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Memória

A América verdadeira

O escritor John Updike, morto anteontem, considerava os subúrbios de classe média dos EUA o principal tema de sua obra

John Updike: “É nos meios que os extremos colidem, onde a ambiguidade continuamente comanda” | Divulgação
John Updike: “É nos meios que os extremos colidem, onde a ambiguidade continuamente comanda” (Foto: Divulgação)
Além de romancista, Updike foi crítico de arte e de literatura |

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Além de romancista, Updike foi crítico de arte e de literatura

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Veja 14 títulos do autor disponíveis no Brasil

Rio de Janeiro - O norte-americano John Updike foi um escritor prolífico, autor de mais de 50 obras, conhecido principalmente por seus retratos agudos da vida nos subúrbios americanos.

Duas vezes vencedor do Prêmio Pulitzer, era considerado um dos grandes autores americanos da segunda metade do século 20, comparado a clássicos como Henry James e Edmund Wilson. Além de romances, escreveu contos, poemas, ensaios e críticas de arte e literatura.

Aclamado pelos críticos, foi também um autor popular, com vários livros incluídos nas listas de mais vendidos. Os cenários de seus livros iam da corte de Hamlet à África pós-colonial, mas seu lar literário era o subúrbio americano, onde situou histórias de infidelidade, angústia e buscas nem sempre bem-sucedidas por felicidade.

Nascido em 18 de março de 1932, Updike era visto como a voz da geração criada durante a depressão americana, que experimentou anos de penúria seguidos pelo boom econômico do pós-guerra. "Meu assunto é a classe média americana de pequenas cidades", ele declarou em 1966 numa entrevista à revista Time. "Eu gosto dos meios. É nos meios que os extremos colidem, onde a ambiguidade continuamente comanda."

Sua escrita era elogiada tanto pela verve satírica quanto pela força evocativa de suas imagens. Estas, com frequência, lançavam um olhar lírico sobre acontecimentos triviais. Detalhistas, seus livros exploraram a vida íntima de personagens tão díspares como um jovem terrorista muçulmano e pacatos casais de classe média.

Composta por Coelho Corre (1960), Coelho em Crise (1971), Coelho Cresce (1981), Coelho Cai (1990), a tetralogia dedicada a Harry "Coelho" Angstrom é considerada seu melhor trabalho. Em 2001, ele publicou uma sequência, Coelho se Cala e Outras Histórias.

Estendida por um período de 30 anos, a série acompanha a vida de uma ex-estrela do basquete colegial (o Coelho), das glórias da juventude ao ajuste relutante à rotina da vida adulta, com suas demandas profissionais e familiares.

"A tetralogia, para mim, é a história de uma vida, a vida vivida por um cidadão americano que compartilha a paixão nacional por juventude, liberdade e sexo, a abertura e o interesse nacionais pelo aprendizado, o hábito nacional do improviso", Updike escreveu. "Ele é, além disso, um protestante, assombrado por um Deus cujas manifestações são elusivas, mas decisivas."

O próprio Updike foi criado numa comunidade protestante em Shillington, Pensilvânia, e por toda a vida manteve um hábito regular de ir à igreja. O autor nasceu em Reading, também na Pensilvânia, filho de uma vendedora e um professor.

No romance O Centauro (1964), Updike recordou o pai com afeto e tristeza, falando de seus baixos salários e alunos desdenhosos. Sofrendo desde cedo de asma, psoríase e gagueira, Updike encontrou na escrita e nos desenhos válvulas de escape para sua criatividade (antes de pretender ser escritor, ele planejava ser cartunista ou um animador da Disney).

Updike se formou em Literatura em 1954 em Harvard, onde estudou com uma bolsa e conheceu sua primeira mulher, Mary Entwistle Pennington (eles se divorciaram em 1975, e dois anos depois Updike se casou com Martha Bernhard). Após a graduação, Updike estudou desenho e artes plásticas em Oxford, na Inglaterra. Ao voltar de lá, se tornou um colaborador frequente da revista americana The New Yorker, onde publicou contos e críticas de livros.

Na década de 1950, Updike publicou uma coletânea de contos; um livro de poesia; seu primeiro romance, The Poorhouse Fair; e o primeiro livro da sua série celebrada, Corre, Coelho. Os elogios foram tão imediatos e tão frequentes que o crítico do New York Times Arthur Mizener chegou a se dizer preocupado que o talento natural de Updike fosse perturbado pelas louvações gerais.

Em 1957, Updike se mudou de Nova Iorque, deixando para trás o que descreveu como seu "assédio cultural", e se estabeleceu com a primeira mulher e quatro filhos em Ipswich, Massachusetts, 50 quilômetros a norte de Boston.

Outros de seus livros conhecidos são Casais, uma história explícita sobre a vida sexual nos subúrbios que vendeu milhões de cópias; e As Bruxas de Eastwick, adaptado para o cinema em 1987 por George Miller, com Jack Nicholson, Cher, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer no elenco.

Embora nunca tenha ganhado o Prêmio Nobel, ele o conferiu a um de seus personagens, Henry Bech, um romancista judeu mulherengo e egoísta que figura em várias de suas narrativas. Em 1994, ele publicou o romance Brazil, ambientado no Rio de Janeiro — que visitara em 1992 —, sobre o amor entre um jovem negro e pobre e a filha branca de um diplomata, uma recriação da história de Tristão e Isolda com elementos de realismo mágico.

No Brasil, seus livros são publicados pela Companhia das Letras, que lançou no ano passado seu romance mais recente, Cidadezinhas.

John Updike morreu anteontem em Massachusetts, aos 76 anos, de câncer no pulmão, informou sua editora nos EUA, a Knopf.

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