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"Passando para comunicar a todos os componentes de torcidas organizadas que brigas de torcidas estão totalmente brecadas dentro do estado!”, afirma uma das mensagens que começaram a circular em grupos de aplicativos de mensagens no Ceará no início desta semana. As mensagens são atribuídas a lideranças de uma das maiores facções criminosas do país e hegemônica no estado.
"Já que não sabem curtir sem trazer problemas para a organização e sem trazer o sistema para dentro da quebrada e ainda por cima lotando as cadeias! Todos vão pagar por uns! Essa ordem começa no dia 9/2/2026 e não tem data para acabar! A todos os líderes, comuniquem seus componentes e andem em cima da linha, pois quem desacreditar será severamente cobrado. Assinado: Comando Vermelho do Ceará”, termina o recado virtual.
Seria curioso se não fosse trágico e revelasse mais um sintoma da falência do Estado de Direito brasileiro frente à expansão sem freios do crime organizado pelo país: após o caos com batalhas campais espalhadas por diversas regiões de Fortaleza entre torcidas organizadas antes do empate sem gols entre Ceará e Fortaleza no domingo (8), pelo Campeonato Cearense de futebol, o Ministério Público do Ceará investiga se o Comando Vermelho baixou um “salve” (ou ordem) para tentar controlar a violência relacionada ao futebol no estado nordestino.
Outro “salve” traz ainda a determinação para o fechamento das sedes e lojas oficiais das quatro torcidas.
Os confrontos estariam ficando cada vez mais agressivos, generalizados e fora de controle, trazendo confusão para dentro das comunidades dominadas pela facção criminosa e atraindo a atenção da polícia, o que é considerado como prejuízo aos negócios do grupo.
Cenas de selvageria tomaram conta das ruas de Fortaleza
Antes da bola rolar no “Clássico Rei” no último domingo, cenas de selvageria tomaram conta das ruas de pelo menos quatro bairros diferentes da capital cearense e no entorno do estádio do Castelão. Os torcedores rivais se atacaram com socos, pedras e pedaços de madeira.
As ocorrências incluíram emboscadas e agressões, com imagens circulando nas redes sociais mostrando cenas de violência extrema, como um homem sendo atacado por um grupo enquanto estava no chão, além do uso de bombas de efeito moral pela polícia para dispersar os envolvidos. Em bairros como Vila Velha, equipes especializadas da polícia conduziram grandes números de suspeitos para a Delegacia de Combate às Ações Criminosas Organizadas (Draco).
Ninguém morreu, mas pelo menos três vítimas de agressões foram levadas a hospitais da cidade com ferimentos graves. Pelo menos 360 pessoas foram presas ou detidas pela PM no dia da confusão, entre adultos e menores de idade. A PM prendeu os torcedores por associação criminosa, corrupção de menores, lesão corporal, desacato, desobediência, resistência e tumulto.
Em uma das ocorrências, registrada no Bairro Edson Queiroz, equipes do Comando de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio) capturaram 184 pessoas, 103 adultos e 81 adolescentes, integrantes de ambas as torcidas. Ainda foram apreendidas bombas caseiras, entorpecentes, porretes e telefones celulares usados para registrar os conflitos.
O MP-CE suspendeu as quatro principais torcidas organizadas envolvidas no episódio dos estádios por cinco jogos — Torcida Organizada do Ceará (TOC); Movimento Organizado Força Independente (MOFI), Bonde da Aliança e Força da Galera.
"A medida tem caráter preventivo e educativo. O objetivo é coibir novas ocorrências de violência e reforçar a segurança nos eventos esportivos", afirma o Ministério Público em posicionamento público. O MP ressaltou que a reincidência de condutas violentas poderão resultar em sanções mais rigorosas, inclusive o banimento dos estádios por período indeterminado.
Líderes de torcidas organizadas renunciam após supostas ameaças do Comando Vermelho no Ceará
O Comando Vermelho do Ceará, no entanto, teria achado as ações das autoridades insuficientes, indo além e determinando o “salve” com a proibição irrestrita dos confrontos entre torcidas organizadas. Em outra mensagem também atribuída ao grupo criminoso, é exigida a renúncia dos presidentes das organizadas envolvidas no confronto.
Fato é que os quatro líderes renunciaram em vídeos publicados nas redes sociais, sem mencionar a briga ou a facção. Outro “salve” traz ainda a determinação para o fechamento das sedes e lojas oficiais das quatro torcidas.
Nas redes sociais, era possível encontrar fotos e vídeos das lojas supostamente fechadas na quarta-feira (11). A facção criminosa teria ainda proibido os torcedores de ostentarem camisetas e símbolos das torcidas organizadas nas ruas do estado nordestino.
A reportagem da Gazeta do Povo tentou contato com as torcidas organizadas e suas lojas oficiais nesta quinta-feira (12), mas não obteve sucesso. Em nota divulgada à imprensa, o MP-CE confirma que investiga a veracidade dos “salves”.
O MP, "por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e do Núcleo do Desporto e Defesa do Torcedor (Nudetor), confirma que está investigando o caso. Mais informações poderão ser repassadas em momento oportuno, visando não comprometer as investigações em andamento".
A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social informa que a Polícia Civil do Estado do Ceará "apura todas as informações de ações criminosas que chegam ao conhecimento das autoridades policiais". A pasta acrescenta que setores de Inteligências das Forças de Segurança do Estado auxiliam os trabalhos policiais. De acordo com o Diário do Nordeste, os serviços de Inteligência dos Órgãos de Segurança Pública confirmaram a veracidade dos "salves" e monitoram a situação.






