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Maior oferta no hortifruti

Como a atemoia destronou a fruta-do-conde e ganha espaço no mercado brasileiro

A atemoia é um híbrido, resultado do cruzamento entre a pinha e a cherimoia, fruta da mesma família, de origem andina, adaptada a regiões de altitude e clima mais ameno e pouco vista no mercado brasileiro.
A atemoia é um híbrido, resultado do cruzamento entre a pinha e a cherimoia, fruta da mesma família, de origem andina, adaptada a regiões de altitude e clima mais ameno e pouco vista no mercado brasileiro. (Foto: Adobe Stock)

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Atemoia. O nome ainda provoca alguma estranheza porque, na aparência, a fruta lembra muito a fruta-do-conde, ou pinha. Seria apenas a mesma fruta com outro nome? Não exatamente. A atemoia é um híbrido, resultado do cruzamento entre a pinha e a cherimoia, fruta da mesma família, de origem andina, adaptada a regiões de altitude e clima mais ameno e pouco vista no mercado brasileiro.

O nome nasceu dessa mistura. “Ate” vem de um antigo termo associado à pinha, enquanto “moia” vem de cherimoia. Os primeiros experimentos com a fruta são atribuídos ao horticultor sueco-americano Peter Jansen Wester, no laboratório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em Miami, em 1908. A ideia era unir o sabor e a resistência ao frio da cherimoia à produtividade e à adaptação ao calor da pinha.

No Brasil, a atemoia chegou aos pomares na década de 1960 e encontrou um caminho menos difícil porque a pinha já fazia parte da memória alimentar de muitas regiões. A espécie não é originalmente brasileira, mas sua introdução no país é associada ao Conde de Miranda, na Bahia, ainda no século XVII, origem do nome fruta-do-conde em parte do Brasil. A atemoia ganhou presença nas últimas décadas justamente por parecer familiar sem ser igual.

A diferença fica mais clara quando se olha a fruta de perto. Na pinha, os gomos são mais salientes e chegam a se abrir quando ela amadurece. A atemoia tem superfície mais uniforme, formato mais próximo de um coração e costuma ser maior e mais pesada. A polpa também muda: é mais firme, não se desfaz com tanta facilidade, tem menos sementes proporcionalmente e combina doçura com uma leve acidez.

Para quem vende, porém, o interesse não se limita ao paladar. A fruta resiste melhor ao transporte, permanece em condição de venda por mais tempo e reduz um risco conhecido de qualquer hortifruti: fruta que se perde antes de ser comprada vira prejuízo.

A fruta da qual o mercado aprendeu a gostar

Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, a Ceagesp, a atemoia vem mantendo volume relevante no atacado paulistano e teve em 2025 um dos melhores resultados da série recente. Segundo o chefe da Seção de Economia e Desenvolvimento do órgão, Thiago de Oliveira, a comercialização na capital paulista ficou em média em 2.929 toneladas por ano na última década. No ano passado, chegou a 3.281 toneladas.

A atemoia não substitui a pinha, mas aproveita um período em que a fruta-do-conde perde força no mercado. Um levantamento histórico do Instituto de Economia Agrícola, com base na Ceagesp, indicava maior oferta da pinha entre fevereiro e maio, enquanto a atemoia se concentrava entre maio e agosto. A diferença ajuda a entender por que as duas convivem no comércio sem ocupar exatamente o mesmo lugar.

Esse intervalo de venda acompanha o próprio comportamento da produção. De acordo com o engenheiro agrônomo Edson Tadashi Savazaki, especialista agropecuário da Casa da Agricultura de Guaiçara, unidade ligada à Diretoria de Assistência Técnica Integral, a Cati, a produção paulista pode começar entre fevereiro e março nas áreas mais quentes e seguir até outubro nas regiões mais frias.

A fruta consegue permanecer por mais tempo no hortifruti porque não depende de uma única região produtora, de uma safra concentrada em poucas semanas ou de uma única variedade. Na Ceagesp, o preço também mostra que a atemoia ocupa uma faixa intermediária.

A fruta está mais perto das premium do que das populares, mas sem aparecer como produto de luxo. Em 2025, o preço médio foi de R$ 9,10 por quilo, próximo ao da maçã e ao da própria pinha.

Em Curitiba, a comparação com a pinha chama atenção primeiro pelo preço. Na unidade das Centrais de Abastecimento do Paraná, a Ceasa Paraná, a atemoia teve preço médio de R$ 8,86 por quilo em 2025, contra R$ 17,20 da fruta-do-conde. O volume também avançou com força: passou de 245 toneladas em 2021 para 479 toneladas em 2025. Em quatro anos, praticamente dobrou.

Engenheiro agrônomo da Ceasa Paraná, Felipe Nascimento dos Santos aponta São Paulo como a principal origem da atemoia que chega ao atacado curitibano, com mais de 70% do volume. O Paraná aparece em seguida entre as origens registradas pela central, indicando presença de produção local nesse abastecimento, embora ainda distante do peso paulista.

Mapa da atemoia no Brasil

A produção brasileira de atemoia se concentra sobretudo no Sudeste, com São Paulo como uma das principais referências técnicas e produtivas. Segundo a Cati, há polos em regiões como Jarinu, Atibaia, Itatiba, Pilar do Sul, Itapetininga, Paranapanema e Catanduva.

Minas Gerais também tem peso importante, e a força do estado aparece no abastecimento da própria Ceagesp. Em 2025, os municípios mineiros de Turvolândia e Jaíba foram os que mais forneceram atemoia ao atacado paulista. Na sequência, vieram cidades de São Paulo como Pilar do Sul, Paranapanema, Jarinu e Atibaia.

A combinação entre áreas mais quentes, como o noroeste paulista e regiões produtoras de Minas Gerais, e áreas de clima mais ameno, como Jarinu, Atibaia, Pilar do Sul e Paranapanema, ajuda a distribuir a produção ao longo do ano. As variedades plantadas também contribuem para essa oferta mais espaçada.

Entre as mais presentes no Brasil, a Gefner tem origem israelense, casca mais fina e gomos mais destacados, com maior proporção de polpa, mas também mais sensível ao escurecimento quando a fruta se machuca. A Thompson, de origem norte-americana, tem casca mais grossa, superfície mais lisa e resiste melhor ao manuseio e ao transporte.

O avanço do cultivo da atemoia no Brasil também passou pela tecnologia. O engenheiro agrônomo Anderson Watanabe, do Serviço de Produção de Mudas da Cati Sementes e Mudas, explica que o uso de plantas enxertadas ajudou a tornar a produção mais segura.

Em vez de depender apenas de sementes, que podem gerar plantas irregulares, o produtor usa uma base mais adaptada para sustentar a variedade que dará o fruto desejado. Nesse processo, o araticum ganhou espaço como porta-enxerto.

O araticum é uma planta da mesma família da atemoia, usada para formar raízes mais adequadas às condições brasileiras. O trabalho desenvolvido em São Bento do Sapucaí, onde a Cati mantém uma unidade de produção de mudas, contribuiu para plantas mais uniformes e pomares menos sujeitos a falhas.

Um comunicado técnico da Embrapa, publicado em 2001, já registrava cultivo de atemoia em São Paulo, norte do Paraná, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, com introdução inicial nos dois primeiros. O documento também relatava experimentos no Submédio São Francisco, no Nordeste, sinal de que a fruta já era vista como alternativa para o mercado interno em diferentes regiões do país.

Exportação ainda é tímida

Dados da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados, a Abrafrutas, mostram que o grupo em que a atemoia está inserida também aparece nas estatísticas brasileiras de exportação. O dado não isola apenas a fruta, mas reúne anonas e outras frutas do gênero Annona, do qual fazem parte a pinha, a graviola e frutas semelhantes.

Em 2025, essas exportações somaram US$ 4,46 milhões, com 1.297 toneladas embarcadas. O Canadá foi o principal destino, seguido por Reino Unido, Estados Unidos, França e Alemanha. De janeiro a maio de 2026, foram US$ 1,55 milhão e 410 toneladas.

Ainda é pouco perto da força do consumo interno, mas mostra que as anonáceas brasileiras já começam a aparecer também fora do país.

O que a fruta entrega além da curiosidade

A atemoia também entrou no radar de quem busca benefícios para a saúde. Segundo a nutricionista Adriane Tondinelli, da Ceasa Paraná, a fruta tem vitamina C, potássio, compostos antioxidantes e carboidratos. A cada 100 gramas, são 25,3 gramas de carboidratos, 97 calorias, 2,1 gramas de fibras e 10,1 miligramas de vitamina C.

A fruta pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, mas a quantidade consumida importa, já que o consumo frequente ou em grande quantidade pode levar a picos glicêmicos. Para quem busca reduzir calorias ou precisa controlar a glicemia, a atemoia precisa entrar na conta do dia.

Outra observação importante é que as sementes não devem ser ingeridas nem mastigadas. Assim como ocorre em outras frutas do gênero Annona, elas têm compostos que podem fazer mal ao organismo e devem ficar fora do consumo.

Se numa dieta equilibrada a atemoia pede controle, no hortifruti brasileiro o movimento tem sido de crescimento. Aos poucos, a fruta de nome estranho deixa de ser apenas uma curiosidade e passa a figurar entre os itens que vão para a sacola.

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