A população urbana da terra superou a rural no ano passado, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). São 3,3 bilhões de pessoas para cada lado. No Brasil, só 20% dos 190 milhões de habitantes algo em torno de 40 milhões vivem na zona rural. O descompasso brasileiro deve-se à adoção de um conceito muito restrito do que é rural, defende o pesquisador Wilson Schimidt. Ele considera que cidades inteiras dependem da atividade rural mas são consideradas urbanas. Por outro lado, a atividade rural tem contato cada vez maior com o meio urbano. Que o diga dona Maria José da Silva Alvez, 57 anos, pernambucana de Feira Nova. Ela trabalha quatro dias por semana em 8 hectares produzindo alimentos. Porém, aos sábados e nas quartas, trabalha como feirante em Olinda e Recife. É no meio urbano que efetivamente ganha dinheiro.
Na avaliação de Schmidt, as políticas públicas e os próprios projetos de empreendedorismo precisam levar em conta a mistura entre rural e urbano para evitar a migração dos jovens para as cidades. Ele considera que não é mais possível dissociar um meio do outro. "Há indústrias que preferem fretar ônibus para buscar trabalhadores no campo do que se instalar em centros urbanos", cita. Além disso, para dar qualidade de vida à população rural, é preciso garantir acesso a bens e serviços mais usados nas cidades como automóveis e internet.
A integração com o urbano mudou a vida de dona Maria, mãe de seis filhos, apontada como exemplo de empreendedorismo. "Não tinha renda nenhuma. Na primeira feira tirei R$ 35, que para mim foi uma riqueza. Hoje volto para casa com até R$ 1,2 mil", comemora. Apesar de não contar com um único trator, sua atividade é considerada uma agroindústria. Da mandioca, produz a farinha. E da farinha, pelo menos dez alimentos diferentes. Frutas e legumes completam sua barraca. "Meu sítio é um supermercado."



