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Comportamento

A arte que forma filas

Apesar de um aumento considerável, exposições realizadas em Curitiba ainda não conseguem angariar grande quantidade de visitantes

O CCBB em São Paulo: público precisou esperar até três horas na fila para conseguir ver as obras vindas do Museu d’Orsay | Divulgação
O CCBB em São Paulo: público precisou esperar até três horas na fila para conseguir ver as obras vindas do Museu d’Orsay (Foto: Divulgação)
A atriz Carolina Meinerz, que costuma ir para São Paulo ver mostras de arte, acredita que Curitiba tem de investir mais em formação de plateia |

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A atriz Carolina Meinerz, que costuma ir para São Paulo ver mostras de arte, acredita que Curitiba tem de investir mais em formação de plateia

Há uma máxima disseminada de que o curitibano adora uma fila, seja no restaurante, cinema ou bar. O fato, entretanto, não se aplica quando falamos de visitação a exposições. Mesmo com mostras de apelo – como as recém-encerradas Poty, de Todos Nós e Modigliani, Imagens de uma Vida, no Museu Oscar Niemeyer (MON) – o público não é atraído a ponto de esperar horas em frente ao museu, como vem acontecendo nos últimos meses em São Paulo com Impressionismo: Paris e a Modernidade, que reúne 85 obras do acervo do Museu d’Orsay, de Paris, e encerra temporada na capital paulista hoje (depois segue para o Rio de Janeiro). Até o último dia, a exposição, que foi inaugurada no início de agosto e realizou três "viradas", com horários estendidos até a madrugada, atraiu quase 300 mil visitantes, de acordo com o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). E a espera na fila, dependendo do dia, durava até três horas.

Outro "fenômeno" paulista neste ano foi Caravaggio e Seus Seguidores, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), que ficou em cartaz de 1º de agosto até o dia 30 do mês passado: foram 160 mil visitantes até 20 de setembro, e o Masp teve de estender seu horário de funcionamento em uma hora nos últimos quatro dias da exposição. Levando em conta a grande diferença no número de habitantes que Curitiba tem em relação à capital paulista, a visitação das consideradas megaexposições por aqui é expressiva, mas ainda tímida se comparada aos "megaeventos" de arte em São Paulo.

No MON, as obras de Modigliani foram vistas por 48 mil visitantes do dia 26 de julho até 30 de setembro; na mostra de Poty, foram 120 mil – com início no dia 29 de março e término também no fim do mês passado, menos da metade das pessoas que passaram pelo CCBB num período de 60 dias.

Divulgação em massa por toda a cidade é um ponto citado por quem se deslocou até São Paulo para ver a mostra impressionista, algo que poderia ser adotado para exposições locais. "A propaganda era intensa em pontos de ônibus, na televisão, em todos os cantos", conta a historiadora e professora universitária Paula Chagas, que aproveitou uma folga entre as disciplinas do doutorado que realiza na cidade para ir ao CCBB. "Tudo foi muito bem organizado, desde a fila até a limitação de pessoas por sala, que não eram entulhadas de obras e traziam textos explicativos", elogia.

A atriz Carolina Meinerz, que morou em São Paulo por cinco anos e atualmente reside em Curitiba, costuma viajar para a capital paulista com frequência para se manter "a par do que acontece" na área de artes. Para ela, a exposição se tornou um evento obrigatório para quem mora ou está na cidade. "É tão falado que acaba se transformando em um fenômeno. Vi pessoas de diversas formações no museu, que estão lá mais pelo que é comentado. Em Curitiba, poucos sabiam que a exposição de Modigliani estava em cartaz, o que é ruim, pois muitos gostariam de conhecer as obras. Porém, também é algo positivo, porque não se faz da arte um evento de mercado." Ela acredita, ainda, que as exposições em Curitiba são muito focadas na arte local. "É algo essencial, e que falta em São Paulo. Mas Curitiba deveria aprender a ser menos regionalista, assim como São Paulo tem de dar mais espaço aos artistas de lá."

A professora de História da Arte da Universidade Tuiuti do Paraná, Maria Cristina Mendes, recorda da mostra Eternos Tesouros do Japão, realizada no MON em 2006, que gerou grandes filas. "Foi uma das exposições mais caras que o museu já produziu [mais de R$ 2 milhões]. Não sei se hoje o museu tem verba para realizar esse tipo de evento."

Quantidade

Para a diretora do MON, Estela Sandrini, o público frequentador das exposições do museu é "significativo", mas "poderia ser melhor". Ela conta que, desde o começo de 2012, a visitação aumentou 50% – ações como atividades nas férias de julho resultaram em 10 mil pessoas a mais naquele mês. Seminários, lançamentos de catálogos de arte, palestras e o projeto Mais MON, lançado no mês passado, que estende o horário de funcionamento em duas horas todas as primeiras quintas-feiras do mês, são algumas estratégias para alavancar os números. "A divulgação tem melhorado, principalmente nas redes sociais. Ainda há muito o que fazer, mas aumentar 10 mil pessoas em um mês é algo bastante satisfatório."

O museu esbarra em uma questão logística para trazer mostras como a dos impressionistas: Estela conta que o fato de São Paulo ter voo direto de Paris, por exemplo, facilitou a escolha da cidade. Além disso, os produtores locais não conseguem arcar com custos de seguro tão altos. "Agora estamos com uma conversa bem avançada com o CCBB para realizar um convênio. Assim o MON entrará na rota dessas megaexposições", esclarece.

Adiamento

A professora Maria Cris­tina acredita que a timidez do público não se deva à falta de qualidade nos temas das exposições ou ao pouco interesse por arte. "As pessoas acabam deixando para ver depois. Me impressiona sempre o número de pessoas nos arredores do MON. Se todos entrassem, seria maravilhoso. Há também o próprio ‘problema’ do Niemeyer. O visitante vê a arquitetura por fora e fica satisfeito."

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