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Entrevista com Décio Gazzoni, Pesquisador da Embrapa

O potencial da soja vai bem além do atual, não só pela possibilidade de se ampliar a produção, mas também pelo uso da oleaginosa como fonte de energia. Especialista nesses dois pontos, o pesquisador Décio Gazzoni, da Embrapa e membro do Painel Cientifico Internacional de Energia Renovável do Conselho Internacional de Ciências (ICSU), diz que é possível mais do que dobrar a produtividade.

Existe hoje tecnologia para se ampliar em 50% a produtividade da soja no Brasil?

Nossa proposta é atingir, em média, 4.000 kg/ha até 2012. Em 2007, a produtividade media no Brasil foi de 2.836 kg/ha. Este ano deve ficar em torno de 2.650kg/ha, devido à forte seca no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Para estabelecer a linha base, convidamos pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB) 150 produtores para conduzir uma parte de sua lavoura, utilizando a tecnologia que conhecem e dispõem, e apresentando os resultados no fim da próxima safra. Em média, esse grupo produziu 4.003 kg/ha no último ciclo, apesar da seca. Os cinco produtores mais bem colocados produziram acima de 5.000 kg/ha. Portanto, no momento, dispomos de tecnologia para produzir acima de 5.000 kg/ha. Chegar na média de 4.000 kg/ha é perfeitamente possível.

Por que essas tecnologias já existentes no país não são usadas na lavoura?

Talvez o principal problema não seja o não uso e sim o uso parcial ou mau uso de tecnologias como o manejo de pragas, uso de bioativadores e a inoculação de sementes. Alguns produtores não usam sementes fiscalizadas, reduzindo seu potencial produtivo. Outros não utilizam as cultivares mais adaptadas à sua região. Muitos não fazem análise de solo para decidir sobre a melhor adubação. Outros tomam as amostras de forma errada. Assim, aplica-se adubo de mais ou de menos, prejudicando a produção. A maioria das máquinas e implementos agrícolas é mal regulada, provocando perda de adubo, má aplicação de agrotóxicos ou perdas na colheita. O uso de agrotóxicos não recomendados, no momento errado, sem um diagnóstico correto das pragas, conduz a custos mais altos e produtividade mais baixa.

Por que o produtor do Sul usa menos tecnologia como a do inoculante para soja que o produtor do Cerrado?

Em parte porque o agricultor sulista vê os nódulos nas raízes e julga que não precisa inocular, esquecendo que os rizobios que ficam no solo são menos eficientes que os produzidos em laboratório. E em parte porque os produtores do Centro-Oeste são mais profissionais, melhores gestores e mais abertos à inovação tecnológica.

O Brasil tem condições agronômicas de se manter à frente dos EUA na produtividade da soja?

Seguramente, o Brasil não fica devendo nada em termos de tecnologia aos EUA.

Nos campos onde já se chegou a produtividades acima de 4 mil quilos por hectare, o caminho é a biotecnologia?

Até o momento não. Porém, no médio prazo, as cultivares tolerantes à seca farão toda a diferença e aí sim a biotecnolgia será muito importante.

A soja pode substituir o petróleo a longo prazo?

Parcialmente sim. Tanto como fornecedora de biodiesel quanto como fornecedora de insumos para a indústria química, substituindo os insumos de petróleo.

Qual será o papel da soja no futuro?

A soja será a grande fonte de proteína vegetal e a segunda principal fonte de óleo vegetal. Estará presente diretamente na mesa, como alimento, na formulação de rações animais, como fonte de energia, e terá importância enquanto insumo da indústria química.

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