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O Prisioneiro da Grade de Ferro: o Carandiru visto de dentro pra fora

É curioso — e sintomático — como alguns temas permanecem sempre atuais, seja na imprensa ou no cinema. Há mais de décadas se fala em superlotação do sistema prisional no país, questão que é evidente no Paraná, onde detentos se aglomeram não só nas celas dos presídios, mas também nas carceragens das delegacias. Semana passada, a Gazeta do Povo noticiou que a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos (DFRV) de Curitiba vem fechando as portas mais cedo para garantir a segurança dos policiais de plantão — há cerca de 180 detentos guardados no local, enquanto as celas da unidade só comportam 28 presos.

Por isso, algumas produções recentes sobre o tema seguem atemporais. É o caso do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro, dirigido por Paulo Sacramento e lançado em 2003. O documentário, produção de estreia de Sacramento em longas-metragem, fornece ao espectador uma imersão no famigerado Carandiru, meses antes de parte dos pavilhões do complexo prisional serem implodidos.

Filme dirigido por Paulo Sacramento permite um mergulho único nos corredores do Carandiru.

Filme dirigido por Paulo Sacramento permite um mergulho único nos corredores do Carandiru. (Foto: Divulgação)

O filme conquistou uma série de prêmios, incluindo os de melhor documentário no festival É Tudo Verdade e no Festival de Gramado, além de outras competições internacionais. Parte do atrativo da produção vem de uma estratégia peculiar do diretor. Aproveitando um curso de filmagem que se desenrolava dentro do Carandiru, Sacramento entregou câmeras digitais para que os próprios detentos filmassem, ao longo de sete meses, suas rotinas e dessem seus depoimentos sobre a vida na prisão.

O resultado é simplesmente angustiante — e revelador. Munidos dos equipamentos, os presos mostram, por exemplo, o nascer do sol por meio da pequena janela com grades da cela. Em outro momento, filmam os grupos que se divertem cantando rap ou jogando futebol. Inserida por um buraco na porta, a câmera mostra 10 homens empilhados em um espaço pequeno onde deveriam caber dois ou três.

Fé, miséria e sobrevivência: a rotina dos detentos mostrada por eles mesmos.

Fé, miséria e sobrevivência: a rotina dos detentos mostrada por eles mesmos. (Foto: Divulgação)

Assim, seja filmando por conta ou deixando que os detentos tragam as imagens, Sacramento permite que o Carandiru e seus habitantes falem por si. Não há, no documentário, longas digressões filosóficas de especialistas ou autoridades discutindo os gargalos e problemas do sistema prisional — alguns diretores dos pavilhões falam a respeito apenas nos minutos finais do filme. Como diz o subtítulo da produção, o que vemos são “auto-retratos” dos prisioneiros e dos corredores da penitenciária. O diretor não toma partido, mas fica evidente a simpatia estampada aos detentos. Afinal, eles mostram e falam o que acham razoável mostrar e falar.

Mesmo assim, há, em O Prisioneiro da Grade de Ferro, menções a falhas evidentes que permanecem intocadas até hoje nos pequenos e grandes presídios e penitenciárias. Os detentos usam e comercializam crack e maconha sem serem importunados. Alguns portam facões improvisados, como uma maneira de se “proteger”. Em uma cela, há todo um sistema de destilação para produzir cachaça. O que se conclui das imagens, tanto as feitas pelo diretor quanto pelos detentos, é que o Carandiru era um organismo vivo, que seguia suas próprias regras, como se existisse em um mundo à parte. Agentes prisionais são seres raros nas filmagens.

Os pavilhões mostrados no documentário não existem mais. Já o cenário retratado com certeza continua presente em outros complexos prisionais, seja em São Paulo, seja no Paraná. Por isso, O Prisioneiro da Grade de Ferro continua atual e significativo. E muito mais impactante do que qualquer outra reportagem jornalística que se pretenda a mostrar o “outro lado” dos detentos.

Em tempo: o documentário de Sacramento está disponível no Netflix. Mas é possível acessar a versão na íntegra no próprio YouTube.

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