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arma biológica

EUA testam exército de insetos para espalhar vírus e defender lavouras

Tecnologia serviria para recompor culturas destruídas abruptamente; pesquisadores e juristas temem que projeto possa ser usado para fins bélicos

BigStock O pulgão é um dos insetos que o Pentágono está pesquisando como agente para uso na recuperação imediata de lavouras | BigStock

O pulgão é um dos insetos que o Pentágono está pesquisando como agente para uso na recuperação imediata de lavouras

  • The Washington Post

O Pentágono está estudando se insetos podem ser convocados para combater perdas nas lavouras em situações de emergência. Eles poderiam carregar vírus geneticamente programados para ser implantados rapidamente caso culturas importantes, como milho ou trigo, se tornem vulneráveis a seca, ferrugem natural ou a um repentino ataque de arma biológica. A ideia é que esses vírus provoquem modificações genéticas que protejam as plantas imediatamente, durante uma única fase de crescimento.

O programa, financiado pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA), tem um nome bem humorado e vago: “Insetos Aliados”. Mas alguns críticos acham a coisa bastante assustadora.

Uma equipe de cientistas céticos e juristas publicou um artigo na revista Science argumentando que o programa abre uma “caixa de Pandora” e envolve tecnologia que “pode ser amplamente percebida como um esforço para desenvolver agentes biológicos para propósitos hostis”. Um site criado pelos críticos coloca sua objeção mais diretamente: “O programa da DARPA pode facilmente virar uma arma de guerra.”

O gerente de programas da DARPA para o Insetos Aliados, Blake Bextine, refutou o artigo da Science, dizendo que o programa é exclusivamente para fins pacíficos e que foi revisado por agências governamentais responsáveis ​​pela segurança agrícola, além de ter múltiplas salvaguardas embutidas nos protocolos de pesquisa, incluindo total contenção dos insetos.

“Não acho que as pessoas precisam se preocupar. Não acho que a comunidade internacional precisa se preocupar”, disse Bextine ao The Washington Post. Ele reconheceu que o programa envolve novas tecnologias que potencialmente poderiam ser de “uso duplo”, implementadas, em teoria, para propósitos defensivos ou ofensivos. Mas isso é verdade para quase todas as tecnologias avançadas, segundo ele. “Estamos dando às plantas características positivas. Estamos mirando em metas positivas. Queremos garantir a segurança alimentar, porque isso, a nosso ver, significa garantir a segurança nacional”, afirmou Bextine.

Vírus personalizados

O programa atualmente prevê três tipos de insetos pestíferos como aliados: pulgões, cigarrinhas e moscas brancas. Na natureza, esses insetos rotineiramente espalham vírus entre as plantas. Recentes avanços na edição de genes, incluindo o sistema relativamente barato e simples conhecido como CRISPR (para repetições palindrômicas interespaciais regularmente agrupadas), poderiam permitir que os pesquisadores personalizassem vírus para alcançar um objetivo específico na planta infectada. O vírus modificado poderia ligar ou desligar certos genes que, por exemplo, controlam a taxa de crescimento de uma planta, o que poderia ser útil durante uma seca inesperada e severa.

Bextine disse que existem várias camadas de proteção para garantir que esta tecnologia não tenha efeitos ecológicos indesejados. Ele também disse que o programa não tem como alvo as células germinativas das plantas e, portanto, não levaria a traços hereditários. O objetivo da DARPA é encontrar uma maneira de fazer uma modificação temporária e benéfica para as plantas em uma única estação de crescimento.

Esta pesquisa pode nunca dar frutos. Essa é a norma para a maioria dos projetos da DARPA. A agência, famosa por seu papel fundamental em estabelecer as bases para a Internet há meio século, normalmente financia pesquisas com baixa probabilidade de sucesso, mas com um retorno potencialmente enorme.

A segurança alimentar é uma questão importante que provavelmente não desaparecerá nas próximas décadas, à medida que um planeta mais populoso experimentará a mudança climática, a poluição, a perda de biodiversidade e a crescente demanda por alimentos e água. A guerra de culturas é outra preocupação. Nos tempos antigos, os exércitos queimavam campos como elemento estratégico de conquista. No mundo de hoje, as ameaças podem incluir a distribuição de patógenos naturais ou algo projetado em laboratório.

Resposta rápida

“A segurança nacional pode ser rapidamente colocada em risco por ameaças naturais ao sistema de cultivo, incluindo patógenos, secas, inundações e geadas, mas especialmente por ameaças introduzidas por atores estatais ou não estatais ”, afirma um comunicado no site da DARPA. O “Insetos Aliados” busca mitigar o impacto destas incursões aplicando terapias direcionadas a plantas maduras com efeitos que são expressos em escalas de tempo relevantes - ou seja, dentro de uma única estação de crescimento”. acrescenta a agência.

Os autores do artigo da Science afirmam que o programa poderia potencialmente ser interpretado como uma violação de um tratado internacional chamado Convenção de Armas Biológicas. Eles não chegam a afirmar que a DARPA teria motivos nefastos. Eles dizem que, se os observadores considerarem o programa como uma ofensiva militar, isso poderia prejudicar a adesão ao tratado de armas biológicas.

“Nós argumentamos que há o risco de o programa ser visto como algo que não se justifique para fins pacíficos”, disse a professora de direito internacional da Universidade de Freiburg e coautora do artigo, Silja Voeneky. Segundo ela, o uso de insetos como peça chave do programa é particularmente alarmante, porque eles poderiam ser implantados de forma barata e clandestina por agentes malévolos.

“Em nossa opinião, as justificativas não são claras o suficiente. Por exemplo, por que eles usam insetos? Eles poderiam usar um sistema de sprays”, argumenta Voeneky. “Usar insetos como vetor para espalhar doenças é um tipo clássico de arma biológica”.

O tratado de armas biológicas permite pesquisas que tenham propósito pacífico claramente declarado, informa Andy Weber, ex-funcionário do Pentágono que supervisiona os programas de defesa nuclear, química e biológica e agora é membro sênior do Conselho de Riscos Estratégicos. Weber observou que a comunidade de biodefesa tem se preocupado com o uso potencial de novas tecnologias de edição genética por atores hostis.

“Com o tempo, grupos terroristas e indivíduos também poderiam explorar essas novas capacidades, mas não vejo isso como algo que vai acontecer neste ano ou no próximo ano. Mas é certamente algo que queremos antecipar”, disse ele.

Alarme infundado

James Stack, um patologista de plantas da Universidade Estadual do Kansas que está servindo no painel consultivo do projeto Insetos Aliados, afirma que o alarme soado pelo artigo da Science é infundado. “Não está nem perto do estágio de aplicação. Isso é para determinar se essa abordagem é viável ou não. Eu não entendo o nível de preocupação levantado neste artigo, e se antecipar e acusar a DARPA de usar isso como um disfarce para desenvolver armas biológicas é escandaloso”, criticou.

E disse mais: “Há risco inerente à própria vida. Você só tem que administrá-lo bem. E eu acho que enquanto nosso planeta vai ficando cada vez mais lotado, vamos demandar de maneira crescente os nossos sistemas de alimentos e de água. Vamos precisar de todas as ferramentas que eventualmente tivermos”.

Uma dessas ferramentas é a modificação genética de organismos através de técnicas de laboratório. Os insetos aliados podem ser tão eficazes quanto uma tecnologia de edição de genes que poderia se tornar um procedimento padrão para os agricultores, de acordo com Guy Reeves, coautor do artigo da Science e biólogo evolutivo do Instituto Max Planck de Biologia Evolutiva. Ele diz que as modificações genéticas - entregues pelo que chama de “agentes ambientais de alteração genética” - provavelmente se espalharão para campos reservados para cultivos orgânicos, não geneticamente modificados.

“Se esse programa for aceitável, e decidirmos que essa tecnologia é algo que queremos levar adiante, por que usaríamos qualquer outra tecnologia por nada?”, questionou. “Se essa tecnologia funcionar, quase que por definição, os governos não vão conseguir deter que ela se espalhe”.

A pesquisa, no entanto, ainda está em fase inicial, segundo Bextine. A primeira grande descoberta foi conseguir demonstrar que um pulgão pode infectar uma planta de milho madura com um vírus modificado contendo um gene que cria fluorescência.

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