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Entre Brasil e Argentina

Ponte estratégica tem potencial para se tornar uma das mais relevantes da América Latina

A futura ponte internacional entre Porto Xavier (RS) e San Javier (Argentina) promete transformar a logística, o comércio e o desenvolvimento econômico na fronteira entre os dois países.
A futura ponte internacional entre Porto Xavier (RS) e San Javier (Argentina) promete transformar a logística, o comércio e o desenvolvimento econômico na fronteira entre os dois países. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)

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A futura ponte internacional entre Porto Xavier, localizado no noroeste do Rio Grande do Sul, e San Javier, na província de Misiones, na Argentina, começa a sair do papel após décadas de espera. Considerada estratégica para a integração logística entre Brasil e Argentina, a obra tem potencial para transformar a dinâmica econômica da fronteira, além de reduzir custos de transporte, atrair investimentos industriais e consolidar um novo corredor de comércio exterior no Sul do país.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) emitiu, em 19 de dezembro de 2025, a ordem de serviço para a implantação da ponte internacional. De acordo com o órgão, o contrato está sob responsabilidade do Consórcio Ponte Rio Uruguai-RS, que iniciou a mobilização para a elaboração dos projetos básico e executivo de engenharia.

O cronograma segue o previsto no edital, com conclusão da construção estimada para novembro de 2029. O investimento total é de aproximadamente R$ 214,7 milhões, com recursos previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O Dnit informou que os detalhes técnicos da obra serão divulgados após a conclusão e aprovação dos projetos, que está em fase inicial.

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Obra da ponte internacional prevê acessos viários dos dois lados da fronteira

De acordo com o Dnit, o contrato prevê a implantação dos acessos viários nos dois lados da fronteira, tanto no Brasil quanto na Argentina. Além disso, inclui a infraestrutura completa dos complexos integrados de fronteira — as aduanas — na BR-392/RS.

Segundo Saverio Santoro, diretor da Rivoli Costrutora — empresa que integra o Consórcio Ponte Rio Uruguai-RS — o primeiro passo será a elaboração do projeto ambiental e do projeto da ponte. Essa etapa deve levar cerca de 12 meses, especialmente por conta da complexidade do licenciamento ambiental.

"Sem essas autorizações, não é possível iniciar qualquer intervenção material na obra", explica. Caso esse prazo seja reduzido, Santoro acredita que a execução poderá começar antes do previsto.

O projeto licitado prevê uma ponte com cerca de 950 metros de extensão, apta a receber todo tipo de tráfego, incluindo passagem de pedestres. A expectativa é de geração de cerca de 200 empregos diretos durante a execução da obra. O consórcio reúne as empresas Rivoli S.A., Vereda Construções, Ambierg, Agrar e Mello Azevedo.

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Nova ponte internacional reposicionará o noroeste gaúcho como corredor logístico

Para o setor industrial, a nova ponte internacional representa uma mudança estrutural na logística do noroeste gaúcho. Na análise do presidente do Sistema da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Claudio Bier, a ausência de uma travessia permanente em Porto Xavier, por décadas, impediu a instalação de indústrias estratégicas na região.

"Uma logística eficiente atrai investimentos e instalação de empresas. O atraso de décadas na ponte de Porto Xavier impediu que indústrias de processamento de grãos, como as de óleo de soja, se fixassem no noroeste gaúcho. O custo de exportação via balsa ou o desvio por Uruguaiana tornava o produto menos competitivo", afirma Bier.

Embora o maior volume de cargas entre Rio Grande do Sul e Argentina passe por Uruguaiana e São Borja, a nova ponte pode transformar Porto Xavier no terceiro grande corredor logístico dessa relação bilateral. As exportações da região concentram-se em produtos e maquinário agrícola, com cerca de 12 mil cargas movimentadas por ano.

Com a ponte, a expectativa da Fiergs é de um crescimento de aproximadamente 30% no fluxo do comércio exterior. Na avaliação de Bier, esse aumento tende a desafogar portos secos como os de Uruguaiana e São Borja e a criar uma rota mais eficiente para o escoamento de grãos, proteína animal e biocombustíveis produzidos no norte do estado.

A ampliação e a instalação recente de plantas de biodiesel em municípios como Passo Fundo reforçam essa demanda por rotas logísticas mais eficientes para entrada de insumos e saída de produtos acabados.

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Proposta é de integrar o RS à Rota Bioceânica e reduzir gargalos históricos

A ponte internacional também se insere na chamada Rota Bioceânica do Sul, um corredor multimodal que conecta o Rio Grande do Sul a países vizinhos como Argentina, Uruguai e Chile. Diferentemente de outras rotas, esse corredor não possui um traçado rígido, sendo caracterizado por diferentes alternativas logísticas, devido à alta concentração de cidades gêmeas e municípios fronteiriços no estado.

A partir dessa rota, a logística conecta cargas argentinas e paraguaias ao porto de Rio Grande; ao porto de Imbituba, em Santa Catarina; e futuramente ao novo porto de Arroio do Sal, por meio da BR-285, da BR-392 e da conexão com a BR-290. A nova ponte pode viabilizar um fluxo mais relevante de exportações e importações pela região, além de estimular o turismo entre os dois países.

Enquanto não tem ponte, a travessia entre Porto Xavier e San Javier depende exclusivamente de balsas, um sistema considerado precário pelo setor produtivo. As limitações de horário, capacidade e operação afetam diretamente a competitividade das empresas locais.

Em períodos de chuvas intensas, quando há elevação do nível do rio Uruguai, os serviços são suspensos. Há ainda interrupções por manutenção ou excesso de demanda.

De acordo com o presidente da Fiergs, essas restrições geram filas, atrasos e custos adicionais. Caminhões podem esperar até 72 horas em portos secos, como o de Uruguaiana, mesmo quando as cargas não exigem inspeção física. Além disso, o descompasso entre os horários de funcionamento da Receita Federal no Brasil e da Aduana argentina cria longos períodos de inatividade.

"Para a indústria, isso significa aumento de custos logísticos, dificuldades no cumprimento de contratos e menor atratividade para novos investimentos. A imprevisibilidade logística atua como um freio ao desenvolvimento regional", avalia Bier. Para ele, a ponte permitiria um fluxo mais ágil e contínuo, com redução dos custos logísticos.

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Ponte internacional enfrenta décadas de entraves burocráticos

Porto Xavier se destaca como uma das principais portas de saída para a produção de soja e grãos das Missões e do noroeste gaúcho. A substituição das balsas por uma ponte permanente tende a reduzir gargalos logísticos, integrar melhor a região ao transporte rodoviário de longa distância e tornar o escoamento da produção mais competitivo.

A obra dialoga com outros projetos estruturantes do estado, como a conclusão da BR-285 em São José dos Ausentes, a concessão da BR-392 e a adequação da BR-290. Esses eixos conectam a produção gaúcha aos portos e aos países vizinhos, ampliando as alternativas logísticas. A articulação com o futuro Porto de Arroio do Sal fortalece a competitividade do Rio Grande do Sul no comércio exterior.

Projetos de integração como a ponte de Porto Xavier costumam levar décadas entre a promessa e a execução. Para a Fiergs, a burocracia histórica gerou perdas econômicas acumuladas ao longo do tempo. Cada ano de atraso representou menos investimentos, menos empregos e menor competitividade regional.

Na fronteira, esses impactos são ainda mais sensíveis, uma vez que a integração física é condição básica para o comércio internacional e para cadeias produtivas transfronteiriças. A entidade aponta a burocracia excessiva, a falta de coordenação entre governos e a lentidão nos processos de licenciamento como fatores que afastaram investimentos privados.

A assinatura do contrato entre o governo federal e o consórcio é vista como uma sinalização positiva, mas que precisa ser acompanhada de perto para que os prazos sejam efetivamente cumpridos.

Ponte precisa de integração para cumprir seu papel, avalia Fiergs

Para a Fiergs, a ponte é um elemento central, mas não suficiente por si só. A entidade defende uma agenda integrada que inclua a melhoria da infraestrutura viária regional. Além disso, apoia a execução de outras pontes internacionais e a qualificação das rodovias de acesso.

Também é apontada a necessidade de uma gestão aduaneira integrada, com coordenação binacional, investimentos e modernização das estruturas, de forma a reduzir a burocracia e agilizar a liberação de cargas. O alinhamento de políticas de desenvolvimento regional e de atração de investimentos industriais e logísticos é visto como fundamental para que a nova infraestrutura se traduza em desenvolvimento sustentável, geração de emprego qualificado e fortalecimento da base produtiva da região.

Mesmo com os riscos de atrasos e entraves administrativos, a avaliação do setor produtivo é de que a ponte tende a trazer benefícios significativos ao transporte e ao desenvolvimento do estado como um todo.

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Governo articula acordo binacional e acelera projetos de novas pontes com a Argentina

O poder público oficializou a assinatura do contrato em 15 de outubro de 2025. O Rio Grande do Sul conta com duas pontes internacionais em funcionamento com a Argentina: São Borja–Santo Tomé e Uruguaiana–Paso de los Libres.

A construção da ponte Porto Xavier–San Javier faz parte de uma articulação mais ampla entre os governos do Brasil e da Argentina. Como o ponto de ligação está em território gaúcho, o governo do estado atuou para viabilizar três novas pontes internacionais. São elas: Porto Xavier–San Javier, Porto Mauá–Alba Posse e Itaqui–Alvear.

A iniciativa é coordenada pelo gabinete do vice-governador, Gabriel Souza, com participação das secretarias estaduais de Logística e Transportes e de Planejamento, Governança e Gestão, além do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer).

O estado também articulou reuniões com autoridades argentinas, solicitou a inclusão do tema na Comissão Mista Brasil–Argentina (Combi) e contratou a Caixa Econômica Federal para elaboração de termos de referência e análise dos projetos de engenharia. O investimento estadual para o avanço técnico dos anteprojetos das três pontes foi de R$ 553 mil, valor destinado a embasar os processos licitatórios.

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