
Ouça este conteúdo
O mercado brasileiro de carros elétricos registrou queda nos emplacamentos em setembro, apesar do alto interesse do mercado interno. Dois motivos ajudam a explicar essa contradição: logística sufocada pela demanda global e manutenção da taxa de juros elevada no país.
Os modelos Geely EX2 e BYD Dolphin concentraram a maior parte da redução mensal do segmento. Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), os emplacamentos de carros totalmente elétricos a bateria (BEVs) caíram 18,1% em setembro na comparação com agosto, de 27.166 para 22.246 unidades. Em relação a setembro de 2025, porém, houve alta de 172,3%.
Entre os modelos com maior retração, o Geely EX2 passou de 5.804 unidades em agosto para 2.724 em setembro, uma queda de 53,1%. O BYD Dolphin recuou de 6.740 para 4.132 unidades, redução de 38,7%. Juntos, os dois modelos tiveram 5.688 emplacamentos a menos, enquanto a queda total do segmento foi de 4.920 unidades. Sem eles, os demais modelos elétricos a bateria teriam registrado crescimento de 5,3% no mês.
A redução mensal não significa, necessariamente, perda de interesse pelos veículos elétricos. A Geely informou ao UOL que determinadas versões e cores do EX2 estavam em lista de reserva, com entregas previstas para começar em dezembro. Já a BYD atribuiu a espera pelo Dolphin GS a uma demanda superior à projetada e informou que um novo lote chegou ao país no fim de setembro, com expectativa de normalização das entregas a partir de outubro.
VEJA TAMBÉM:
Crédito caro segura ímpeto dos consumidores
Além da oferta e da logística, as condições de financiamento ajudam a explicar por que o interesse do consumidor não se transforma automaticamente em venda. Em agosto, a taxa média de juros das novas operações de crédito com recursos livres para aquisição de veículos por pessoas físicas era de 1,97% ao mês, de acordo com dados do Banco Central.
Para o economista Fernando Balotin, a queda dos emplacamentos evidencia a diferença entre o interesse por um produto e a capacidade de comprá-lo. “O que converte esse desejo em emplacamento real é a aprovação de crédito na ponta final”, afirma.
Na visão do economista, o preço dos veículos elétricos e o valor financiado podem tornar as parcelas incompatíveis com a renda de parte dos consumidores. “Como o ticket médio de um veículo elétrico é maior que o de um carro a combustão no grande mercado, o valor financiado exige parcelas que simplesmente não cabem na renda mensal do brasileiro”, afirma.
Segundo Balotin, os bancos aumentaram o rigor nas aprovações de crédito exigindo entradas para mitigar o risco de inadimplência. “Portanto, essa queda reflete uma asfixia financeira do comprador e um encarecimento do dinheiro, não uma rejeição ao produto elétrico”, diz.
Falta de capacidade logística pressiona entregas
As dificuldades de transporte de veículos não se restringem ao Brasil. Em entrevista publicada pelo portal neozelandês Auto Trader NZ em junho de 2026, Warren Willmot, gerente-geral da BYD na Nova Zelândia, afirmou que mais de 2 mil veículos já estavam fabricados na China, mas aguardavam transporte marítimo para chegar aos clientes. O executivo explicou que a escassez de navios com destino à Nova Zelândia prolongava as entregas em três a quatro semanas além dos prazos inicialmente previstos.
A pressão sobre a logística acompanha a expansão das exportações chinesas. Em setembro deste ano, Lasse Kristoffersen, CEO da empresa de transporte marítimo Wallenius Wilhelmsen, afirmou ao portal especializado The Loadstar que o crescimento da frota de navios transportadores de veículos havia sido absorvido pela demanda. A companhia estimou uma insuficiência global de capacidade de transporte de 2 milhões a 4 milhões de unidades equivalentes de veículos.
No Brasil, a BYD também enfrenta o desafio de ampliar a oferta. Reportagem da Agência Reuters publicada em 23 de outubro mostrou que a fabricante projeta produzir 25 mil veículos por mês até o fim de 2026, enquanto a demanda média seria de 30 mil unidades mensais. A empresa pretende ampliar a capacidade da fábrica de Camaçari, na Bahia, para chegar a 600 mil veículos por ano, sujeita às autorizações necessárias.
A expansão da produção nacional pode reduzir a dependência do transporte internacional, mas não resolve imediatamente os gargalos de oferta. A disponibilidade de veículos depende também do ritmo de fabricação, da distribuição e da capacidade de atender aos pedidos de cada modelo.
Cenário não afasta interesse por carros eletrificados
De acordo com dados do Google Trends referentes às buscas realizadas no Brasil ao longo do último ano, o cenário não afastou o interesse dos brasileiros por carros eletrificados.
A análise comparativa revela uma nítida preferência pelo termo "carros elétricos", que apresentou uma trajetória de forte crescimento no volume de pesquisas. Com um índice inicial de 40%, o interesse disparou a partir do primeiro trimestre até atingir o seu pico máximo de 100% no meio do ano, mantendo-se em um patamar elevado próximo a 75% no período mais recente.

Em contrapartida, as buscas pelo termo "carros híbridos" mantiveram-se em níveis consideravelmente mais tímidos e estáveis. Após iniciar o período próximo do nível zero, a expressão registrou apenas oscilações pontuais entre 4% e 7% do volume relativo de pesquisas ao longo dos meses.
** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.




