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Em uma iniciativa para tentar conter o avanço do crime organizado transnacional na América do Sul, a Interpol escolheu o Brasil para liderar uma força-tarefa regional inédita, integrada por polícias e órgãos de segurança de todos os países da região, a ser sediada em Buenos Aires, na Argentina. A parceria mira a aliança cada vez mais orgânica entre as facções criminosas brasileiras e os cartéis produtores de drogas colombianos e andinos.
A assinatura oficial dos trabalhos ocorreu na última semana no Ministério da Justiça e Segurança Pública, em Brasília. A força-tarefa, que será financiada e coordenada pelo Brasil, surge como a tentativa de coordenação estruturada mais ambiciosa já colocada em prática na região para combater o fortalecimento dos grupos criminosos e suas parcerias transnacionais, com rotas de tráfico de drogas que conectam os países produtores ao mercado consumidor europeu, asiático e africano, utilizando o território brasileiro como principal corredor logístico para exportação das drogas, principalmente a cocaína.
O grupo ficará sediado em Buenos Aires pois na capital argentina já existe um escritório regional ativo e estruturado da Interpol. Apesar disso, toda a coordenação da nova força-tarefa fica a cargo da Polícia Federal (PF) brasileira.
O governo federal também financiará o primeiro ano da iniciativa com um orçamento previsto de R$ 11 milhões. No lançamento do projeto, o ministro da Justiça, Wellington Silva, destacou que a iniciativa é uma expansão do modelo das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco), que no Brasil reúnem policiais federais, rodoviários, militares e civis para operações de longo prazo.
A proposta agora é transpor esse modelo para uma cooperação policial internacional direta. "O crime organizado não respeita soberanias”, afirmou o ministro durante a cerimônia de criação da força-tarefa. "Ele opera em rede. Se não criarmos uma rede policial mais ágil que a rede criminosa, estaremos sempre um passo atrás", disse. Um fator decisivo para a viabilização deste projeto é a atual liderança da Interpol.
Brasileiro chefia Interpol pela primeira vez
Pela primeira vez na história, a organização é chefiada por um brasileiro, o delegado da PF Valdecy Urquiza. Sua gestão tem focado em descentralizar as ações da Interpol, com foco no "sul global", onde o tráfico de drogas e armas alimenta índices alarmantes de violência urbana.
Segundo Urquiza, a força-tarefa atuará com policiais selecionados de todos os países sul-americanos. Em março serão selecionados os agentes de cada país, e em maio começam as operações de campo e inteligência.
“Após diversas conversas com a área técnica do ministério, chegamos a esse modelo que permitirá uma atuação coordenada com os países da América Latina, principalmente, com foco no enfrentamento ao crime organizado transnacional, especialmente o tráfico de drogas”, disse o secretário-geral da Interpol.
De acordo com ele, a força-tarefa terá acesso direto ao banco de dados mundial da entidade, o que deve facilitar o trabalho de inteligência. Policiais paraguaios, brasileiros e colombianos, por exemplo, trabalharão lado a lado em Buenos Aires, cruzando informações biométricas, registros de apreensões e dados financeiros em tempo real.
"Eles vão ser capazes de identificar a presença de ativos dessas organizações e dali gerar inteligência para novas operações criminais. É um modelo que vai garantir um volume de operações conjuntas muito maior do que o que tem hoje", explica Urquiza.
"Esses policiais vão usar bases de dados de seus respectivos países, e da Interpol, para conduzir investigações e, com base nelas, realizar operações internacionais que levem à prisão de lideranças do crime organizado que atuam na região e à apreensão de bens desses criminosos”, declarou Urquiza na assinatura do acordo.
Combate à lavagem de dinheiro internacional é o foco da força-tarefa da Interpol na América do Sul
Embora as grandes apreensões de cocaína em portos como o de Santos façam parte do escopo da força-tarefa, o foco é na lavagem de dinheiro internacional. O objetivo principal é congelar bens, sequestrar contas bancárias e desmantelar redes de lavagem de dinheiro das organizações criminosas.
Outro foco da força-tarefa é a localização de lideranças criminosas que vivem em países vizinhos, com identidades falsas ou reais. Também entram na mira do grupo o tráfico de armas e o crescente crime ambiental na Amazônia, que se tornou uma fonte de renda subsidiária para facções criminosas.
Apesar do entusiasmo das autoridades, especialistas em segurança pública apontam desafios. O primeiro é a disparidade de recursos entre as polícias da região e a instabilidade política de alguns países vizinhos, que pode dificultar o compartilhamento de informações sensíveis.
No entanto, o secretário-geral da Interpol acredita que o retorno sobre esse investimento virá na forma de redução da violência interna. "Ao atacar a estrutura transnacional na origem e nas rotas de trânsito, reduzimos o poder de fogo dessas facções dentro das nossas cidades", afirma Valdecy Urquiza.
Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2025 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a produção global de cocaína atingiu um patamar histórico de 3.708 toneladas, um salto de 34% em relação aos anos anteriores. No Brasil, o Aeroporto de Guarulhos, por exemplo, encerrou o último ano com o recorde de 4 toneladas de drogas apreendidas e 820 prisões.
Destas, 451 foram por tráfico internacional, segundo balanço da Polícia Federal. No Porto de Santos, apenas uma operação em junho de 2025 interceptou 1,5 tonelada de cocaína camuflada em cargas de exportação de papel, a maior apreensão no local em quatro anos.











