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Projeto premiado ajuda deficiente a trabalhar

Programas gratuitos usados por cegos são reunidos em um pen drive, reduzindo o custo para o empregador e o risco para o empregado

Flávia  e Fernando, criadores do pen drive inclusivo f123: preço do software para cegos não cai por falta de concorrência |
Flávia e Fernando, criadores do pen drive inclusivo f123: preço do software para cegos não cai por falta de concorrência
 
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O Brasil tem leis que ajudam a incluir pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho, com cotas a serem preenchidas por empresas de grande porte. Mas esse incentivo muitas vezes desaparece diante das dificuldades que as empresas têm para pôr esses trabalhadores dentro dos escritórios. Um exemplo: que empregador es­­taria disposto a gastar R$ 3 mil reais em software para ter em seus quadros um estagiário cego? Foi pensando nessas dificuldades – enfrentadas por ele próprio, portador de retinose pigmentar e completamente cego desde os 17 anos – que o sociólogo Fernando Bo­­telho desenvolveu o projeto f123, que reúne em um pen drive o software básico para que portadores de deficiência possam usar um computador em condições iguais às de um trabalhador com capacidade visual. Os programas são gratuitos, baseados em Linux, o que torna a solução virtualmente sem custo – resume-se ao preço do dispositivo, algo como R$ 30,00. A vantagem do pen drive é a portabilidade. Com ele o cego não precisa carregar seu próprio notebook, correndo o risco de roubos ou acidentes, e pode usar qualquer computador: desde uma biblioteca ou lan house até o de uma em­­presa, sem necessidade de adaptação. A única mudança que precisa ser feita na máquina é no BIOS (si­­gla em inglês para Sistema Básico de Entrada e Saída), o programa gravado na memória permanente do computador, que é responsável pelo carregamento do sistema operacional. É preciso alterar o BIOS para que ele permita ao computador iniciar o sistema a partir do pen drive, sem carregar o sistema operacional do disco rígido.

O projeto é simples, mas de grande potencial inclusivo. Tanto que foi escolhido pelo Banco In­­teramericano de Desenvolvimento (BID) para o prêmio A World of So­­lu­­tions, que dará a Fernando e sua sócia Flávia de Paula até US$ 50 mil para criar uma versão em espanhol dos programas e de sua documentação, e transferir a tecnologia para Argentina, Costa Rica, El Salvador, Equador, Peru e Uruguai. A empresa de Fernando e Flávia, a consultoria F123, já tem parceiros nacionais para disseminar também no Brasil o projeto.

Em geral, o tempo de treinamento dos deficientes que forem usar o f123 depende dos objetivos de cada um e da profundidade do usuário. Em março os consultores darão início a uma turma de um curso de 40 horas de duração.

A necessidade de desenvolver uma alternativa tecnológica para deficientes visuais surgiu para Fer­­nando em 2006, quando ele trabalhava na Suíça, na área de filantropia do banco UBS. Pes­quisando os custos de hardware e software acessível, ele constatou que, entre 1997 e 2006, o preço dos computadores caiu 82%, já tirada a variação da inflação. Já o preço do software usado por deficientes visuais au­­mentou 24%. “A competição fazia o preço do hard­ware cair, mas o soft­­ware nunca parou de subir”, diz. Isso ocorre, segundo ele, porque em países europeus e nos Esta­­dos Unidos o governo é o grande comprador desses programas, o que elimina a pressão por queda de preços que os clientes individuais costumam fazer.

A ideia inicial era montar um instituto para promover a inclusão dos portadores de deficiência, mas ele não obteve recursos. Assim, de­­cidiu voltar para o Brasil – nascido aqui, filho de um funcionário da área internacional do Banco do Brasil, ele viveu em diversos países e fez seus estudos universitários nos Estados Unidos, incluindo um mestrado em Rela­ções Internacio­nais pela George­town University, em Washington – e criar a consul­to­­ria. Mesmo sem formação em programação de computadores, ele e Flávia (que é formada em Odon­­­­­tologia e especializada em Saú­­de Global pela universidade americana de Yale) criaram o projeto.

Fernando é um entusiasta so­­bre o uso do software livre em aplicações inclusivas. “O índice de analfabetismo entre os cegos nos países em desenvolvimento é de 99%, e o desemprego é altíssimo”, diz. “Esse não é um projeto revolucionário do ponto de vista tecnológico. Ele é revolucionário do ponto de vista social.” Uma versão do pen drive com programas destinados a portadores de deficiência motora também eá sendo preparado. Ele inclui o comando da tela pelos olhos, usando para isso uma webcam comum.

Serviço: Consultoria F123 – acesse o site f123.org.

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