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Tremper Longman: “O relato da criação é totalmente compatível com a evolução”

A criação do homem e da mulher no tríptico
A criação do homem e da mulher no tríptico "O jardim das delícias terrenas", de Bosch: a Bíblia nos diz que Deus criou o homem, mas não diz a forma exata como fomos criados. (Imagem: Reprodução)

Até que ponto é boa estratégia tentar convencer um criacionista sobre as evidências que corroboram a Teoria da Evolução? Para Tremper Longman III, especialista em Antigo Testamento, isso ajuda pouco. Ele parte da experiência de pessoas que conhecem essas evidências e até as consideram muito fortes, mas que sentem que a Bíblia diz o contrário e se veem forçados a escolher. Longman, que conversou com o Tubo de Ensaio num dos intervalos da 2.ª conferência nacional da Associação Brasileira dos Cristãos na Ciência, em novembro passado, afirma que o mais importante é, primeiro, mostrar que o relato bíblico e a evolução são compatíveis, e só depois partir para a evidência científica. Isso inclui mostrar o que o Gênesis realmente quer ensinar nos relatos da criação, e recuperar o ensinamento dos Padres da Igreja, cuja interpretação era bem mais consistente que algumas outras que vemos hoje.

Pouco mais de um século atrás, as pessoas que escreveram a série The Fundamentals não tinham problema algum com a evolução. A reação a Darwin dentro do protestantismo não era hostil. Como é que em apenas algumas décadas saímos daquilo para a bagunça que vemos hoje?

Em algum ponto da virada do século 20 houve a ascensão de alguns grupos dentro do protestantismo evangélico: o dos dispensacionalistas e o dos adventistas do sétimo dia. Ambos tinham uma abordagem muito literal da Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, e isso inclui, claro, os relatos da criação. Não sei por que eles conquistaram essa popularidade toda, mas houve um momento em que eles realmente se tornaram mais fortes dentro da comunidade evangélica, nos anos que se seguiram à publicação dos Fundamentals. De fato, naquela publicação existem três artigos sobre ciência, e dois eram favoráveis à evolução. B.B. Warfield, que era um renomado professor conservador presbiteriano, que lecionou no Seminário Teológico de Princeton no fim do século 19, não tinha problemas com a noção da evolução.

Não sou historiador da religião, mas imagino que na cultura da época já havia alguma semente do que vemos hoje. Não estudei exatamente, por exemplo, o que levou ao Julgamento Scopes, que é um marco cultural. Mas sei que mais recentemente, nos anos 50 e 60, gente como Henry Morris e Duane Gish estavam publicando muita coisa em defesa da ideia de que Gênesis 1 a 11 era uma descrição totalmente literal e explícita de eventos reais. Eles também se tornaram muito populares. E aquela era uma época de grande inquietação social, e isso pode ter sido uma reação a políticas mais “progressistas”. Podemos ver isso nos Estados Unidos de hoje, em que protestantes conservadores que temem esse “progressismo” na política e na teologia deixam o pêndulo oscilar até o outro extremo e adotam visões extremamente conservadoras.

Os Padres da Igreja antiga, como Santo Agostinho e Orígenes, já alertavam os cristãos sobre o perigo de ler a Bíblia e os relatos do Gênesis de forma totalmente literal. A tradição protestante, ou parte dela, abandonou os Padres? Como resgatar a contribuição deles?

A maioria dos cristãos nem pensa muito sobre esses assuntos, mas entre os líderes cristãos tem havido uma redescoberta de ensinamentos dos Padres – ou pelo menos daqueles que confirmam o que esses líderes já pensam sobre certos temas (risos). Santo Agostinho, em especial, é muito respeitado por vários protestantes, em parte porque ele foi uma forte influência no pensamento de Calvino.

Sim, eu espero que as pessoas olhem para os Padres da Igreja e entendam que eles liam os primeiros capítulos do Gênesis de uma forma que eu considero ser bem mais próxima à intenção do autor original, em comparação com a forma como lemos esses trechos hoje.

Se mostrar a evidência científica da evolução não é suficiente para convencer os criacionistas, qual é a melhor forma de lidar com eles?

É muito importante mostrar aos cristãos que a Bíblia é compatível com a evolução, e isso antes mesmo de mostrar os argumentos científicos. Na minha palestra falei de um biólogo cristão que conhece muito bem as evidências. Ele é biólogo, sabe que as provas são avassaladoras. Mas ele também entende que a Bíblia o obriga a rejeitar as evidências, mesmo que elas estejam lá. Eu adoraria dizer a ele que ele não está lendo a Escritura direito. A melhor forma de convencer protestantes conservadores a não rejeitar a evolução é mostrar a eles que ela não está em contradição com a Bíblia.

Tremper Longman III, autor de Como ler Gênesis

Para Tremper Longman, o relato da criação não foi escrito para ser contraponto às teorias científicas modernas, mas à mitologia dos povos do Oriente Médio que cercavam os hebreus. (Foto: Adriano Fros/Divulgação/ABC2)

Sua palestra mencionou de passagem o caso Galileu, que também envolvia uma leitura literal de partes da Bíblia em uma época na qual havia um certo medo de que a autoridade da Escritura fosse enfraquecida pelas teorias científicas. Mas no fim a evidência era tão forte que hoje todos a aceitam; mesmo um criacionista que lê o Gênesis literalmente não faz o mesmo com as passagens bíblicas sobre o movimento do Sol ou outros astros. Podemos ter esperança de que o mesmo se repita com a evolução?

Há muitos paralelos entre os dois casos, e eu acredito que, à medida que mais evidências apareçam, ou que as já existentes sejam melhor divulgadas para o público, os cristãos entenderão que a evolução é uma das teorias cujas provas são mais fortes. Hoje muita gente se refugia na alegação de que ela “é apenas uma teoria”, então não precisa ser levada a sério. Pensar assim é não entender o que é uma teoria científica. Há teorias com mais ou com menos evidências. Francis Collins, um bom cristão que também foi chefe do Projeto Genoma Humano, diz que há mais evidências para a evolução que para a gravidade.

Mas, apesar das similaridades entre o caso Galileu e a evolução, também há alguns fatores que me fazem pensar que levará mais tempo para que a evolução seja aceita sem ressalvas: ela nos força a repensar várias posições teológicas que vão muito além de como os astros estão ordenados no céu. Mas o que eu tento explicar nas minhas palestras e nos meus textos é que não existe nenhuma doutrina realmente importante que seja negada quando se aceita a evolução, com todas as suas consequências, incluindo o fato de que o Homo sapiens não descende de um único casal, mas de uma população inicial de 5 mil a 10 mil indivíduos.

Então há mais coisas em jogo na evolução que no heliocentrismo.

Aparentemente, sim. Doutrinas sobre a criação da humanidade, a noção de uma Queda histórica, do pecado original. Algumas pessoas acham que, se a evolução for verdadeira, então não houve Queda como descrita em Gênesis 3, e a ideia de pecado original perderia importância. Mas isso está errado. Em breve sairá um novo livro meu, chamado Confronting Old Testament Controversies: Pressing Questions about Evolution, Sexuality, History, and Violence, em que trato dessas questões com mais detalhes, mostrando, por exemplo, como é possível que, mesmo aceitando a Teoria da Evolução, tenha havido a Queda como evento histórico e como existe, sim, o pecado original.

"A criação de Eva", gravura de Gustave Doré

“A criação de Eva”, gravura de Gustave Doré: o relato bíblico não é incompatível com a Teoria da Evolução; basta saber interpretá-lo bem. (Imagem: Reprodução)

Na sua opinião, o termo “inerrância”, aplicado à Bíblia, é pobre e pode levar a mal-entendidos. Qual seria a melhor palavra para se referir a essa característica da Escritura?

“Inerrância” é uma palavra bem moderna, e se refere à noção de uma proposição ser ou falsa, ou verdadeira. A Bíblia é bem mais que isso. Pense no Cântico dos Cânticos. Um “poema de amor inerrante” é algo bem esquisito.

O que nós queremos dizer é que a Bíblia é verdadeira em tudo o que ela pretende nos ensinar, o que é a definição de “inerrância” da Declaração de Chicago, mas uma palavra melhor seria, talvez, “infalível”. Ou, então, deveríamos apenas dizer que Deus fala conosco pela Bíblia, pela colaboração de autores humanos, e que o que Ele diz é, vamos repetir, verdadeiro em tudo o que pretende nos ensinar.

Em resumo, sobre o que é, no fim das contas, o relato da criação no Gênesis?

O ensinamento mais importante de Gênesis 1 e 2 é o de que Deus criou tudo, incluindo os seres humanos. A Bíblia não explica como Ele nos criou, mas diz que Ele nos criou. Isso nos fala sobre a natureza divina, que Deus é nosso criador e nós somos criaturas. O relato também descreve Deus como, ao mesmo tempo, transcendente, “acima” ou “fora” da criação, e imanente, envolvido na criação. Isso é muito significativo quando se considera que nas outras tradições do Oriente Médio os deuses não eram transcendentes e imanentes. A Bíblia diz que Javé é o único Deus, o que também é algo único na região, na época em que o relato foi escrito, porque todos os outros sistemas religiosos eram politeístas.

Então, aprendemos muito sobre quem Deus é, e sobre quem nós somos. Na descrição da criação do primeiro homem, formado do pó da terra e que recebe o sopro da vida, vemos que somos criaturas, mas temos um relacionamento especial com Deus, o que também aparece no fato de sermos feitos à Sua imagem e semelhança. Apenas esses pontos já configuram um ensinamento riquíssimo, não precisamos ficar buscando afirmações científicas no relato.

Pequeno merchan

Além de editor e blogueiro na Gazeta do Povo, também fui colunista de ciência e fé na revista católica O Mensageiro de Santo Antônio entre 2010 e 2017. A editora vinculada à revista publicou o livro Bíblia e Natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé, uma compilação que reúne boa parte das colunas escritas por mim e por meus colegas Alexandre Zabot, Daniel Marques e Luan Galani ao longo de seis anos, tratando de temas como evolução, história, bioética, física e astronomia. O livro está disponível na loja on-line do Mensageiro.

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