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"Banho de sol"

Carcereiro conta em livro os bastidores dos 580 dias de prisão de Lula em Curitiba

Livro reúne relatos de agente da PF sobre a rotina de Lula durante os 580 dias de prisão em Curitiba.
Livro reúne relatos de agente da PF sobre a rotina de Lula durante os 580 dias de prisão em Curitiba. (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)

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A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à cela em que ficaria preso na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba, em abril de 2018, marcou o início de uma rotina de vigilância, isolamento e conversas sobre política. Os bastidores desse período, que durou 580 dias, estão reunidos no livro "Banho de sol: os 580 dias da prisão de Lula", escrito pelo agente policial Jorge Chastalo Filho.

Publicado pela editora WMF Martins Fontes, o livro tem 592 páginas e apresenta os acontecimentos em ordem cronológica, com registros feitos durante o período em que Chastalo Filho acompanhou a custódia do então ex-presidente. O relato começa antes mesmo da chegada de Lula à sede da PF e percorre desde os preparativos para recebê-lo até os episódios da convivência diária entre eles.

A publicação relembra que a transferência exigiu três dias de planejamento e a elaboração de quatro planos para organizar a operação. Mesmo com a preparação, a possibilidade de prisão ainda parecia distante para os policiais envolvidos.

“Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso”, escreve Chastalo Filho. A segurança também envolvia acompanhar drones que sobrevoavam o prédio em busca de imagens e administrar a presença da imprensa. O contato com os veículos de comunicação, segundo o agente, proporcionou uma “primeira experiência desagradável”.

“Joguem o lixo pela janela”: rádio registra ataques a Lula durante voo de helicóptero

No deslocamento de helicóptero entre o aeroporto internacional Afonso Pena, localizado em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, e a sede da Polícia Federal, a comitiva enfrentou manifestações hostis, na avaliação do agente. Durante os 15 minutos de voo, frequências de rádio registraram frases como “joguem esse lixo pela janela” e “não o soltem nunca mais”.

O piloto reagiu às manifestações e pediu respeito ao trabalho da equipe. “Peço que respeitem meu trabalho e se limitem a falar na fonia somente o essencial”, advertiu. Em seguida, o controle de tráfego aéreo do aeroporto do Bacacheri, também em Curitiba, reforçou que as comunicações eram gravadas e poderiam ser utilizadas contra os responsáveis pelas ofensas.

O primeiro contato com o espaço reservado à custódia aparece entre as passagens. Chastalo Filho descreve Lula chegando à cela em silêncio e abatido ao ingressar nas instalações. A cela tinha uma cama de solteiro, uma mesa quadrada de alumínio, uma cadeira e um armário antigo. As duas janelas eram protegidas por grades e correntes que permitiam uma abertura de dez centímetros.

Agente da PF temia comida envenenada para Lula

A primeira oportunidade de Lula usufruir ao ar livre ocorreu no quarto dia de prisão. A área destinada ao banho de sol não tinha aberturas laterais e era cercada por paredes de dois metros.

Antes, o espaço servia para reuniões e como local para fumantes. Ao conhecê-lo, Lula demonstrou insatisfação e comparou o ambiente a uma jaula.

A rotina de contato entre o agente e Lula criou uma relação de proximidade entre os dois. O então ex-presidente preso passou a chamar Chastalo Filho de “querido” e fazia brincadeiras sobre o cabelo do policial. Os relatos diários mantidos por ele também registram cuidados adotados pelo agente com a alimentação do custodiado.

No segundo dia, Chastalo decidiu encomendar comida em um restaurante da região. A iniciativa não estava relacionada à qualidade das refeições fornecidas pela PF, diz ele, e sim à preocupação com a segurança dos alimentos. “Não pela qualidade da comida da PF, mas por cuidado mesmo. Imaginei a possibilidade de alguém querer envenenar sua comida”, relata.

Livro registra conversas sobre política e Lava Jato

Entre os pedidos feitos por Lula durante a detenção estava uma bola de futebol para brincar com o neto Arthur, então com sete anos. Nas visitas familiares, os dois também costumavam desenhar em folhas de papel. A criança morreu em abril de 2019, e o ex-presidente recebeu autorização para comparecer ao sepultamento.

Outra ocasião em que Lula deixou a sede da PF foi para depoimento ao então juiz Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba. A solicitação para acompanhar o velório do irmão Vavá havia sido negada sob a justificativa de falta de tempo hábil.

Os assuntos políticos ocupavam boa parte dos diálogos entre Lula e o agente, inclusive sobre o andamento da operação Lava Jato. Ao registrar os encontros, Chastalo Filho observa que as conversas “quase sempre foram sobre política” e que “são poucas as confissões que guardei”.

Editora esperou término do período eleitoral para o lançamento

O processo editorial envolveu a organização dos relatos e adaptação do texto para o público geral. O jornalista Juca Kfouri participou da articulação do projeto depois de conhecer Chastalo Filho em uma visita a Lula, em abril de 2019. Posteriormente, entrevistou o agente para a TVT, veículo ligado a sindicatos paulistas, ao lado de José Trajano.

A edição ficou sob responsabilidade do jornalista Lino Bocchini, que destacou o fato de Chastalo Filho ter começado a escrever antes da chegada do ex-presidente à cela. A editora WMF Martins Fontes decidiu adiar o lançamento até o encerramento do processo eleitoral. A intenção, segundo a publicação, era evitar que o conteúdo fosse utilizado como “peça política ou instrumento de campanha”.

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