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Além dos custos operacionais elevados e de adversidades climáticas, o setor sucroalcooleiro – responsável pela produção de cana-de-açúcar e fabricação de açúcar, etanol e outros derivados – enfrenta agora um novo desafio: as canetas emagrecedoras.
Cada vez mais populares, injetáveis como Ozempic e Mounjaro têm provocado uma mudança global no consumo de açúcar, reduzindo a demanda e derrubando os preços da commodity. Indicada para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, essa classe de medicamentos, conhecida como GLP-1, provoca sensação de saciedade após as refeições.
Neste mês, o valor do açúcar caiu abaixo de US$ 0,14 por libra nos contratos futuros de Sugar No. 11, referência global para o açúcar bruto (não refinado), atingindo sua menor cotação em cinco anos.
Em um ano, a queda acumulada chega a 29% – 4% apenas em 2026. Tradings americanas da commodity, como a Czarnikow, atribuem a queda à redução no consumo provocada pelas canetas emagrecedoras.
A correlação não é infundada, mas compartilhada até mesmo por órgãos oficiais. Na última atualização sobre o mercado de açúcar, do dia 19, pela primeira vez o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) citou nominalmente a classe de medicamentos GLP-1 como fator de risco para o mercado da commodity.
“A incerteza da demanda é parcialmente atribuída à pressão inflacionária e à redução geral no consumo de alimentos e bebidas, devido a uma mudança nos hábitos alimentares em meio à crescente popularidade dos medicamentos com peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1)”, diz trecho do relatório.
Segundo o órgão americano, com um baixo ritmo de crescimento no consumo mundial do produto, estimado em apenas 1,4%, os estoques globais devem crescer 5%, alcançando 44,4 milhões de toneladas e pressionando os preços para baixo.
A tendência impacta diretamente o Brasil, maior exportador mundial de açúcar e responsável por cerca de 23% da produção global da commodity.
No mercado doméstico, o preço da saca de 50 kg de açúcar cristal branco em São Paulo chegou nesta quinta-feira (26) a R$ 98,14, o menor valor nominal desde outubro de 2020.
Do início de 2025 para cá, o valor já recuou 39%, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP).
"Efeito Ozempic" começou nos EUA, mas já se espalha para outros países
Embora a queda seja mais visível em mercados como Estados Unidos e México, traders relatam um crescimento relevante nos estoques de açúcar também na Europa, em razão da rejeição de consumidores a produtos açucarados e ultraprocessados.
O Morgan Stanley foi um dos primeiros bancos a tratar do impacto das canetas emagrecedoras no consumo de açúcar. Em relatório publicado em agosto de 2023, analistas da instituição já ressaltavam que usuários de GLP-1 reduzem o consumo de calorias em geral, mas que o efeito é desproporcional em doces e bebidas açucaradas.
Um novo relatório do banco, de maio de 2024, projeta que 9% da população americana estará usando esses medicamentos até 2035, o que forçará empresas alimentícias a reduzirem porções e o teor de açúcar para manter a relevância no mercado.
O Goldman Sachs, por sua vez, calcula que 30 milhões de americanos estarão em tratamento com GLP-1 até 2030 e aponta que o uso generalizado pode reduzir os custos de saúde relacionados à obesidade em bilhões, mas cria um "vento contrário" (headwind) estrutural para empresas de bens de consumo que dependem de altos volumes de venda de produtos ultraprocessados e ricos em açúcar.
O assunto foi tema de discussão na Dubai Sugar Conference, um dos mais importantes eventos mundiais do setor açucareiro, realizado no início do mês. Um dos consensos é que, além de impostos cada vez mais altos sobre bebidas açucaradas e de uma crescente preocupação com a saúde, o uso de medicamentos para perda de peso é um dos fatores responsáveis pela queda no consumo da commodity no Ocidente.
A quebra da patente da semaglutida, molécula presente nas canetas emagrecedoras, prevista para 20 de março no Brasil e para este ano em outros grandes mercados, deve ampliar significativamente sua popularização.
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Mudanças provocadas por canetas emagrecedoras já impactam o varejo brasileiro
No Brasil, o mercado de GLP-1 e seus efeitos nos hábitos de consumo já foram tema de relatórios de instituições como a corretora XP Investimentos e o Itaú BBA.
Embora os impactos estejam principalmente nas exportações brasileiras de açúcar, o mercado interno também já sente os efeitos. No fim de janeiro, durante a Latin America Investment Conference, promovida pelo banco UBS, o empresário Belmiro Gomes, CEO do Assaí Atacadista, afirmou que as canetas emagrecedoras já provocam mudanças nas vendas do varejo.
“Com elas, a partir do momento em que a saciedade aumenta, é possível ver o reflexo no prato: menos quantidade de alimentos e mais procura por itens saudáveis e proteicos”, disse.
Uma característica da indústria sucroalcooleira local poderia ajudar a mitigar os prejuízos: usinas de cana do país têm a flexibilidade de, a partir de uma leitura do mercado, direcionar a safra para a produção de etanol, reduzindo a oferta de açúcar.
Frederico Favacho, sócio de agronegócios do escritório Santos Neto Advogados, alerta que, ainda assim, os produtores podem encontrar dificuldades. “É certo que à medida que o preço do açúcar cair, as usinas vão usar suas estruturas para a produção do etanol, e o aumento do volume vai derrubar o preço do combustível", diz.
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