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Contamina-me

Xenófobos têm medo da “contaminação” dos estrangeiros. Tal como preconceituosos têm medo da “contaminação” do diferente, do alvo de seu preconceito

  • fernandor@gazetadopovo.com.br
 
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Lembrei outro dia. Já faz algum tempo. Se minha memória não falha, o convite foi mais ou menos assim: “Ven. Vamos a escuchar música” . Ela era argentina. Tem brasileiro que torce o nariz para os hermanos. Coisa do futebol. Mas que, por vezes, vai além disso. No mais, quase viramos as costas para eles. Pena. Mal sabemos o que se passa por lá. São gente como a gente. Muitos, buena gente . E fazem bons filmes. Da minha parte, também posso dizer: têm boa música. Desta vez, porém, ela havia de me apresentar não a uma do cancioneiro platino, mas do espanhol. Uma conexão Argentina-Espanha. E teria mais mistura cultural. Já já chego lá.

CD posto no aparelho de som. Ou seria a fita cassete no gravador? Meio antigo isso, hein? Mas eu avisei: já faz algum tempo... Voltemos à história. Ela aperta o play. E então: VEN! CON-TA-MÍ-NA-ME! Fui. Contaminei-me. Pelo ritmo. Pela letra. Pela ideia.

Cuéntame el cuento del árbol datil de los desiertos... Dame los ritmos...y los secretos que hay en los libros que yo no leo. Contamíname. Pero no con el humo que asfixia el aire. Ven, pero sí con tus ojos y con tus bailes. Ven, pero no con la rabia y los malos sueños. Ven, pero sí con los labios que anuncian besos. Contamíname, mézclate conmigo...

Ouça a música na interpretação de Ana Belén, Miguel Rios, Victor Manuel, Joan Manuel Serrat

Tudo já estava esquecido em alguma gaveta empoeirada de minha cabeça

Contamíname foi composta por Pedro Guerra em meados dos anos 1990, quando a Espanha vivia uma onda de xenofobia. Xenófobos têm medo da “contaminação” dos estrangeiros. Tal como preconceituosos têm medo da “contaminação” do diferente, do alvo de seu preconceito.

A canção põe a “contaminação” de ponta-cabeça. Usa uma ideia negativa e a transforma em algo positivo. Com várias referências ao mundo árabe que tanto influenciou a Espanha, fala da mestiçagem cultural – o “contágio” do bem. Na voz da cantora Ana Belén, Contamíname virou um hit no mundo de língua castelhana e um hino antirracismo.

Leia a letra original e a tradução para o português

Como toda obra aberta, também pode ser interpretada de outra forma: o feliz encontro entre amigos ou casais; o convite para que cada um misture o que tem de bom com o outro. “Vem, mas não com a raiva ou os pesadelos. Vem, mas sim com os lábios que anunciam beijos. Contamina-me, mescla-te comigo.”

Lembrei da canção tanto tempo depois por acaso. Tudo já estava esquecido em alguma gaveta empoeirada de minha cabeça. Foi numa manhã, naquele instante em que você ainda está meio dormindo, meio acordado. De repente, o refrão saltou de volta à vida – Ven! Contamíname!.

Não foi difícil reencontrar a canção na internet. E, ao recordar-me dos acordes e letra, não tive como deixar de associá-la ao momento. Donald Trump. Sim, ele. O homem que admira alguém como Putin. Que acha que pode fazer qualquer coisa com uma mulher porque é famoso. Que ridicularizou a deficiência física de um jornalista. Que insultou mexicanos ao associá-los a traficantes e “violadores”. Que quer fechar os EUA e expulsar os imigrantes.

“Ah, mas são só os ilegais”, dizem seus defensores – como se isso atenuasse o conjunto de sua obra que, no todo e na boca de um presidente americano, estimula o preconceito em escala planetária.

Temo que o que vem com a doutrina Trump é um mundo de raiva e sonhos ruins. Um mundo higienista, que quer esterilizar a diferença. Que tem medo dessa “contaminação”. Espero sinceramente que reconsiderem.

Mas minha mensagem, ao fim, se direciona ao “outro”. Ao “diferente”. Ou ao estrangeiro. A quem chega aqui de boa vontade: “Vem! Contamina-me!”

PS: Este “texto musical” também é “dedicado” àqueles que acham que, enquanto houver dor, não pode haver música. Alô, prefeito: a música também alivia a dor. E como!

LETRA

Contamíname

Cuéntame el cuento del árbol datil

de los desiertos

de las mezquitas de mis abuelos.

Dame los ritmos de las darbukas

y los secretos

que hay en los libros que yo no leo.

Contamíname, pero no con el humo que asfixia el aire

ven, pero sí con tus ojos y con tus bailes

ven, pero no con la rabia y los malos sueños

ven, pero sí con los labios que anuncian besos.

Contamíname, mézclate conmigo,

que bajo mi rama tendrás abrigo.

Contamíname, mézclate conmigo,

que bajo mi rama tendrás abrigo...

Cuéntame el cuento de las cadenas

que te trajeron,

de los tratados y los viajeros.

Dame los ritmos de los tambores

y los voceros,

del barrio antiguo y del barrio nuevo.

Contamíname, pero no con el humo que asfixia el aire

ven, pero sí con tus ojos y con tus bailes

ven, pero no con la rabia y los malos sueños

ven, pero sí con los labios que anuncian besos.

Cuéntame el cuento de los que nunca

se decubrieron,

del río verde y de los boleros.

Dame los ritmos de los buzukis,

los ojos negros,

la danza inquieta del hechicero.

Contamíname, pero no con el humo que asfixia el aire

ven, pero sí con tus ojos y con tus bailes

ven, pero no con la rabia y los malos sueños

ven, pero sí con los labios que anuncian besos.

TRADUÇÃO

Contamina-me

Conta-me a história da tamareira

dos desertos,

das mesquitas de meus avós.

Dá-me os ritmos das darbukas*

e os segredos

que estão nos livros que eu não leio.

Contamina-me, mas não com fumaça que sufoca o ar

vem, mas sim com seus olhos e suas danças

vem, mas não com a raiva e os pesadelos

vem, mas sim com os lábios que anunciam beijos.

Contamina-me, mistura-te comigo,

que embaixo de meu ramo terá abrigo.

Contamina-me, mistura-te comigo

que embaixo de meu galho terá abrigo...

Conta-me a história das correntes

que te trouxeram,

dos tratados e dos viajantes.

Dá-me os ritmos dos tambores

e dos porta-vozes

do bairro antigo e do bairro novo.

Contamina-me, mas não com fumaça que sufoca o ar

vem, mas sim com seus olhos e suas danças

vem, mas não com a raiva e os pesadelos

vem, mas sim com os lábios que anunciam beijos.

Conta-me a história daqueles que nunca

se descubriram,

do rio verde e dos boleiros.

Dá-me os ritmos das buzukis*,

os olhos negros,

a dança inquieta do feiticeiro

Contamina-me, mas não com fumaça que sufoca o ar

vem, mas sim com seus olhos e suas danças

vem, mas não com a raiva e os pesadelos

vem, mas sim com os lábios que anunciam beijos.

*Darbuka é instrumento de percussão da música árabe. Buzuki é uma espécie de viola típica da música tradicional grega e do Oriente Médio.

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