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Dossiê Battisti

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Nação indignada

Para italianos, Battisti é terrorista

Políticos de direita e de esquerda e a população da Itália são praticamente unânimes em afirmar que ex-ativista preso no Brasil deveria ser extraditado

Manifestantes, durante protesto contra a recusa do Brasil de extraditar Battisti, em 4 de janeiro: figura de um corpo estendido no chão, em frente da embaixada brasileira em Roma, simboliza as vítimas do italiano |
Manifestantes, durante protesto contra a recusa do Brasil de extraditar Battisti, em 4 de janeiro: figura de um corpo estendido no chão, em frente da embaixada brasileira em Roma, simboliza as vítimas do italiano
 
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Para italianos, Battisti é terrorista

Cesare Battisti é um terrorista. E deveria cumprir a pena que recebeu da Justiça italiana pela participação em quatro homicídios ocorridos entre 1978 e 1979. Essa é opinião generalizada das autoridades e do povo italianos, e não apenas dos familiares das vítimas ou de políticos que possam ter algum proveito com a extradição de Battisti. Durante uma semana, a reportagem da Gazeta do Povo esteve na Itália e constatou o desgosto generalizado com a decisão tomada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último dia de seu mandato.

Os cidadãos italianos se dizem ainda mais indignados com a “falta de arrependimento” de Battisti. O italiano – preso no Brasil desde 2007 por uso de passaporte falso – se declara inocente, e por isso não haveria do que se desculpar. Outro fato que mexe com os brios da população é que, se Battisti não tivesse fugido da Itália em 1981, já poderia ter saído da prisão. Apesar de ter sido condenado à prisão perpétua, a lei italiana garante a liberdade condicional após 26 anos. Isso ocorreu, por exemplo, com os extremistas de direita Giuseppe Fioravanti e Francesca Mambro, condenados por vários homicídios e pelo planejamento do ataque à bomba na estação de trem de Bolonha, em 1980, que resultou na morte de 93 pessoas.

Quase unanimidade

“Não sei por que essa decisão [de Lula] foi tomada, e espero que ele não saia da prisão. Mas uma coisa é certa: da justiça divina o Battisti não escapa”, afirma o taxista Ermanno Sasselli, de Novara (a 50 quilômetros de Milão), apontando para o crucifixo que tem em seu carro.

Não há uma pesquisa de opinião pública recente sobre a extradição de Battisti na Itália. Mas dá até para entender. O assunto é quase uma unanimidade, a não ser pelos familiares e algumas poucas vozes contestadoras – o irmão de Cesare, Domenico Battisti, afirmou à Gazeta do Povo que há muitas pessoas apoiando a causa, mas que a mídia não dá espaço para elas.

O fato é que, andando nas ruas, no comércio ou nos cafés da Itália, todos os cidadãos comuns que conversaram com a reportagem sobre o caso são da opinião de que Battisti deveria ser extraditado e mandado à cadeia. “As pessoas mortas pelo PAC [Proletários Armados pelo Comunismo, grupo extremista de esquerda do qual Battisti fazia parte] não eram políticos nem tinham influência sobre grupos ou organizações. Era gente comum, que não tinha nada a ver com a disputa pelo poder”, diz Marina Menasci, proprietária de uma loja de brinquedos em Roma.

Criminoso

Essas pessoas comuns, junto com os familiares das vítimas, representantes da Justiça italiana e políticos de todas as ideologias – da esquerda à direita – também fazem coro para dizer que, em nenhuma hipótese, Battisti pode ser classificado como preso político.

“Se eu estivesse na mesma situação que Battisti, convicto da minha inocência, a primeira coisa que teria feito ao chegar ao Brasil seria procurar a polícia e dizer que eu era um perseguido político da Itália, condenado injustamente, e que precisava de ajuda. Mas ele preferiu usar um passaporte falso e ficar escondido. Como é que um presidente da República pode acreditar em uma pessoa desse tipo?”, diz o milanês Maurizio Campagna, irmão do policial Andrea Campagna, morto em 1979 pelo PAC.

O deputado italiano Fabio Porta, do partido de esquerda PD, que faz oposição ao primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi (de direita), segue a mesma linha. “O Battisti era um criminoso comum que, depois, se infiltrou no movimento terrorista. Fico preo­cupado vendo que, no Brasil, uma certa esquerda fale desse assunto não sabendo ou não querendo entender que a esquerda italiana também sofreu muito com o terrorismo.”

Ele ressalta que grupos como o PAC queriam desestabilizar um governo democrático. “Não era um movimento político em favor da liberdade. Pelo contrário”, afirma Porta, que é sociólogo. Ele ressalta que a situação era muito diferente dos regimes militares que comandaram o Brasil, Argentina e Chile no mesmo período. Segundo o deputado, as ditaduras sul-americanas se assemelham mais ao regime imposto à Itália por Benito Mussolini entre 1922 e 1945.

“Não consideramos terroristas os italianos que explodiram bombas durante a resistência ao fascismo, por exemplo. Era uma guerra justificada porque o governo do Mussolini era opressor e fascista. Mas a Itália dos anos 70 e 80 era uma democracia, e nessa época o terrorismo foi combatido por todos os partidos, inclusive os de extrema esquerda, como o Partido Comunista”, ressalta Porta.

O deputado Giovanni Bachelet, também do PD, é outro que defende a extradição de Battisti. O pai dele, Vittorio, foi morto em 1980 pelo grupo de esquerda Brigadas Vermelhas. “Sinto muita falta dele. O consolo é que, para um cristão, a morte não acaba com tudo”, conta de seu escritório na Univer­­­sidade La Sapienza, em Roma, onde é professor de Física licenciado para cumprir mandato na Câmara. Segundo ele, a situação italiana era mais parecida com a da Irlanda, que sofreu décadas com os ataques promovidos pelo IRA, o Exército Republicano Irlandês.

Com muita serenidade, Ba­­chelet lembra que os grupos de extrema direita também praticaram atos terroristas. Muitos terroristas de direita também foram condenados, como Giuseppe Fioravanti e Francesca Mambro. Mas não se tem notícia de nenhuma pessoa que tenha obtido o status de preso político na Itália.

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Interatividade

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