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A dama francesa do lago de Ypacaraí

Maria Paraguaya se destaca no cenário artístico curitibano esculpindo milagres retrôs

Paraguaya em seu território, com a cabeça de Keith Richards e o acordeão mágico | Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo
Paraguaya em seu território, com a cabeça de Keith Richards e o acordeão mágico (Foto: Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo)
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Praticamente nenhum dos objetos da sala onde vive a artista Maria Quevedo foi feito no século 21. Movéis vintage, roupas de brechó, instrumentos antigos, máquinas de escrever, câmeras fotográficas analógicas e centenas de discos de vinil ocupam o ambiente.

VÍDEOS: Veja clipes das bandas Cavernoso Viñon e Giovanni Caruso e o Escambau

Novos, apenas, alguns dos muitos livros, ainda que boa parte deles sejam reedições de obras de Poe ou Baudelaire ou biografias de pessoas notáveis da primeira metade do século passado, como Edith Piaf.

Outra exceção são as esculturas que produz e que se espalham pela casa dando ares de galeria de arte ao antigo apartamento no Centro de Curitiba.

Elas são especiais por dois motivos: a qualidade impressionante e o inusitado material que as compõem. Todas as obras foram trabalhadas na argila que veio do fundo do lago de Ypacaraí, no Paraguai – aquele, azul, da guarânia nostálgica.

"Esta argila é super-resistente, não precisa colocar em forno, é só deixar secar. Parece até mágica", explica, enquanto manuseia uma uma cabeça de Keith Richards.

Ela conta que está armando uma estratégia para entregar a escultura ao guitarrista na próxima turnê dos Rolling Stones no Brasil. "Eu amo este homem", afirma com sotaque, encarando Keith.

Nascida em Assunção, a artista cresceu na cidade de San Bernardino, um povoado colonial de veraneio a cerca de uma hora da capital paraguaia.

A infância na cidade balneário "meio draculesca, meio fantasmagórica", local onde se escondeu o famigerado médico nazista Josef Mengele (1911–1979), é muito presente na arte feita por ela.

Além das esculturas, foi lá que aprendeu música com o avô, um médico indigenista, e com o pai boêmio. Foi lá que cantou no coro do colégio de freiras em que estudou até os dezoito.

Aí, Maria Paraguaya resolveu mudar-se para Porto Alegre. Lá, morou nove anos, cinco para se formar em antropologia, e "mais quatro, só de vadiagem".

Sobrenatural

No verão de 2006, conheceu e se casou com o músico curitibano Giovanni Caruso, com quem tem uma filha. Foi neste tempo que começou a trabalhar profissionalmente com música. Primeiro como percussionista e backing vocal do grupo Giovanni Caruso e o Escambau, a "banda da família", cujas composições nascem em geral de retiros anuais no país natal – quando também coleta o material para novas esculturas.

Há dois anos, Paraguaya montou sua própria banda, a Cavernoso Viñon, em que canta e toca ao acordeão canções em francês que misturam o rock bêbado de Tom Waits com o pop romântico de Cristophe (leia mais sobre as bandas no quadro abaixo).

Como parece acontecer costumeiramente em sua vida, o projeto contou com certa intervenção sobrenatural, pois ela diz que, um mês antes de montar a banda, "não sabia falar francês, nem tocar acordeão".

Em uma história rocambolesca, no entanto, o instrumento passou por várias mãos antes de chegar às dela. "Um dia eu o abri e ele ficou ‘vivo’ no meu colo. Saí tocando", conta.

Com a língua, o lance foi parecido. "Eu não sei falar francês, mas comecei a compor em português e traduzir. Quando eu canto parece que eu falo muito bem", revela.

Ela lembra que um dia a banda foi convidada a tocar na France Folie – festa da colônia francesa em Curitiba – e a cônsul do país adorou sua música. "Ela me disse que eu represento a força da mulher francesa", se diverte.

"Eu não sei o que acontece, deve ser algum milagre. Uma vez eu fui ver essa coisa de vidas passadas e disseram que eu fui uma sinistra dama francesa," conclui.

Paraguaya, no entanto, é daquelas que ajudam a própria sorte. Está estudando o idioma – com bolsa paga pela Aliança Francesa – e acordeão.

Fossa

Mesmo assustada com a violência e o cenário devastado da arte em Curitiba, sua ideia é ficar por aqui por mais um tempo. Tanto que ela está abrindo uma loja, misto de brechó, café e galeria. Maria também quer retomar um projeto musical em que canta só "músicas de fossa": tristes boleros mexicanos e sambas-canção brasileiros. "Aquelas músicas para ouvir antes de se enforcar".

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