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60 mil hectares

Por que Angola está cedendo terras para produtores brasileiros

Agronegócio Angola Brasil
Terras em Angola apresentam semelhança com Cerrado brasileiro, segundo adido agrícola do Brasil no país africano (Foto: Alexandre Juca/Unsplash)

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O governo federal mantém tratativas avançadas com autoridades de Angola para um acordo de cooperação voltado à expansão do setor agrícola no país africano por meio da transferência de tecnologias do agronegócio brasileiro.

As tratativas envolvem a participação de empresários e instituições financeiras brasileiras, que devem investir cerca de US$ 120 milhões em projetos na província angolana do Cuanza-Norte, com foco inicial na produção de grãos e alimentos básicos.

Ao todo, serão disponibilizados cerca de 60 mil hectares de terras — área equivalente a 85 mil campos de futebol — para produtores brasileiros, segundo anunciou o governador provincial João Diogo Gaspar durante um encontro recente com uma comitiva de empresários brasileiros.

O objetivo, de acordo com o governo local, é atrair a experiência e tecnologia brasileira para aumentar a produção nacional, promover exportações, gerar empregos e tornar Angola autossuficiente do ponto de vista alimentar.

O modelo discutido prevê parcerias com produtores locais, transferência de tecnologia tropical e eventual financiamento por meio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Banco do Brasil.

Segundo apurou o jornal Valor Econômico, os recursos do BNDES serão emprestados para a aquisição e exportação de máquinas agrícolas fabricadas no Brasil e de insumos de empresas brasileiras para o país africano.

Já o Banco do Brasil participaria do arranjo para operacionalizar recursos repassados por meio do Programa de Financiamento às Exportações (Proex). A ideia é que o Fundo Soberano de Angola participe com 17% do montante total.

O custeio das lavouras será feito por meio de bancos angolanos, com aporte de 5% do valor e cobertura das garantias, e com a contrapartida financeira dos agricultores que participarem do programa, com recursos próprios, estimada em 10% do total.

Brasil pode ganhar com exportação de equipamentos e insumos

Para o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, o Brasil se beneficiaria com a ampliação de oportunidades de venda de máquinas, equipamentos, sementes, insumos e transferência de tecnologia.

Agricultores e investidores brasileiros também podem se beneficiar do acesso a áreas agricultáveis ainda pouco exploradas e com custos operacionais potencialmente menores do que em regiões consolidadas do país.

“Avançar nessa parceria é beneficiar ambos os países e promover oportunidades para os nossos produtores”, disse Fávaro durante missão no país africano no fim de janeiro. “O Brasil tem muito a contribuir com sua experiência em pesquisa agropecuária e em tecnologias de baixo carbono.”

Segundo o ministro, foram identificadas oportunidades para a produção de milho, soja, algodão, carne bovina e suína. Além disso, as tratativas preveem aportes em infraestrutura, como armazéns e sistemas de irrigação.

Na visita de Fávaro a Angola, a proposta de cooperação brasileira foi protocolada junto a autoridades do setor econômico de Angola, incluindo o interesse de mais de 30 produtores brasileiros que já formalizaram disposição para investir em projetos agrícolas no país.

A entidade Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do Banco Mundial voltado ao setor privado em mercados emergentes, também demonstrou interesse em financiar as operações previstas no acordo.

Experiência com o Cerrado brasileiro interessa angolanos

Produtores angolanos têm grande interesse em sementes brasileiras em razão da semelhança de parte das terras do país com o Cerrado, segundo o adido agrícola do Brasil em Angola, José Guilherme Leal.

O Cerrado, que ocupa cerca de 25% do território brasileiro e era considerado pouco produtivo até a segunda metade do século passado, foi transformado em uma das principais áreas agrícolas do mundo em razão do investimento em tecnologia, crédito e infraestrutura.

Por outro lado, entre os riscos da iniciativa que precisarão ser trabalhados estão incertezas regulatórias, desafios logísticos em regiões com infraestrutura ainda limitada e a necessidade de adaptação das operações às condições institucionais e produtivas locais.

China também investe em produção agrícola em Angola

O movimento brasileiro ocorre em paralelo à expansão de investimentos semelhantes da China no país africano. No ano passado, o conglomerado estatal chinês Citic anunciou projetos de grande escala para produção de soja e milho, com investimentos estimados em cerca de US$ 250 milhões ao longo de cinco anos e planos de cultivo em até 100 mil hectares.

No caso da China, no entanto, o objetivo é garantir uma fonte de abastecimento estratégico de grãos, reduzindo a dependência de fornecedores externos tradicionais.

Diferentemente do modelo brasileiro, que tende a ser liderado por empresas privadas com apoio do governo, os projetos chineses contam com forte coordenação estatal e financiamento de bancos públicos, muitas vezes integrados a iniciativas de infraestrutura e logística.

A relação entre China e Angola já produziu resultados expressivos nas últimas duas décadas, principalmente na reconstrução de estradas, ferrovias e obras de energia financiadas por crédito chinês, frequentemente estruturado em acordos de longo prazo vinculados à produção de petróleo. A entrada de projetos agrícolas amplia essa cooperação para a área de segurança alimentar.

Angola pode se tornar nova fronteira agrícola mundial

Apesar das diferenças, tanto Brasil quanto China buscam ampliar a produção agrícola local, introduzir tecnologia e participar do crescimento do setor agroindustrial angolano.

O interesse crescente de Brasil, China e outros países é impulsionado pelo potencial agrícola ainda pouco explorado de Angola. O país reúne extensas áreas agricultáveis, clima favorável à produção de grãos tropicais e localização estratégica para exportações ao Atlântico.

Com aproximadamente 35 milhões de hectares de áreas agricultáveis ainda não exploradas, o país é considerado estratégico em termos globais, com potencial para se tornar uma nova fronteira agrícola mundial.

O país tem cerca de 37 milhões de habitantes, população que deve chegar a 70 milhões até 2050, mas ainda depende da importação de alimentos – a produção local supre apenas 37% da demanda interna.

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