
Afinal, o mundo não é um lugar tão ruim assim. Ao menos este mês, quando a Fox coloca no mercado brasileiro uma caixa com 20 filmes de Woody Allen.
Do pacote, 17 foram lançados em algum outro momento no país, mas três saem pela primeira vez em DVD: Neblinas e Sombras (1991), Simplesmente Alice (1990) e Setembro (1987).
Nenhum desses é visto como imperdível ou sensacional, mas são trabalhos simpáticos à exceção do drama Setembro, parte da fase em que o diretor emulava o sueco Ingmar Bergman, de Cenas de um Casamento (1977).
Neblinas e Sombras é lembrado com frequência pelo tchauzinho que a Sharon Stone dá da janela do trem, quando ela ainda não era a Sharon Stone. O elenco tinha também a Madonna, apesar de quase ninguém se lembrar dela.
O adjetivo simpático se encaixa melhor a Simplesmente Alice, uma comédia singela com elementos fantásticos que remetem ao italiano Federico Fellini, outro cineasta que Allen adora. No papel da mulher-título, Mia Farrow vive numa redoma de conforto material que não hesita em implodir depois de visitar um acupuntor no bairro de Chinatown. O místico chinês oferece questionamentos que ela não pode ignorar e a incentiva na descoberta de seus desejos. É meio bobo, mas, de novo, simpático.
Woody Allen completa 75 anos no próximo 1º de dezembro e segue realizando filmes com uma regularidade impressionante, à razão de um por ano desde 1977, quando ganhou quatro estatuetas do Oscar por Noivo Neurótico e Noiva Nervosa: filme, diretor, atriz e roteiro original.
Na última década, tem havido um bocado de reclamação sobre como os trabalhos recentes não são páreos para os antigos, sobre como Woody Allen não é mais tão bom e por aí vai. No entanto, não se ignora um filme dele nunca e a admiração de que é alvo merece uma tentativa de análise.
Nova York fictícia
Embora ele esteja produzindo nas cidades dispostas a investir nos seus filmes (Barcelona, Londres e Paris), não dá para dissociar o diretor de Nova York. Mais ou menos como, na literatura, o País das Maravilhas está para Lewis Carroll e a Terra Média, para J.R.R. Tolkien, criador da trilogia O Senhor dos Anéis. E a Nova York de Allen é tão fictícia quanto os outros dois.
Nesse mundo alternativo, as pessoas encontram o valor da vida numa música de Louis Armstrong ou numa pintura de Cézanne, mas também no rosto da pessoa amada (exatamente como o personagem Isaac Davis lista ao fim de Manhattan).
Ninguém no mundo de Allen vive à revelia. Fala-se de tudo o tempo todo. As pessoas se apaixonam e têm consciência disso mesmo que não queiram , riem de si mesmas, ficam tristes e falam a respeito, se sentem confusas e não param de conversar até encontrar uma explicação que as deixe um pouco menos perdidas.
Para Woody Allen, conversar é uma das coisas que deixam a vida mais prazerosa. As piadas tornam as neuroses mais leves, mas elas não estão ali para fazer rir. Antes servem de desafogo. Allen diz coisas importantes, mas o faz como se fosse nada demais.
Cecilia, a protagonista de A Rosa Púrpura do Cairo, vivida por Mia Farrow, leva uma existência sofrível durante a Depressão nos Estados Unidos. Isso foi nos anos 1930. Com um marido desprezível, busca refúgio no cinema e, depois de assistir a um mesmo filme oito vezes, ela entra na história literalmente, se envolvendo com um dos personagens. Mais tarde, diz: "Eu acabei de conhecer um homem maravilhoso. Ele é fictício, mas não se pode ter tudo."
É uma frase engraçada, mas não do tipo que faz gargalhar. Se os personagens de Allen são conscientes, ele também o é e conta histórias cômicas ou românticas sem nunca perder de vista os absurdos do cotidiano ou da vida a dois.
Então é por isso que admiramos o cineasta com os óculos indefectíveis, que se casou com a filha adotiva da ex-mulher. Porque os filmes dele nos deixam menos solitários.
Serviço: Caixa com 20 filmes de Woody Allen. Distribuidora: Fox. Preço médio: R$ 249,90.






