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Tratamento para lesão medular

Pesquisadora diz que fará correção em controverso estudo sobre polilaminina

Professora Doutora Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pelo desenvolvimento do estudo com a polilaminina. (Foto: HugoCarval/Wikimedia Commons)

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A pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável por um estudo que investiga a polilaminina como possível tratamento para lesões na medula espinhal, afirmou que fará correções no artigo científico que apresenta os primeiros testes em humanos. A informação foi revelada em reportagem exclusiva do G1.

Segundo Sampaio, o texto passará por uma revisão geral, com ajustes na apresentação de dados, correções técnicas e mudanças na forma como os resultados foram descritos. O estudo foi divulgado em fevereiro de 2024 como pré-print — versão preliminar de um artigo científico publicada antes da revisão por outros pesquisadores.

“Esse pré-print eu coloquei assim no momento. Pensei: ‘isso aí não vai dar ibope, vou deixar lá só para registrar que a gente fez isso em algum momento’. Mas ele não estava bem escrito”, disse a pesquisadora ao G1.

A pesquisa reúne duas décadas de estudos conduzidos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e inclui uma fase experimental iniciada em 2018 com oito pacientes humanos com lesão medular. Antes disso, a substância havia sido testada em cães. 

A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, molécula presente naturalmente nos tecidos do corpo, e a hipótese é que sua aplicação na medula lesionada possa estimular a regeneração de conexões nervosas.

O trabalho ganhou grande repercussão no início de 2026, quando a pesquisadora passou a dar entrevistas ao lado de Bruno Drummond, um dos pacientes que participou do estudo e voltou a andar após sofrer uma lesão medular.

Correções no artigo

De acordo com a pesquisadora, as mudanças não alteram os dados nem as conclusões do estudo, mas visam melhorar a forma de apresentação das informações. 

Entre os ajustes apontados por ela estão:

  • Correção em um gráfico que atribuía a um paciente morto cinco dias após o procedimento dados de acompanhamento de cerca de 400 dias — erro que, segundo a pesquisadora, ocorreu por digitação e na verdade pertence a outro participante;<br>
  • Substituição de uma figura de eletromiografia, exame usado para avaliar a comunicação entre nervos e músculos, que teria sido apresentada com dados brutos;<br>
  • Nova análise separando pacientes por tipo de lesão, para destacar diferenças de evolução clínica;<br>
  • Revisão da redação do artigo, com explicações mais claras sobre procedimentos e resultados.

Tatiana Sampaio também afirmou que uma versão revisada do estudo já foi submetida a duas revistas científicas — Springer Nature e Journal of Neurosurgery —, mas foi rejeitada. Agora, ela trabalha em um novo manuscrito para tentar publicar os resultados.

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Questionamentos de especialistas

A divulgação do estudo gerou forte repercussão nas redes sociais e também críticas de parte da comunidade científica. Pesquisadores apontaram inconsistências na apresentação de alguns dados e questionaram a interpretação da eficácia do tratamento.

Entre as dúvidas levantadas está o fato de o estudo não ter utilizado grupo controle, metodologia comum em ensaios clínicos que permite comparar pacientes que recebem o tratamento com outros que não recebem.

Além disso, os participantes passaram por cirurgia e fisioterapia intensiva, tratamentos que já podem gerar algum grau de recuperação — o que dificulta determinar se a melhora observada foi causada especificamente pela polilaminina.

Próximos passos

Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de ensaios clínicos regulatórios em humanos. O estudo aguarda análise da comissão de ética e, por isso, os testes ainda não começaram.

Especialistas ouvidos pelo G1 afirmam que ainda é necessário iniciar ensaios clínicos e ampliar os testes para avaliar a segurança da substância e possíveis efeitos adversos. Caso essas etapas tenham resultados positivos, o próximo passo é solicitar o registro sanitário. Somente após a aprovação das autoridades regulatórias o medicamento poderá ser comercializado.

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