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Visuais

A cultura brasileira contada no design

Livro recém-lançado pela editora Cosac Naify traz extenso levantamento em imagens e textos sobre a evolução das artes gráficas no Brasil

Ícones do design: capa do disco de Cartola, de 1977 | Imagens: Reprodução
Ícones do design: capa do disco de Cartola, de 1977 (Foto: Imagens: Reprodução)
As revistas Gráfica e Raposa (foto seguinte), do Paraná |

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As revistas Gráfica e Raposa (foto seguinte), do Paraná

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Primeira página de O Malho, de 1936, que não se preocupava em manter padrões |

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Primeira página de O Malho, de 1936, que não se preocupava em manter padrões

Tricô e Crochê continha trabalho original na década de 1940 |

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Tricô e Crochê continha trabalho original na década de 1940

J. Carlos, da revista Para Todos: ilustrador influente nos anos 1920 |

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J. Carlos, da revista Para Todos: ilustrador influente nos anos 1920

A Sports, surpresa para os organizadores do livro, que não conheciam a publicação |

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A Sports, surpresa para os organizadores do livro, que não conheciam a publicação

Cartazes de filmes como As Cariocas, destaque das artes gráficas de meados do século passado |

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Cartazes de filmes como As Cariocas, destaque das artes gráficas de meados do século passado

Parece contraditório que o Brasil, onde a atividade de impressão permaneceu proibida até o desembarque da corte portuguesa em 1808, tenha uma produção de design tão original e liberta de cópias norte-americanas ou europeias. Mas é isso que pode ser conferido no livro Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil (Cosac Naify), o levantamento mais abrangente realizado sobre a área no país. Organizado pelo designer e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Chico Homem de Melo e pela diretora de arte Elaine Ramos, a obra retrata dois séculos de produção, do início do século 19 ao final do século 20, em mais de 1,6 mil imagens.

Engana-se quem pensa que o livro é dirigido somente a quem atua no setor: o compêndio pode ser facilmente encarado como um tratado sobre aspectos diversos da cultura brasileira. Além de apresentar ao leitor publicações desconhecidas, os autores citam diversos exemplos da literatura (como as primeiras capas dos livros de Monteiro Lobato, por exemplo), cinema (há diversos cartazes de filmes do Cinema Novo), indústria fonográfica (com o início da elaboração de capas ilustradas para vinis, nos anos 1940) e também o surgimento das logomarcas no Brasil. "Quando peguei o livro, vi que conseguimos construir uma trajetória da cultura. E isso foi fruto natural do processo, saiu melhor que a encomenda", diz Melo.

O organizador explica que nunca houve a pretensão de fazer um trabalho analítico. "Nosso foco estava em construir o cenário, com uma seleção abrangente. Não estávamos preocupados em definir uma tese. Fomos com os olhos relativamente despidos". Foram três anos de trabalho para levantamento de bibliografia, buscas por material em bibliotecas e arquivos públicos, além de garimpo em sebos e feiras de antiguidade. Tudo isso foi feito por uma equipe pequena de colaboradores, entre eles Lucio Barbeiro, que atua como designer na Gazeta do Povo.

Até mesmo para Melo que, por causa da atividade acadêmica, está sempre em busca de materiais desconhecidos, houve surpresas. Entre elas, a revista Sports, da década de 1930. "Achávamos que era algum material importado. Aconteceu uma grande quantidade de descobertas", relata. Outro mérito do livro é possibilitar ao leitor o acompanhamento da evolução do design em áreas como a indústria fonográfica, e ver como todas as ideias de determinados períodos influenciavam-se.

Na chamada "era da fotografia" (veja quadro ao lado), as capas de disco são um destaque. Em Verde Que Te Quero Rosa, do sambista Cartola, a imagem realista do músico para ilustrar o disco de 1977 é quase um flagrante, solução pensada pelo designer Ney Tavora. Os anos 1970 também foram marcados pela eclosão da imprensa alternativa, com o surgimento de revistas como a Bondinho, no Rio de Janeiro.

Apesar de cada década ter características peculiares, Melo acredita que os anos 1920, 1960 e 1970 foram os mais férteis para a arte gráfica brasileira. "Muito se fala da Semana de 1922 e a eclosão do modernismo, mas o período é muito mais do que isso. E as décadas de 1960 e 1970 contêm o embrião do design de hoje. São fundamentais para entender a nossa cultura visual." Os textos curtos sobre períodos, autores e áreas são bastante elucidativos, bem como a contextualização de cada capítulo – há uma linha do tempo com os fatos mais relevantes do país na época retratada.

Paraná

O design paranaense também está presente na obra. Um dos primeiros exemplos são as capas feitas por Poty Lazzarotto para obras do escritor Guimarães Rosa. Segundo os autores, a parceria foi uma das mais fecundas da literatura brasileira, já que o texto de Rosa encontrou nos traços de Poty a sua melhor tradução. Capas da obra-prima Grande Sertão: Veredas (1956) e Sagarana (1958) foram trabalhadas pelo gravurista. Outras publicações locais citadas no livro são as revistas Raposa e Gráfica, do designer Oswaldo Miranda (o Miran), ambas da década de 1980. Os organizadores definem as publicações como "sem paralelo" no período, e que Gráfica é a melhor revista de design já publicada no país, com requintada impressão e acabamento.

Serviço:Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil, de Chico Homem de Melo e Elaine Ramos (Orgns). CosacNaify, 744 págs, R$ 198.

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