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Microbiologia

Pesquisadores brasileiros descobrem herbicida natural que pode ser superior ao glifosato

Equipe liderada pelo pesquisador Luiz Henrique Rosa, do Departamento de Microbiologia da UFMG, no Parque Estadual do Rio Doce, onde a amostra do fungo com potencial herbicida foi coletada
Equipe liderada pelo pesquisador Luiz Henrique Rosa, do Departamento de Microbiologia da UFMG, no Parque Estadual do Rio Doce, onde a amostra do fungo com potencial herbicida foi coletada (Foto: Luiz Henrique Rosa/UFMG)

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Uma equipe de pesquisadores brasileiros identificou em um fungo do gênero Fusarium uma substância com potencial herbicida e antifúngico que pode ser mais potente do que defensivos químicos comerciais.

Ainda são necessários mais estudos para se avaliar a toxicidade e a viabilidade de uso do composto na agricultura, mas testes comparativos mostraram que o efeito chega a ser mais eficiente, com menor concentração necessária, do que herbicidas como glifosato e clomazona, amplamente utilizados no campo.

O trabalho foi desenvolvido por um grupo do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde o professor Luiz Henrique Rosa trabalha com a identificação de metabólitos bioativos em fungos.

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Em 2017, a pesquisadora Raíssa Florindo, na época aluna de mestrado de Rosa, coletou uma amostra de uma planta do gênero Piper no Parque Estadual do Rio Doce, a cerca de 250 km de Belo Horizonte. Nas folhas, ela encontrou um fungo endofítico (que vive em tecidos vegetais), que foi isolado em laboratório e identificado como pertencente ao gênero Fusarium.

Fungos desse gênero são conhecidos tanto por sua capacidade de causar doenças em culturas agrícolas quanto por produzir substâncias de interesse biotecnológico. Algumas espécies do grupo são importantes produtoras de micotoxinas capazes de interferir no sistema imunológico de plantas e animais, por exemplo.

Por outro lado, pesquisas anteriores já haviam registrado ação antimicrobiana de fungos desse gênero em cafeeiros e em espécies de plantas medicinais como Dioscorea zingiberensis.

Em uma segunda etapa do estudo, a pesquisadora Débora Barreto passou a buscar substâncias específicas de interesse. “Vimos que o fungo tinha um potencial herbicida, porque ele inibia a germinação de sementes”, conta. “Então partimos para descobrir qual era o composto responsável pela atividade.”

A pesquisa foi desenvolvida em seu doutorado, também pela UFMG, e contou com a participação de pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), onde Débora fez parte de seus estudos.

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Foram isolados três metabólitos: a anidrofusarubina, a javanicina e o chamado “composto 2”, um metabólito bioativo identificado pelos pesquisadores.

Em concentrações de 1mg/mL, todos mostraram atividade fitotóxica, ou seja, adversa à germinação de sementes de plantas indesejadas. Os ensaios foram feitos com alface e grama-de-bent, modelos vegetais comumente utilizados em testes de herbicidas. Testes adicionais com lentilha-d’água, espécie frequentemente usada pela indústria de pesticidas para medir toxicidade, confirmaram o potencial.

Ensaio mostra extrato bruto do fungo Fusarium (em vermelho) inibindo a germinação de sementes de dicotiledôneaEnsaio mostra extrato bruto do fungo Fusarium (em vermelho) inibindo a germinação de sementes de dicotiledônea (Foto: Débora Barreto/UFMG)

Em ensaios antifúngicos, com o patógeno que causa a antracnose do morango (Colletotrichum fragariae), o chamado “composto 2” também se mostrou promissor, promovendo zonas de inibição mais amplas do que as de fungicidas usados como referência, como carvacrol e timol.

Composto pode ser explorado para criar herbicida alternativo ao glifosato

A descoberta das substâncias, descrita em artigo publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, amplia a gama de moléculas naturais que podem ser exploradas para o desenvolvimento de defensivos agrícolas alternativos aos pesticidas sintéticos mais utilizados.

O glifosato é hoje o herbicida mais usado no mundo e considerado essencial para a manutenção da produtividade nos patamares atuais. Mas apesar da eficácia e do baixo custo, há controvérsias em torno de seu uso, em razão de potenciais riscos a saúde humana e ao meio ambiente. Diversos países da União Europeia proíbem ou restringem fortemente o uso da substância.

Débora explica, contudo, que os resultados, embora animadores, ainda são considerados preliminares para se chegar a um produto que possa ser utilizado comercialmente.

“Em tese, há formas de se escalonar a produção dessas substâncias”, diz a pesquisadora. Uma das formas seria a utilização do próprio fungo endófito como uma biofábrica. “Podemos aprimorar e cultivar a espécie em diferentes condições para produzir apenas aquela substância, ou em maior quantidade”, explica.

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