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Artigo

A corda, o nó, o laço

O escritor David Foster Wallace se suicidou em 12 de setembro de 2008, aos 46 anos | Marion Ettlinger/Divulgação
O escritor David Foster Wallace se suicidou em 12 de setembro de 2008, aos 46 anos (Foto: Marion Ettlinger/Divulgação)

Vivemos no absurdo. Vivemos na dor. Vivemos no impensável, no inominável, no inefável. Mas ao mesmo tempo vivemos num mundo, entre pessoas, que podem sempre se revelar incrível e indizivelmente belos.

Não sei se é a sensação do passageiro, apenas. Mas o fato é que parece, e pareceu a muita gente boa, que entender o absurdo peculiar do século 20 e do século 20 do pós-guerra ainda mais especialmente, é tarefa ainda mais especialmente complexa. Mais absurda.

Samuel Beckett, cujos 20 anos de morte andamos lembrando durante esse segundo semestre, foi certamente uma das figuras centrais no processo de entendermos certas incomprensibilidades, de darmos sentido a certos sem-sentidos. Seja o que for que haja para entender, me parece claro que entendeu melhor quem viu os sujeitinhos esperando aquele já proverbial Godot, quem conviveu com Krapp, ouvindo sua última fita, com Hamm e Clov naquele Fim de Partida.

Esse tipo de impacto é sempre melhor julgado com alguma distância, claro.

David Foster Wallace (1962-2008), no entanto, morreu há apenas um ano, e me parece ser membro do mesmo, tristonho e impactante, clube.

Mais ainda pelo fato de que ele tomou a decisão que, a muitos leitores-espectadores de Beckett, teria parecido muito mais coerente para o irlandês do que para ele. David Foster Wallace se enforcou numa viga do quintas de sua casa no dia 12 de setembro de 2008, aos 46 anos de idade.

Já durante sua vida ele foi ganhando reputações.

O melhor escritor de sua geração. O escritor que os outros escritores "jovens" admiravam, copiavam, idolatravam às vezes.

Um estilista da prosa inglesa como havia muito tempo não se via.

Um dos escritores mais atentos à oralidade e às multiplicidades de registros e variedades de uma língua particularmente vária.

Um filósofo que virou escritor.

Um dos indivíduos mais preparados para, generosa e competentemente, olhar para as pessoas a sua volta, a nossa volta, e tentar entender o que representa ser cada um deles em cada uma daquelas vidas. O que representa ser outro. Agora. Aqui. Ou lá, naqueles Estados Unidos.

Seu primeiro romance (The Broom of the System) teve um impacto enorme, o segundo (Infinite Jest), rapidamente se tornou "o" clássico dos anos 90. Mas talvez tenha sido nos contos que ele tenha decididamente revirado a literatura americana. Ou nos ensaios. Escolha.

O fato é que, antes da depressão crônica que o torturava desde a juventude, a tristeza diante do absurdo do mundo, ou sei mais o quê, antes de qualquer coisa ter levado David Wallace àquele ponto-final diante daquela viga, sozinho naquela casa, ele havia deixado para você uma pilha de chaves, de possibilidades de talvez não precisar chegar até ali.

De certamente poder viver entre os outros entendendo me­­lhor o que vê, e vendo que o mundo pode, não negar, mas englobar e mesmo superar o absurdo de Beckett.

Mais ainda, ele deixou sobre a mesa da escrivaninha, bem arrumadinho, tudo que tinha naquele momento de seu terceiro romance (The Pale King). Por esse a gente ainda espera. Nesse ainda há a vida que nos acostumamos a receber de Wallace.

Para marcar a data, um grupo de escritores-editores-tradutores inaugura no próximo dia 12 um site de homenagem a Wallace.

Serviço

Na internet: http://sites.google.com/site/thepaleking

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