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Curitiba pode ter música popular?

Felipe Rosa / Agência de Notícias Gazeta do Povo
Foliões fazem a festa ao som do bloco pré-carnavalesco Garibaldis e Sacis

Curitiba tem fama de ser uma cidade sisuda – o senso comum nos diz que somos alemães, italianos, polacos e outras etnias brancas e limpinhas que não se metem com essa coisa de carnaval e de música popular.

Wilson Martins já chegou a escrever (Um Brasil diferente, 1978) que o Paraná não tinha negros e não tivera escravos. Este argumento é desmontado por Otávio Ianni em Escravidão e racismo (1978), e o assunto também está muito bem discutido (com remissão aos dois autores) no livro de João Carlos de Freitas: Colorado: a primeira escola de samba de Curitiba.

Outras pesquisas que recentemente começam a ser desenvolvidas pelos pesquisadores Marilia Giller, Tiago Portella, Claudio Fernandes, entre outros, (algumas coisas deles estão neste blog) apontam para a existência de uma rica música popular em Curitiba desde a primeira metade do século XX.

Este tipo de informação fica nos estudos acadêmicos, e não chega ao senso comum. Nem à propaganda oficial, que prefere divulgar Curitiba como uma cidade européia, e um polo de música erudita.

Acontece que nos últimos anos Curitiba se afastou muito da condição de cidade com vida de concertos minimamente aceitável. O que temos de significativo nesta área são pequenas iniciativas ainda incipientes, como a Bienal Música Hoje ou um evento tradicional como a Oficina de Música. Nossas orquestras estão longe da qualidade das que existem em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador – a programação de concertos ainda é muito tímida. Não temos ópera e balé há tempos. Não temos na cidade um departamento de música significativo no meio acadêmico brasileiro.

Ao contrário disso, a música popular vem consolidando um polo importante na cidade.

Por exemplo, a FAP tem um curso de Bacharelado em Música Popular que tem poucos similares no Brasil (UNICAMP, UNIRIO e UFRGS – até onde sei).

Os grupos artísticos ligados ao Conservatório de MPB (vocal Brasileirinho, vocal Brasileirão, Orquestra à Base de Cordas, Orquestra à Base de Sopros) já se estabeleceram no cenário nacional. O núcleo de Música Popular da Oficina de Música já é mais relevante nacionalmente que o de Música Erudita.

Curitiba também sediou fenômenos recentes como A banda mais bonita da cidade (sobre a qual já escrevi um comentário aqui) e tem diversos artistas jovens se destacando merecidamente no cenário da música instrumental, do choro, entre outros gêneros musicais.

O bloco pré-carnavalesco Garibaldis e Sacis pode ser considerado outro grande fenômeno nesta linha.

É por isso que o caso da violência policial impetrada no último domingo, e tão bem descrito na reportagem da Gazeta do Povo, assume contornos culturais mais dramáticos.

Sobre o aspecto da violência policial eu escrevi bastante em minha página pessoal.

Aqui eu quero chamar a atenção para o fato de que Curitiba tem optado por assumir a marca de uma cidade elitista, europeizada – o que é feito com conotações racistas e escamoteia a verdade que deve ser dita.

Curitiba é uma cidade que tem povo, sim senhor – tem festa, tem música popular. Pode e deve se orgulhar disso.

A foto que está em cima deste texto fala por si.

A questão que devemos enfrentar é: as políticas públicas e a propaganda oficial devem esconder, proibir, acabar com a música popular na cidade?

Ou seremos beneficiados em assumir esta outra faceta tão importante do jeito curitibano de ser?

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