Torcedores em Montevidéu comemoram a vitória uruguaia na Copa de 50, chamando brasileiros de macacos | El País/Reprodução
Torcedores em Montevidéu comemoram a vitória uruguaia na Copa de 50, chamando brasileiros de macacos| Foto: El País/Reprodução
  • Nizan Pereira: racismo na come­moração da Copa de 50

Na comemoração da Copa do Mundo de 1950, em Montevidéu, capital do Uruguai, que venceu o anfitrião Brasil por 2 a 1, o racismo já se fazia evidente. Em foto do jornal espanhol El País, aqui reproduzida, um cartaz empunhado pelos hermanos substituía, no placar, o nome de nosso país por "Macacos".

Para o médico e doutor em Educação Nizan Pereira, a imagem tem muito a dizer tanto sobre os uruguaios, que não tiveram o maior pudor em esconder o seu racismo, quanto sobre o contexto sociocultural no qual a derrota do Brasil na Copa de 50 estava inserida.

Pereira lembra que enquanto o meia-esquerda Obdulio Jacinto Muiños Varela, mulato de pele clara, emergiu do campeonato como herói, com o apelido de El Negro Jefe (O Chefe Negro, em português), o goleiro Barbosa (Moacir Barbosa Nascimento), o meia Bigode (João Ferreira) e o zagueiro Juvenal (Juvenal Amarijo), negros de tez mais escura do que a de Varela, não tiveram a mesma sorte.

Embora não tenham sido apontados como responsáveis pela derrota brasileira em um primeiro momento, com o passar dos meses muitos dedos foram apontados em direção dos três jogadores, que, nas palavras da imprensa da época, não teriam tido "raça e fibra" para defender a camisa verde-amarela.

O jornalista Mário Ro­­­drigues Filho, mais conhe­­­cido por Mário Filho, que dá nome ao Estádio do Mara­­­canã por ter sido grande defensor da construção da arena futebolística no Rio de Janeiro e da vinda do mundial para o país, escreveu que a derrota brasileira na Copa de 1950 teria sido responsável por um surto racista no futebol brasileiro.

Em seu clássico O Negro no Futebol Brasileiro, publicado originalmente em 1947, com prefácio do sociólogo Gilberto Freyre, o jornalista abordou o lento e doloroso ingresso de negros e mulatos no futebol brasileiro, contestando o mito da democracia racial.

Ao reeditar seu livro, em oposição às vitórias de 1958 (Suécia) e 1962 (Chile), Mário Filho, para falar da derrota de 1950, define a culpa que teriam imputado a Barbosa, Bigode e Juvenal como um "um recrudescimento do racismo", que ressurgiu mais intenso e forte entre muitos brasileiros, que teriam ligado a perda na Copa à origem étnica e social dos jogadores.

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