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Oriente Médio

Conflito no Irã ameaça bilhões em exportações brasileiras de carne halal

Brasil é maior exportador mundial de carne halal, destinada a países muçulmanos
Brasil é maior exportador mundial de carne halal, destinada a países muçulmanos (Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo/Arquivo)

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Com a escalada das tensões no Oriente Médio, a pecuária brasileira enfrenta um gargalo logístico em um dos seus mercados mais estratégicos: o de carne bovina halal, que movimenta cerca de US$ 2 bilhões anuais.

Trata-se de um tipo de produção voltado especificamente a países de maioria muçulmana, por seguir rigorosas regras de abate que atendam a preceitos da lei islâmica.

O processo halal (“lícito”, em árabe) exige que o animal seja abatido por um muçulmano praticante, com a cabeça voltada para Meca, acompanhado da invocação do nome de Alá (Bismillah, Allahu Akbar).

O atendimento à prática é certificado por meio de empresas autorizadas, que realizam auditorias nas indústrias de processamento de modo a garantir padrões de saneamento, integridade, composição e rastreabilidade dos ingredientes.

De acordo com dados do relatório State of the Global Islamic Economy 2024/25, o mercado de alimentação halal já movimenta US$ 1,43 trilhão por ano, com perspectiva de chegar a US$ 1,94 trilhão em 2028.

Segundo o levantamento, o Brasil é o terceiro maior exportador de produtos para o mercado halal, com US$ 26,9 bilhões, atrás apenas de China (US$ 32,5 bilhões) e Índia (US$ 28,9 bilhões).

No setor de carne bovina, o Brasil lidera também as vendas internacionais de proteína com a certificação halal, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

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Em 2025, exportações diretas de carne bovina para a região do Oriente Médio somaram cerca de US$ 2 bilhões, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Com o início do conflito no Oriente Médio, em fevereiro, o fechamento do Estreito de Ormuz afetou diretamente o escoamento de cargas do setor.

Embora o bloqueio no estreito não seja total, ataques incendiários e ameaças de novas ofensivas a embarcações fizeram o tráfego na região cair drasticamente.

Considerando cargas que passam pela região, o volume potencialmente afetado pode chegar a US$ 6 bilhões em um ano, segundo a Abiec.

A entidade calcula que até 40% das exportações brasileiras de carne bovina podem estar expostas a impacto logístico. Companhias marítimas suspenderam novas reservas de contêineres para cargas destinadas à região ou que passam por ela, interrompendo o fluxo comercial no curto prazo.

“Há cargas de carne bovina já em trânsito aguardando definição para atracar em portos da região, diante da instabilidade logística”, diz a entidade que representa os exportadores do setor.

Segundo a Abiec, armadores estão cobrando até US$ 4 mil adicionais por contêiner, a chamada “taxa de guerra”, para cargas destinadas ou que passam pela região.

“Com a interrupção logística, indústrias podem suspender ou reduzir a produção de cortes específicos destinados a esses mercados, aguardando normalização do transporte”, acrescenta.

Ainda conforme a associação, cerca de 95% da carne exportada para a região é congelada, o que aumenta a dependência do transporte marítimo. Parte das exportações também é composta de carne refrigerada, com maior sensibilidade a atrasos logísticos e riscos caso navios fiquem parados.

Questionada pela reportagem, a entidade não respondeu sobre a possibilidade de redirecionamento de cargas e, neste caso, quais seriam os destinos alternativos.

“Se o conflito se prolongar, o setor pode enfrentar interrupção no escoamento das exportações, redução da produção industrial e impactos na cadeia pecuária”, alerta a Abiec. “A impossibilidade de embarques pode reduzir o processamento nas indústrias e gerar reflexos em toda a cadeia produtiva da carne bovina no Brasil.”

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Nos últimos anos, empresas brasileiras do setor de proteína animal têm ampliado a produção voltada ao mercado de carne halal. Segundo a Abiec, entre 2023 e 2024, o volume exportado para esse público cresceu mais de 65%, alcançando quase 20% das exportações totais brasileiras.

Em 2025, o segmento já absorvia em média 40 mil toneladas por mês, gerando mais de US$ 160 milhões mensais em faturamento.

No fim de janeiro, a JBS inaugurou uma fábrica de processamento na Arábia Saudita. A planta tem 41 mil metros quadrados e deve duplicar sua produção para 30 mil toneladas até o fim deste ano.

No ano passado, a BRF anunciou a criação da Sadia Halal, uma joint venture com a Halal Products Development Company (HPDC), para reforçar sua presença em um dos mercados mais relevantes para proteínas halal no mundo. A parceria engloba as fábricas e centros de distribuição que a empresa já possui na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, além dos centros de distribuição no Catar, Kuwait e Omã.

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