
Dificilmente, alguém já passou ileso pela frase: "vá ao teatro, mas não me chame". É fato: muita gente não gosta de encarar os atores em cima do palco, seja pelo medo iminente de interação ou por achar o ambiente "frio".
É justamente para essas pessoas que o diretor da companhia Vigor Mortis, Paulo Biscaia Filho, gosta de fazer seus projetos, que já duram 15 anos. Um teatro notoriamente cinematográfico, onde os elementos visuais no palco e as histórias repletas de fatos do submundo mantêm a plateia ocupada. Para comemorar a nova idade, eles estreiam diversos projetos, indo da literatura ao lançamento do segundo longa-metragem. O volume de trabalho fez com que a companhia, inclusive, optasse por ficar de fora do Festival de Teatro deste ano.
"Como realizador sinto que tenho a obrigação social de fazer com que o público compreenda e aprecie verdadeiramente. O que não significa fazer comédias rasteiras. E é possível ter sucesso sem desmerecer o público", acredita Biscaia. Tudo começou em 1997 com o espetáculo Peep Através dos Olhos de um Serial Killer. Porém, foi a partir de Morgue Story Sangue, Baiacu e Quadrinhos (2004) que Paulo definiu o caminho que desejava seguir. "Passei a fazer peças e filmes que eu não gostaria só de fazer, mas de ver." Na época, ele achou que ficaria algumas semanas em cartaz e depois "iria para casa ser feliz". "Mas o destino, esse menino peralta [risos], fez com que eu tivesse a necessidade de desdobrar essa ideia peça após peça, e agora filme após filme."
Mais do que ter o tema violência presente em seus trabalhos, o interesse do diretor é o de contar histórias. Tanto que a nova peça que estreia em abril traz à cena o mito José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Protagonizada pelo ator Leandro Daniel Colombo (coautor do texto), a peça conta a história de um produtor de cinema que faz um pacto de sangue com Mojica, e acaba sendo sugado pelo seu universo. Colombo contracenará, por meio de vídeo, com atores convidados, entre eles, o próprio Zé do Caixão.
Cinema
Nos últimos anos, Biscaia tem se dedicado mais ao cinema. "O Marco [Novack, produtor da Vigor Mortis] está me segurando para continuar fazendo teatro [risos]. Mas estou diminuindo. Meu interesse maior sempre foi pelo cinema, mas depois que fiz o curso de teatro acabei deixando de lado. Não achava que cinema era possível. Quando comecei a produzir, vi que é disso que eu gosto."
Com provável lançamento em junho, Nervo Craniano Zero é o segundo longa-metragem da companhia, com adaptação do texto homônimo para teatro (2009). Em fase de finalização, o filme será distribuído pela Moro Filmes e traz no elenco as atrizes Guenia Lemos e Uyara Torrente (também vocalista da Banda Mais Bonita da Cidade). "Um mês antes de começarmos o filme, a banda estourou. Mesmo assim, ela se manteve fiel ao projeto, e construiu um personagem engraçado e tocante", conta Biscaia.
Organização
Manter diversos projetos ao mesmo tempo, segundo o produtor Marco Novack, não é simples. "É como se tivesse um armário com várias gavetas. Você mexe em uma e depois fecha. Se não cuidar da parte burocrática, a artística não acontece." Na parte criativa, o processo de pesquisa é fundamental: em Séance As Algemas de Houdini, por exemplo, os atores tiveram aulas com um mágico para utilizar alguns truques durante a montagem. Para a nova peça, Paulo se prepara para uma "maratona Mojica". "Deixei os outros trabalhos encaminhados e vou me enfurnar para assistir a todos os filmes dele, além de reler livros. Me deixo ficar respirando aquele universo, para trazer elementos para o texto e encenação."




