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O mínimo em que um cristão precisa acreditar sobre a criação

A história de Adão e Eva, pintada por Lucas Cranach:
A história de Adão e Eva, pintada por Lucas Cranach: ainda que a existência real do primeiro casal seja considerada essencial para a crença cristã, ainda é preciso estabelecer como ela se insere no relato científico sobre o surgimento dos Homo sapiens. (Imagem: Reprodução)

Anteontem, o site da rede de denominações protestantes The Gospel Coalition colocou no ar um vídeo bem interessante, em que três líderes do grupo – Tim Keller (fundador da Igreja Presbiteriana do Redentor e vice-presidente da TGC), Russell Moore (presidente da Comissão de Ética e Liberdade Religiosa e conselheiro do TGC) e Ligon Duncan (CEO e chanceler do Seminário Teológico Reformado e conselheiro do TGC) – discutem duas questões sobre o “denominador comum” entre qualquer cristão quando o tema é a criação narrada no Gênesis: como um cristão apresentaria esse “mínimo” a um não cristão? E como apresentá-lo dentro das comunidades cristãs?

Confira a conversa entre os três (o vídeo não diz, mas Keller é o careca de óculos, Duncan é o de gravata vermelha e Moore é o de paletó bege):

Reparem que o essencial a respeito da criação não tem nada a ver com a idade da Terra, nem com o significado dos “dias” do relato do Gênesis, nem com o grau em que a evolução pode ser entendida como o modo usado por Deus para criar. Eu só discordo de Keller quando ele fala de haver visões diferentes sobre a idade da Terra, ou do universo. Isso não é questão de debate teológico, está estabelecido pela ciência. Já os outros dois pontos, sim, estão sujeitos a discussão (não a evolução em si, mas como Deus a usa para criar).

Básico, básico mesmo é o seguinte: o relato do Gênesis não é uma aula de ciência, mas um texto sobre o relacionamento entre o Criador e a criação. Ele nos mostra que há um Deus pessoal, transcendente, que existiu “antes” do universo (“antes” é modo de dizer, claro) e o criou do nada (ex nihilo) como uma obra de arte. O mundo, assim, não é um acidente, não é resultado de um choque de forças, mas vem da bondade de Deus.

A coisa esquenta um pouco quando entra em jogo um tema que os três consideram essencial no intramuros: a existência real de Adão e Eva. Parece-me que os três defendem a literalidade do primeiro casal (como, aliás, a Igreja Católica também defende), argumentando inclusive que sem isso não há como entender a doutrina paulina da salvação, especialmente explicada em Romanos 5. Até aí, tudo bem. Mas Keller vai além: se entendi bem, ele rejeita a ideia de que Deus tenha escolhido um primeiro casal, dentro de um grupo mais amplo de hominídeos suficientemente evoluídos, para estabelecer com ele um relacionamento especial, infundindo-lhe a alma imortal e dando origem ao ser humano; para Keller, houve uma criação física, especial, de Adão e Eva.

Eu não chegaria a tanto; mas, então, como conciliar a crença em um primeiro casal real com as descobertas científicas sobre as primeiras comunidades de hominídeos? Acho que esse é um dos casos em que, como diz Moore, temos de responder um “eu não sei”. Há várias hipóteses teológicas, e já apresentei algumas aqui no blog. Até concordo que a existência do primeiro casal faça parte do básico, do essencial, do não negociável, mas como isso se deu, e como inserir essa ideia dentro do que está estabelecido pela ciência é um trabalho que ainda está em andamento.

Pequeno merchan

Além de editor e blogueiro na Gazeta do Povo, também sou colunista de ciência e fé na revista católica O Mensageiro de Santo Antônio desde 2010. A editora vinculada à revista lançou o livro Bíblia e Natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé, uma compilação que reúne boa parte das colunas escritas por mim e por meus colegas Alexandre Zabot, Daniel Marques e Luan Galani ao longo de seis anos, tratando de temas como evolução, história, bioética, física e astronomia. O livro está disponível na loja on-line do Mensageiro.

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