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O efeito multiplicador da agroindústria na economia

A economia paranaense, antigamente subordinada às grandes indústrias de outros estados, tem crescido em ritmo acelerado nas últimas décadas. Se até os anos 60 o Paraná era um mero fornecedor de matéria-prima, hoje tem uma economia dinâmica e diversificada. E o campo teve papel fundamental nessa transformação. Em entrevista à Gazeta do Povo, o diretor-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Gilmar Mendes Lourenço, explica como o avanço econômico dos anos 70 permitiu ao estado modernizar a sua principal atividade – a agropecuária – e assumir o papel de economia industrial forte.

Para ele, a evolução econômica do Paraná nas últimas três décadas está diretamente ligada ao desenvolvimento do campo dentro e fora da porteira. "A agroindústria é crucial para a pulverização geográfica do desenvolvimento do estado. Não por acaso, a maioria dos polos do interior mantém relação direta com o agro", diz o economista.

Como evoluiu o processo de agroindustrialização do Paraná?

Até a década de 40, a história econômica do Paraná esteve diretamente atrelada à dinâmica dos ciclos, começando pelo escravagismo, passando pelo tropeirismo e chegando à extração do mate e da madeira, consideradas atividades primário-exportoras de segunda categoria. Nos anos 40 e 50, com a entrada do café no Norte Novo, a economia do estado passa a estabelecer nexos comerciais com o mundo capitalista avançado.

As condições para a mudança de fisionomia produtiva do estado apareceram na década de 60, quando houve o salto infraestrutural e a criação de uma retaguarda financeira estatal que permitiram ao Paraná pegar carona no Milagre Econômico brasileiro e utilizar, de forma plena, a enorme capacidade de resposta do setor rural estadual aos incentivos modernizantes contidos na estratégia agrícola do governo federal pós 1966.

Na década de 70 houve pronunciada diversificação e modernização agrícola e agroindustrial, com ênfase para as cadeias de soja, café, laticínios, rações e frigoríficos. Nos anos 80, denotaram-se lampejos expansivos, conduzidos pelo amadurecimento dos ramos ligados ao Próalcool e pelas atividades de fiação de algodão, subprodutos do milho, carnes e malte.

Nos anos 90, é destacável o ajuste patrimonial e produtivo das cooperativas agroindustriais, que se despojam das funções de meros transferidores de matérias-primas às indústrias e se transformam em verdadeiros fabricantes de alimentos.

A agroindustrialização modificou o perfil sócio-econômico paranaense? Alterou, por exemplo, o fluxo de migração e urbanização do estado?

Certamente. O Paraná deixou de ser um estado essencialmente agrícola, conhecido como um celeiro de grãos, e assumiu o papel de economia industrial, com funções essencialmente urbanas. A disseminação das cadeias produtivas associadas ao binômio da soja e do trigo, altamente tecnificadas, e a perda de embalo do café e do algodão, lavoura s absorvedoras de mão de obra, colaborou para a intensa saída de paranaenses do estado, na direção das regiões de fronteira. De terra de todas as gentes, o Paraná virou expulsor de população.

Qual o papel da agroindústria no processo de descentralização da economia e interiorização do desenvolvimento?

A maioria dos polos do interior exibe relação direta com o agro. A agroindústria é crucial para a ocorrência de maior pulverização geográfica do desenvolvimento do estado. Nesse particular, as cooperativas, que atuam de forma regionalizada, detêm expressiva parcela da capacidade de agroindustrialização, dominam a oferta de matéria-prima agroindustrial e operam com padrões gerenciais e de capitalização semelhantes aos das grandes empresas privadas, podem exercer papel chave na identificação de oportunidades e na alocação de recursos em verticalização, de maneira mais eficiente.

A agroindústria paranaense já chegou ao seu limite ou ainda há espaço para crescimento?

O Paraná praticamente esgotou o estoque de terras aptas a serem incorporadas ao processo produtivo. O crescimento da renda agroindustrial impõe a radicalização da equação ditada pela multiplicação da eficiência. A nossa microeconomia é bastante eficiente da porteira da propriedade ou da porta da fábrica para dentro. O problema reside na macroeconomia, ou nos custos sistêmicos, particularmente em transportes. Afinal de contas, as cotações de Chicago ou o preço que a China paga ignoram pedágios, buracos nas estradas, ausência de intermodalidade, precário gerenciamento e exíguos investimentos portuários, dentre outras anomalias. Isso dificulta a preservação da competitividade exportadora, sobretudo do complexo grãos, no Paraná.

Porém, um arranjo institucional entre governo estadual e federal, incluindo o setor privado, visando a recuperação física e a ampliação da produtividade da infraestrutura de transportes do Paraná pode vir a compensar essas desvantagens e assegurar a perenização da alta performance dos grãos, carnes, madeira, celulose e atividades sucroalcooleiras. Ao mesmo tempo, o inexorável processo de elevação e melhoria de distribuição de renda e, por extensão, da mobilidade social no Brasil abrem flancos para um redesenho diversificado da agroindústria paranaense, tendo como alvo preferencial o suprimento da demanda interna brasileira.

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