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Nem Tarcísio Meira escapou: nove artistas da Globo investigados pela ditadura

Arquivo/Gazeta do Povo
Arquivo/Gazeta do Povo

Um pouco de história não faz mal a ninguém, principalmente agora que o assunto intervenção militar ganhou espaço nos noticiários. Alguém lembra como funcionava o serviço de espionagem da ditadura nos anos 1970?

O Serviço Nacional de Informação (SNI) mantinha fichas pessoais, os “prontuários”, de jornalistas, músicos e escritores. Havia também uma vigilância sobre atores, diretores e autores de novelas da TV Globo, entre eles Dias Gomes e Janete Clair – autores de sucessos como “Selva de Pedra”, “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”, que paravam o país nos horários nobres da tevê.

A migração de autores, diretores e atores para a televisão aconteceu após a edição do Ato Institucional nº 5, em 1968, quando a implantação da censura afetou o teatro brasileiro. Muitos deles foram chamados pelo diretor da programação da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que promovia uma reforma na teledramaturgia em busca de audiência, com temas mais realistas e atuais. A censura cortava muito do que era produzido, mas o serviço de informação mantinha a vigilância.

Entre os nomes mais consagrados estava Dias Gomes, autor da peça “O pagador de promessas”, que virou filme e conquistou a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes, em 1962. Suas novelas tinham como personagens bicheiros, políticos corruptos, retirantes nordestinos, trabalhadores sem-terra, moradores da periferia.

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Era assim descrito pelos militares: “Comunista notório e confesso, com longo prontuário na Agência do Rio de Janeiro. Demitido pelo AI-1 da Rádio Nacional, integra a base dos artistas que apoia o PCB”.

Janete Clair, mulher de Gomes, conseguiu as maiores audiências da tevê com as novelas “Irmãos Coragem” e “Selva de Pedra”. Segundo relato dos “arapongas” do SNI, a autora também integrava a base de apoio ao PCB. “Suas novelas adotam a linha da conscientização e do protesto”, diz o relatório.

Filocomunista

Autor do Teatro de Arena, Gianfrancesco Guarnieri destacou-se na Globo como ator e produtor de “Casos Especiais”. Foi descrito como filocomunista (quem revela simpatia pelo comunismo), ator, poeta e signatário de manifestos de caráter político. “Seus trabalhos são veículos de conscientização e protesto”.

Lauro César Muniz, autor de novelas como “Escalada”, assinou manifestos políticos e viajou para o país da “Cortina de Ferro” em 1968, o que o tornava suspeito naquela época. Jorge Andrade escreveu a novela “O grito”, que mostrava “as pessoas esmagadas pela megalópole, sujeitas à poluição sonora, arquitetônica, visual, ambiental”. Relatório do SNI registra que ele assinou manifestos de teor político, inclusive, “contra o caráter antidemocrático da Constituição em 1967, conclamando o povo a lutar contra o governo”.

O ator Armando Bogus, que fez sucesso como o turco Nacib, personagem da novela “Gabriela”, estrelada por Sônia Braga em 1975, também foi espionado. O serviço de informação afirmou que o ator era ligado à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), juntamente com sua mulher, Irina Grecco: “Faziam reuniões na casa em que residiam, sendo favorável ao desencadeamento de guerrilhas urbana e rural, e contra os atentados terroristas”.

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Nelson Motta, que trabalha até hoje na TV Globo, dirigia musicais e tinha coluna no jornal O Globo. “É promotor do movimento underground na música e na contracultura. Os arapongas registraram que o jornalista atacou o bispo de Diamantina, Dom Sigaud, “criticando-lhe os conceitos anticomunistas”, além de enaltecer em sua coluna os movimentos estudantis de 1968.

Fábio Sabag, diretor da novela “O Grito”, assinou manifesto de intelectuais e participou de movimentos contra a censura. Flávio Rangel, diretor de novelas, era descrito como “esquerdista contrarrevolucionário atuante”.

O acompanhamento dos “subversivos” da tevê aconteceu até o final da ditadura. Em 1981, o SNI analisou detidamente o capítulo do seriado “O Bem Amado”, de Dias Gomes, em que o personagem Odorico Paraguassu registrou em seu nome terras devolutas ocupadas por posseiros.

O texto foi assim descrito pelo SNI: “Nitidamente subversivo, pois incita à luta de classes, denota que o autor foi assessorado por clérigos da Comissão Pastoral da Terra (CPT)”. O relatório destaca os temas que ainda incomodavam os militares: grilagem de terras, expulsão violenta de posseiros, corrupção administrativa, atuação da Igreja em favor dos oprimidos, tortura, o poder da imprensa e da Igreja na mobilização popular, a luta armada como alternativa à “não violência” e o desrespeito aos direitos humanos.

Agentes da KGB

O SNI vigiava os contatos entre funcionários do sistema Globo e jornalistas soviéticos suspeitos de integrar a KGB. Os soviéticos tentavam emplacar matérias em programas jornalísticos como “Fantástico”, “Globo Repórter” e “Globo Esporte”. Diálogos registrados mostram que foram feitas escutas das conversas entre os jornalistas.

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A Informação 15/60 da Agência do SNI no Rio de Janeiro, de 31 de janeiro de 1975, tem o título “Atividades soviéticas – intercâmbio cultural”. Os agentes acompanharam os passos de Stanislav Shuvanov, representante do Soveksportfilms no Brasil.

Os “arapongas” apontaram um ato suspeito: o soviético convidou o ator Tarcísio Meira para a inauguração do Festival de Cinema Moderno Soviético, na Cinemateca do MAM, em 20 de janeiro. O ator compareceu ao museu na data marcada e declarou ter passado quatro dias em Moscou. Disse que não levou o filme “O marginal” porque os rolos pesavam 50 quilos e a bagagem ficaria muito cara.

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