área. Os outros estão deslocados em funções administrativas. 

"Ou seja, meu papel era de ajudar a construir uma estratégia para a empresa. Sou um pesquisador que levantada dados, analisa, faz anotações, aponta os problemas, escreve e apresenta caminhos. Nenhum sociólogo deixa de fazer isso. Se for sociólogo", disse Navarro. 

Ele não reclama das condições do trabalho. "Tenho, ou tinha, excelentes condições de trabalho. Uma boa sala. Não me faltava nada. Exceto ser ouvido". 

Navarro disse que a Embrapa está dominada por agrônomos, com suas preocupações tecnológicas. Diz que falta pesquisa mais relevante do ponto de vista econômico e sociológico. Não é um crítico ferrenho do agronegócio nem um militante ideológico da pequena agricultura. Reconhece a importância da agricultura. 

"O mundo agropecuário é uma atividade relevante da economia. Não é de beletrista e de amante da natureza. Essas pessoas não estão no campo para ouvir canto de passarinho", diz Navarro, que aponta o problema, no seu entendimento. 

"O que tem que ficar claro é que na agropecuária vai tudo numa direção, que é consolidar em larga escala a grande agricultura. O campo brasileiro está se esvaziando do ponto de vista populacional. Os produtores de menor porte estão cada vez mais encurralados do ponto de vista econômico e financeiro. E o que a Embrapa está fazendo? Qual a estratégia hoje do meio rural brasileiro? Ninguém sabe. Uma empresa com dez mil funcionários e que não tem estratégia". 

Autoritarismo

O pesquisador não preserva o presidente da Embrapa, Mauricio Antônio Lopes, apontado por ele como "hiper-centralizador". A empresa, em nota, informou que Navarro foi demitido por ter violado regras de ética e condutas da empresa. 

"O atual presidente é extremamente autoritário. É uma pessoa que não admite nenhuma opinião diferente da dele própria. Se fosse um admirável gestor, um profundo conhecedor da área funcionaria bem. Mas como não é assim..." 

A Gazeta do Povo não conseguiu contato com a Embrapa. 

Para ele, a Embrapa, que tem 44 anos, se divide em duas fases: os primeiros 20 anos e os últimos 25. O "período de ouro" da empresa, para ele, se deu na década de 1990. 

"Nessa época a agricultura explodiu. Os preços dos produtos subiram muito, o Brasil aumentou sua área plantada e os agricultores estavam mais abertos à modernização. A complexidade foi aumentando, mas a extensão rural foi desaparecendo. A ponte com o produtor foi destruída em quase todo o Brasil", disse Navarro, que continua seu raciocínio. 

"Aí vem a segunda fase. Nos últimos vinte anos a Embrapa foi perdendo o rumo. A agricultura se tornou mais complexa e a extensão rural ineficaz". 

Zander Navarro tem um currículo extenso. É engenheiro agrônomo, especializado em Economia Rural, mestre em Sociologia Rural e doutorado em Sociologia. Além de pós-doutor em Ciência Política, formação obtida no MIT, nos Estados Unidos. Os movimentos sociais foram um de seus vários campos de trabalho.

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